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"QUEM SOMOS NÓS"

Publicação: Qua, 15 de junho de 2022

 

 

Periodicamente, a intervalos aproximados de quarenta dias, reunimo-nos na sede Lagoa do nosso Clube Militar, no Jardim Botânico, Rio de Janeiro, RJ, para almoços de confraternização entre amigos. Tais eventos ocorrem entre as onze e as dezesseis horas, faz já dez anos. Dias há em que chegamos a noventa presenças, embora rotineiramente sejam em torno de sessenta.

 

Somos todos militares da reserva ou reformados que, em sua maioria, se conhecem desde a juventude, das mais variadas origens: dos Colégios Militares, das Escolas Preparatórias de Cadetes ou mesmo do meio civil.

 

Em nosso aprendizado, na vida militar, aprendemos a valorizar o contato renovado entre velhos companheiros e amigos, e esses acontecimentos periódicos oferecem-nos a oportunidade de deixar o isolamento dos nossos lares e desfrutar do convívio com antigos camaradas de trabalho. Alguns confessam abertamente que aguardam, com ansiedade, nossos encontros onde têm a oportunidade de quebrar a rotina da aposentadoria.

 

A cada vez que nos reunimos, constatamos que somente o tempo dedicado ao nosso Exército nos possibilita chegar ao ocaso da vida, ainda com bastante saúde e disposição, apesar das ausências ocasionadas por doenças ou falecimentos, em número reduzidíssimo se comparados com outros grupos profissionais.

 

Essas reuniões tiveram início há dez anos, num restaurante da Barra da Tijuca, onde se reuniram três amigos, a fim de marcar a passagem de um dos comensais para a reserva.

 

A tarde foi tão agradável e festiva que, ali mesmo, foi pensada a continuação de tais encontros, procurando agregar outros companheiros que desejassem participar. Aquele primeiro almoço foi a raiz das reuniões realizadas agora na sede do Clube Militar da Lagoa.

 

Com o passar do tempo, foram trazidos, para esse ato fraterno, os colegas que foram afastados do serviço ativo por quaisquer motivos, até mesmo os políticos e que se voltaram para diversas profissões liberais. Essas reuniões são uma vitória, somente possível graças à formação ética-profissional de nosso Exército.

 

No fim do ano, na época do Natal, temos uma tarde festiva com troca de presente e o mais importante: mais uma confraternização dos irmãos de fé.

 

Num desses congraçamentos, um dos nossos amigos trouxe a idéia de editarmos um livro, onde os companheiros pudessem rememorar suas historietas militares, o "Causos", crônicas e outras..., que, com muito labor, muito devotamento, está prestes a ter lançado o sexto volume. Essa obra é um repositório do dia-a-dia da milicada, fonte de regozijo para os autores de hoje, fonte de ensinamentos para os novéis militares, o futuro de nossa Força Armada.

 

 

Autor:  José Luiz Araújo Soares - Art 1956


ÓLEO LEVE DE ARMAMENTO

Publicação: Qui, 1º de junho de 2022

 

"O toque de ordem indicava o final do expediente, deixando às guarnições de serviço a missão de guardar as instalações do quartel. Pura rotina.

 

Às vezes, a faina prosseguia pela noite com programas de instrução militar e tarefas exaustivas. Isso era comum no batalhão recém-transferido para a Capital Federal, fazendo com que alguns profissionais só voltassem para casa, após o toque de silêncio.

 

A sobrecarga de trabalho no BGP era um bom pretexto para os casados que gostavam de "pular a cerca" e sair para uma escapadinha esperta na cidade.

 

O afoito tenente, ex-seminarista, encantado com as facilidades que a noite oferecia e com a disponibilidade feminina, saiu em campo, para cumprir uma "agenda pirata."

 

Quase meia-noite!

 

Hora de voltar para casa, após a extenuante jornada, fazendo uma escala técnica no quartel, para vestir novamente o uniforme de instrução, símbolo de trabalho e dedicação à caserna, naquele período duro de incorporação de novo contingente.

 

O fugitivo estava feliz e realizado após o programa clandestino. Só que, com ele, veio impregnado um perfume feminino que denunciava a origem de seu portador.

 

Após contar suas prosas ao oficial-de-dia, seu colega de turma, pediu uma "avaliação olfativa" que foi muito fácil de diagnosticar. No ensejo, constatou que o tal perfume persistia, apesar de um prolongado banho.

 

Novo banho e nada! Parecia que o sabonete estimulava o forte perfume. Veio então a sugestão do oficial-de-dia: outro banho, desta vez, com sabão de lavar roupa, daqueles mais baratos que nem marca têm. Melhorou bastante, mas não resolveu. Nos recantos e articulações mais protegidos da pele, ficava um resquício teimoso do bendito perfume, como se fosse uma arma do crime, evidenciando os indícios de culpa.

 

Uma luz brilhou na cumplicidade do companheiro que estava de serviço. Mandou acordar o armeiro de seu pelotão e ordenou que trouxesse um kit com OLA (Óleo Leve de Armamento), graxa e outros complementos usuais.

 

Como se fosse uma cerimônia de batismo profano, o tenente foi untado com os malcheirosos lubrificantes bélicos, sem ter pena da pele nem do uniforme limpo e engomado.

 

Alívio!

 

Sentiu-se purificado...

 

Enfim vencera a batalha contra o intruso perfume de alcova extraconjugal.

 

Após se conceder uma auto-indulgência por seu pecado na capital, tomou, enfim, o caminho do lar, doce lar, com a sensação do dever cumprido e ensaiando um discurso reclamatório, para justificar o atraso, a viscosidade do corpo e o odor incômodo de oficina mecânica.

 

Não se sabe se essa estratégia virou moda..."

 

Autor:  Paulo de La Peña - Inf 1964


1951 - ACADEMIA MILITAR DAS AGULHAS NEGRAS

Publicação: Qua, 18 de maio de 2022

 

 

"Não me recordo qual a solenidade que incluiu, dentre outros eventos, um concurso hípico. Eu fazia parte da equipe de saltos da Artilharia. Como ocorre em todos os concursos, com todas as Armas, as montarias pertencentes ao Curso de Equitação são sorteadas. Coube, para mim, o cavalo ESTALO, de cor castanho, montaria de boa qualidade. A pista foi montada entre o lago e o campo de pólo, para quem não conhece, foi uma pista em campo aberto.

 

Antes de começar a prova, vários colegas e alguns instrutores cercaram-me e com palavras de estímulo diziam: - Você tem tudo para ganhar esse prova e quebrar mais uma vez a hegemonia da Cavalaria, sempre a grande vencedora.

 

Eis que chega o meu momento. Entrei na pista, fiz a apresentação protocolar do cerimonial: - Cadete 237, montando ESTALO, permissão para iniciar a prova - Permissão dada, me retirei ao passo, passei ao trote elevado e, em seguida, ao galopito, cruzei as bandeirolas e comecei a saltar. A prova constava, se não me falha a memória, de 10 (dez) obstáculos de diversos tipos. Ia mais do que bem, com pista limpa até o obstáculo número 6 (seis) e partir para o número 7 (sete) um OX que ficava de frente para a piscina. O cavalo sentiu o cheiro das baias, e, em galope controlado, eu não tive condições de fazer a volta à esquerda, para continuar a prova e, sem força de conduzir o cavalo, fui levado até as baias onde ele parou, onde eu desmontei e, sem graça, vim a pé para o Conjunto Principal. Apesar das palavras de conforto dos colegas e instrutores, foi, em verdade, um grande vexame e decepção do meu tempo de Academia."

 

Autor:  Egídio Silva  - Art 1951


DEIXA QUE EU APAGO!

Publicação: Qua, 4 de maio de 2022 

 

Devemos os nossos pracinhas o registro de muitos atos heróicos e também a autoria de muitos incidentes pitorescos.

 

Cada dia que se passava, estávamos às voltas com novidades vindas do hospital de Porreta, um dos poucos destinados exclusivamente ao tratamento dos casos neuropsiquiátricos. Ora era um soldado que resolvia encarnar o espírito do grande Corso, Napoleão; e hei-lo copiando os ademanes do grande general de França, outro se imaginava o marechal Timochenko e punha-se a atuar como o grande cabo-de-guerra soviético. Havia também os que se sentiam um bichinho, principalmente um gato e tínhamos que suportá-lo a miar lamentosamente pelos corredores do hospital.

 

Quando lidamos com neuróticos, não podemos descuidar da vigilância por um momento sequer, pois eles podem praticar algum desatino sem prévio aviso.

 

Um dos sargentos que servia naquele hospital contou-me mais este caso.

 

Certo doente, ao acender um cigarro, deixou cair uma fagulha na cama, e logo o colchão de palha começou a pegar fogo.

 

De pronto, estabeleceu-se uma enorme confusão na enfermaria. Pacientes, correndo desatinados de um lado para o outro, sem poder sair do recinto, pois as portas estavam fechadas. Os enfermeiros tentando apagar o fogo com cobertores, os médicos se esbaldando, para retirar os pacientes para outra enfermaria, um verdadeiro pandemônio, enquanto o fogo, apesar dos esforços, se alastrava assustadoramente. Nesta altura,  um dos internados que era de outra enfermaria, apareceu muito aflito, querendo ajudar também.

 

Ao ver o fogaréu, gritou para o enfermeiro que se achava mais próximo:

 

- Deixa que eu resolvo isso aí mais depressa que vocês.

 

Saiu da enfermaria em desabalada carreira e, passados alguns minutos, voltou carregando um tambor cujo conteúdo lançou sobre a fogueira, sem dizer "água vai" e sem dar tempo a mim e aos enfermeiros, ocupados em salvar os objetos da enfermaria, tivessem tempo de verificar que líquido continha o tal tambor.

 

Foi a conta! Uma tremenda explosão fez-se ouvir, e as chamas propagaram-se, ameaçando engolfar toda a sala, e estender-se a todo o hospital.

 

O desespero dos que estavam no serviço de salvamento foi enorme, e, enquanto se redobravam os esforços para conter as chamas, um dos enfermeiros desesperado agarrou-se com o paciente arrastando-o para fora da enfermaria com uma enorme vontade de aplicar-lhe um corretivo bem no traseiro:

 

- Veja o que você fez, seu idiota! Queria tocar fogo no hospital inteiro e assar todo mundo?

 

O pobre enfermo estava desolado e, com a cara mais desconsolada do mundo, procurou se desculpar:

 

- Ah, seu sargento, eu juro que só queria ajudar um bocadinho! Todo o pessoal estava ajudando... Nunca pude pensar que o diabo daquele tambor estivesse cheio de gasolina ao invés de água...

 

O desespero do doente era tão grande que o sargento terminou ficando com pena do paciente.

 

- De outra feita, não precisa mais "ajudar", não. Nós agradecemos a sua "ajuda"!

 

Autor:  Elza Cansanção Medeiros - Sv Saúde 1944


A DISTÂNCIA INTER-PUPILAR

Publicação: Qua, 20 de abril de 2022

 

 

     Não assisti à cena, mas quem se encontrava no local do ocorrido me declarou que jamais rira tanto como naquele dia.

 

     Vários cadetes num posto de observação. Entre eles dois "aratacas". Um deles alegre, desinibido, brincalhão e muito gozador, que há muito chateava o colega de todas as maneiras. O outro fechadão, sério, de "estopim curto" e que detestava a zombaria do companheiro mas, a bem da convivência, a custo vinha tolerando suas insistentes e desagradáveis brincadeiras.

    

     Tudo na vida tem seus limites, e a paciência do cadete, naquele momento, estava chegando ao seu máximo de tolerância. Aí então ocorreu a hilariantes "tragédia".

 

     Em dado momento, o cadete brincalhão, ao lado, pega o binóculo do outro, puxa-o para si, quase o enforcando pelo cordel que se encontrava no pescoço, coloca-o em seus olhos, dá uma observada no terreno à frente e exclama, para que todos o ouvissem: - A distância inter-pupilar de fulano é uma bostinha -. Nesse momento, o "cálice de fel" transborda e, ato contínuo, sem nada dizer, o "ofendido" lança-se sobre seu "desafeto", e ambos saem rolando pelo solo, um atacando, o outro às gargalhadas quase não podendo se defender, enquanto os demais se contorciam de tanto rir face ao inusitado da cena e, principalmente pela "gaiatice" da frase estopim, desencadeadora da explosão. Realmente o colega tinha os olhos bem juntinhos, possivelmente um ponto sensível em sua auto-estima. Somente a presença do "frango" que ali chegou atraído pelo alarido dos cadetes conseguiu pôr fim à "terrível" luta que se desenrolara. Durante muito tempo, ainda se falava da distância inter-pupilar do cadete. Apesar da briga, pelo que eu soube, continuaram amigos.

 

Autor:  Newton de Arruda Giraud - Art 1955


SEM PALMAS, POR FAVOR!

Publicação: Qua, 6 de abril de 2022

 

 

"Corria o ano de 1977 ou 78; pouco importa, porque a orquestra do Ray Coniff vinha ao Brasil todos os anos, naquele período e, invariavelmente, se apresentava em Curitiba, no teatro Guaíra. O preço dos ingressos era "salgado", porque a procura era enorme. Não era coisa para milico com família...

 

O tenente-coronel S, tido como "mão de vaca", gostava muito da orquestra e sua filha mocinha mais ainda. Conseguiu convencer o pai a pagar-lhe o ingresso. Ela seria a representante da família! Como retransmitir, na volta, toda a emoção da presença na platéia? O oficial encontrou a solução: ela levaria na bolsa um pequeno gravador "K-7". Mas, para economizar fita, foi instruída a só liberar a gravação ao início de cada música, apertando o botão de "pausa" logo ao final, escoimando, dessa forma, as palmas.

 

- Sem palmas! - o pai foi enfático.

 

Assim que a moça pôs os pés em casa, a família acorreu, para ouvir a esperada fita. Ela foi logo rebobinada e, então, colocada para tocar: - Clap, clap, clap, clap !... Clap, clap, clap, clap!... Clap, clap, clap, clap!... - só palmas!... A moça invertera a operação: pausara durante as execuções e liberara a gravação do indesejado!

 

O duro, mesmo, para o Ten Cel S, foi aguentar a turma do QG que vinha até a sua sala pedir para ouvir e copiar as músicas do Ray Coniff..."

 

 

Autor:  César Augusto Nicodemus de Souza  - Art 1960


SALTO NOTURNO DO CURSO DE MESTRE DE SALTO 70/4

Publicação: Qua, 23 de março de 2022

 

"No ano de 1970, fui matriculado e concluí o Curso Mestre de Salto. Foi o curso 70/4 do Centro de Instrução Aeroterrestre General Penha Brasil, Brigada Pára-quedista, Deodoro, Rio, RJ.


Encerradas as etapas teóricas e práticas, com a realização de saltos no Campo dos Afonsos, Rio, RJ, e em Gramacho, RJ, iniciou-se a viagem durante a qual, os alunos executariam lançamentos de pára-quedistas (eles) em algumas Zonas de Lançamento do Centro-Oeste e Norte do Brasil.


Nossa viagem de instrução previa lançamentos em Uberlândia, MG; Campo Grande, MT; Cuiabá, MT; Porto Velho, RO; e Manaus, AM. Tudo ótimo, estávamos vibrando e ansiosos para a conclusão do curso.


O lançamento de pára-quedistas, em Campo Grande, MT, seria um salto noturno. A experiência da maioria dos alunos, até então, era de saltos noturnos no Campo dos Afonsos, ou seja, apesar de ser à noite, a iluminação da cidade do Rio de Janeiro nos dava algumas referência, quando chegávamos à porta do avião, para os instantes finais preparatórios do salto. Porém isto não ocorria em Campo Grande. Era um terrível imenso breu. Referência somente aquelas constantes da carta e as reveladas no briefing (instruções para as tripulações das aeronaves e mestres de salto), antes do embarque e nada mais!


E lá fomos nós. Para cada aluno, quando era chegada a vez de atuar como mestre-de-salto, era criada uma sequência de situações nas quais mesclavam-se as ordens do instrutor, toques de campainha no interior da aeronave, o acender e apagar de luzes de aviso verdes e vermelhas na porta do avião. O aluno deveria responder às perguntas do instrutor, estar atendo aos toques de campainha e acender de luzes, interpretando e informando para o instrutor os significados. Tudo ocorria simultaneamente.


Era a vez do 2º tenente Gílson Campos Filho ser sabatinado. Toque de campainha, luz verde, três toques curtos de campainha etc, gritos do instrutor, capitão Glênio, e o Gílson, respondendo a tudo. Súbito ele se desconcentra, tocou a campainha, luz verde acendeu, Gílson vira-se para o Cap Glênio e pergunta: - Já? -. O Cap Glênio vociferou: - JÁÁÁ! -. E o Gílson, para desespero do instrutor, se lança da aeronave, e o berro angustiado do Glênio: - NÃOOOOOOO!!!!! -. Era tarde, Gílson se lançara no negrume da noite matogrossense, sem luar, estando a mais de três minutos (de avião) do ponto de lançamento. Eram cerca de 22:00 horas, daquele dia.


Concluídos os lançamentos após as aterrissagens dos alunos, iniciou-se a busca do Gílson, que chegou pela manhã à Zona de Lançamento."


Autor:  Jorge da Rocha Santos  - Inf 1968


ALERTA AVIÃO

Publicação: Qua, 9 de março 2022

 

     Sempre fui um admirador da aviação, todavia a neurose de ter medo de altura me tolheu a vocação de sair singrando os ares deste imenso Brasil, numa máquina voadora.

     Nas instruções de campo da AMAN, era ensinado que a aviação inimiga investia nas tropas a pé, para desbaratá-las, e tínhamos o ensinamento tático de como proceder no caso de um "ataque inimigo". Qualquer elemento da marcha que previsse a chegada de um avião não identificado tinha a obrigação de gritar "Alerta Avião", e toda a tropa repetia a cantilena, disparando em direção ao mato, cada coluna para o lado da estrada à sua direita ou à sua esquerda.

     Numa dessas marchas, um colega que estava, com indisposição intestinal, começou a sentir os sintomas de um "descarrego" iminente. Que fazer? Se pedisse permissão ao comandante da tropa, seria negado, pois o mesmo não iria paralisar a marcha, para atender a um caso fortuito. Se abandonasse a tropa, para correr para o mato, provavelmente não alcançaria mais a coluna e seria punido.

     Nesse meio tempo, um colega sugeriu a solução legal para o caso. - Grita "Alerta Avião", cara. Pelo menos meia hora, você vai ter disponível para satisfazer suas necessidades! - Não deu outra, ouviu-se o grito e a tropa, automaticamente, desbaratou-se rumo ao mato, gritando, em coro, "Alerta Avião". O capitão comandante da tropa não gostou da ideia, indagou aos tenentes quem primeiro havia dado o alarme, prerrogativa dele naquele exercício. Naquela gritaria de mais de cem vozes, foi impossível apurar quem deu o primeiro grito.

     O colega se livrou da maldita dor de barriga, e, depois de mais de meia hora, a marcha retomou o seu curso, sem que fosse apurado o gaiato autor da brincadeira.

 

Autor: JOSÉ BATISTA PINHEIRO - Inf 53


O SOLDADO EM ANEXO

Publicação: Qua, 23 de fevereiro 2022

 

     Qualquer um que tenha servido com o Maj Nélson Cibulars sabe quantos causos ele era capaz de protagonizar. Extremamente ativo, inteligente e criativo, não havia dia em que não deixasse a sua marca na unidade. Como comandante interino e, depois, como Subcomandante do, então, 1º GCan.Au.AAé. (São Cristóvão, Rio), revolucionou as rotinas e atividades, as condições do aquartelamento e tudo mais, mediante acompanhamento diuturno de tudo o que se passava no interior da Unidade. Não perdia tempo e decidia em cima dos fatos. Também não lhe faltavam o humor e a fina ironia. O exemplo que se segue é típico.

     Eu comandava a 1ª Bateria de Canhões e, estando no meu PC, recebi a apresentação de um dos meus soldados, com um cartão preso por um clip ao colarinho da camisa. interpelei-o sobre o que aquilo significava, e ele me disse que fora mandado pelo Maj. Subcmt., o qual lhe dissera que eu deveria ler aquele cartão. Foi o que fiz. Na sua intenção de alertar, rápida e desburocratizadamente, o Cmt. da Bateria sobre o deslize de  um soldado, ele ali escrevera: "O soldado em anexo... fez isso e aquilo"...

 

Autor: César Augusto Nicodemus de SOUZA - Art 60

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REC SIN

Publicação: Qua, 9 de fevereiro 2022

 

     A AMAN sempre teve suas místicas e a Seção de Instrução Especial (SIEsp) não era diferente. Instrutores e monitores operacionais, que tinham pouco ou nenhum contato com os Cadetes durante o ano, eram conhecidos pela rigidez e cobrança por todos que conviviam no meio acadêmico.

     Durante o Estágio de Operações Especiais, no 3º ano, a ênfase da SIEsp eram as técnicas de patrulha. Dispondo de meios nobres para o planejamento dos futuros Oficiais, era comum os instrutores comentarem: “ Peçam tudo o que precisarem para cumprirem a missão!”. No início dos anos 2000, imaginar uma patrulha com viatura já era o auge pro Estagiário. Contudo, na SIEsp havia óculos de visão noturna, mira laser, helicópteros e outros meios que faziam com que o Estágio ganhasse em realismo.

     E, nesse contexto, entra em cena o Estagiário 57. Por ser de Arma base, era quase uma obrigação se voluntariar para as funções de comando da patrulha, até para evitar que companheiros menos experientes sofressem as consequências de planejamentos equivocados. Após a célebre frase do instrutor “ O comandante será…..”, o 57 não foi escolhido como Comandante, mas coube a ele ser o Comandante do grupo de assalto.

     O 57 era conhecido na Turma como um cara muito gente boa, mas o que tinha de companheiro, tinha de “ torador”. Bastavam poucos minutos de auditório para que as piscadas de pálpebras iniciassem quase que instantaneamente. E na SIEsp não seria diferente.

     Depois de dias de exercício, horas sem dormir e o cansaço abatendo a todos, o nosso querido 57 rendia-se aos braços de Morfeu com facilidade ainda maior do que nos dias de palestra. Durante a ordem à patrulha, o pobre Estagiário quase caiu sobre o caixão de areia algumas vezes, para alegria daqueles que queriam se distrair para se manterem acordados e desespero do seu “canga”, que via o risco de banhar-se nas frias águas da Represa do Funil aumentar caso o Instrutor visse o estado do 57.

     O planejamento daquele dia era simples: a patrulha iniciaria o deslocamento até as margens da represa, onde embarcariam em voadeiras. O grupo de reconhecimento e sinalização (REC SIN) nadaria até a margem desejada, sinalizaria o desembarque da patrulha no local, tomaria-se o dispositivo e teria início a ação no objetivo.

     Terminadas as ordens e os ensaios, a patrulha iniciou seu deslocamento pelas águas da represa por volta das 23:00hs. No local marcado pelo Comandante, o REC SIN lançou-se na Represa do Funil e foram nadando em direção à margem. A distância do nado era de cerca de 250 metros, o que levaria naquelas condições aproximadamente 15 minutos. No entanto, uns 05 minutos após o salto da equipe, o 57 anuncia:

     - Comandante, o REC SIN está sinalizando o desembarque!

     - O que? - Perguntou o Comandante.

     - É o REC SIN! Estão mandando o sinal! - Diz o 57 apontando para o horizonte.

     - Onde? Perguntam os outros militares.

     - Ali, bem na nossa frente.

     - Aquilo é a LUA, 57!!

     Depois de muitas risadas, inclusive da equipe de instrução, a patrulha seguiu, mas a história do REC SIN se preservou pelo tempo, sendo motivo de brincadeiras com o 57 mesmo depois de tantos anos.

 

Autor: Maj José Renato Gama de Mello SERRANO - Cav 2004