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Guerra Holandesa - Quarto Período: Insurreição Pernambucana

Epopéia Brasílica.

Após a partida de Nassau, abria-se o capítulo final desta guerra, com a insurreição do povo pernambucano. D. João IV, secretamente, apoiou o movimento, até ver fracassado o objetivo de reconquista rápida de Recife. Os insurretos prosseguiram então a luta, desamparados e em desobediência à Metrópole. Com sacrifícios indescritíveis e usando processos de combate inusitados, genuinamente brasileiros, criaram condições para a recuperação de Pernambuco e de Angola para Portugal, além de preservarem a unidade física e cultural do Brasil
A Insurreição Pernambucana é portanto episódio da maior relevância para a formação da nacionalidade brasileira e as origens do Exército. Em 1945, a Força Expedicionária Brasileira, ao retornar vitoriosa da Itália, depositou os louros da vitória no campo de batalha dos Guararapes e seu comandante, o General Mascarenhas de Morais, proferiu estas palavras: "Nestas colinas sagradas, na batalha vitoriosa contra o invasor, a força armada do Brasil se forjou e alicerçou para sempre a base da Nação brasileira".

As causas.

Entre as causas que determinaram a insurreição, destaca-se a insolvência das dívidas de luso-brasileiros e holandeses, decorrência do fracasso da lavoura canavieira, por circunstâncias adversas de toda a ordem, determinando a queda das ações da Companhia das Índias Ocidentais, do valor nominal de 100 para 33.
Agravaram da situação especulações extorsivas praticadas por comerciantes estrangeiros de Recife, que operavam em mercado paralelo à Companhia e fora do controle desta.
Daí a hostilidade entre moradores luso-brasileiros e holandeses, reduzidos os primeiros à condição de escravos econômicos da Companhia e de comerciantes de Recife.
Por outro lado, o expansionismo da Holanda ultrapassou os limites do próprio poderio, ameaçando conquistar todo o Brasil e domínios de Portugal na África, em desrespeito ao tratado celebrado e aproveitando-se da fraqueza militar portugueses em guerra contra a Espanha. A ambição excessiva suscitou reações adversas que uma política moderada teria evitado.
Contribuiu ainda para determinar a insurreição o antagonismo religioso entre católicos e calvinistas, exacerbado após a partida de Nassau. Governante equilibrado e hábil, o príncipe soubera praticar uma tolerância religiosa que aliviava o peso do jugo estrangeiro.
As incompatibilidades temporariamente arrefecidas ressurgiram graças ao desrespeito do invasor pelos valores luso-brasileiros, ao seu desprezo pela fé católica, pelas imagens de santos e padres e pelos sentimentos de honra pessoal e familiar da população local.
Mais ainda contribuiu para tornar inviável o governo de ocupação o hábito dos invasores de quebrar sistematicamente a palavra em assuntos políticos, negando a prometida participação dos pernambucanos nos governos locais e incentivando a inimizade entre índios e luso-brasileiros, que atingiu, em 1645, proporções de ódio racial, quando da abolição da escravatura dos índios, artifício para atraí-los à aliança militar.
Essas causas predisponentes tornaram-se determinantes desde o momento em que as tendências insurrecionais tomaram corpo diante do exemplo da restauração do Maranhão. Muito animou os revoltosos, também, a constatação da fraqueza militar do invasor em Pernambuco, reduzido em seus efetivos, em conseqüência de armistícios e compressão de despesas.

Astúcia versus astúcia.

Para responder à astúcia do conquistador, Portugal e patriotas elaboraram um plano secreto, que objetivava a conquista rápida de Recife, com a finalidade de expulsar os holandeses que, sem desrespeitar o tratado, continuavam expandindo suas conquistas no Brasil e na África.
Segundo o plano, deveria fazer-se prevalecer por todos os meios a impressão de que a insurreição era uma iniciativa particular dos patriotas de Pernambuco. à revelia de Portugal e da Bahia. Se fosse descoberto o apoio e incentivo de D. João IV, ficava em perigo a própria independência de Portugal.

 

Apoio externo de Portugal.
Uma esquadra sob o comando do General Salvador Correia de Sá e Benevides foi enviada para as águas de Recife, simulando intenção de auxiliar os holandeses a debelar a insurreição, mas, na realidade, para favorecer a causa dos insurgentes. Enquanto isto, Portugal, através de manobras diplomáticas Habilidosas, procuraria mostrar inocência na intervenção, para evitar abrir simultaneamente uma frente de luta com a Holanda, pois já guerreava com a Espanha.

Apoio externo da Bahia.

O governo da Bahia, por seu lado, enviou o Sargento-Mor Antônio Dias Cardoso para, em seis meses, antes do início da insurreição, organizar e treinar o exército dos patriotas na Mata do Brasil, em colaboração com o líder civil do movimento em Pernambuco, João Fernandes Vieira. A região compreendia os atuais municípios de Vitória de Santo Antão, São Lourenço e Nazaré da Mata, onde era explorado o pau-brasil sob a direção e controle de Fernandes Vieira.
Reforçou-se o apoio externo pela remessa para Pernambuco das tropas de Filipe Camarão e de Henrique Dias, simulando-se que o primeiro se havia rebelado e que o segundo fora mandado em seu encalço para prendê-lo e recambiá-lo à Bahia. Finalmente, para completar o apoio, foram enviados por mar, na flotilha de Serrão de Paiva, protegida pela esquadra portuguesa de Salvador de Sá, dois terços de infantaria ao comando de André Vidal de Negreiros e Martim Soares Moreno, divulgando-se a falsa explicação de que vinham prender João Fernandes Vieira, debelar a insurreição e obrigar os pernambucanos a cumprir o tratado Holanda-Portugal.

Papel de Pernambuco.

A atuação dos pernambucanos na preparação da revolta deu-se principalmente em três campos:

• Compromisso assinado entre os moradores mais influentes no sentido de empenhar seus recursos financeiros e dar apoio de toda ordem para a restauração da liberdade.
• Reunião de homens do povo para constituírem o exército de libertação a ser formado e treinado secretamente por Antônio Dias Cardoso.
• Organização de depósitos secretos de armas, munições e alimentos na Mata do Brasil, destinados ao apoio logístico dos insurretos.

Combinou-se dar inicio à insurreição no dia 24 de junho de 1645, durante o casamento simulado entre familiares de dois líderes insurrecionais, João Fernandes Vieira e Antônio Cavalcanti.
No decorrer da cerimônia seriam aprisionadas as mais altas autoridades holandesas, civis e militares, que só seriam postas em liberdade mediante entrega da base naval de Recife.
A data escolhida, dia de São João, era homenagem ao líder civil do movimento – João Fernandes Vieira, – e ao Rei D. João IV de Portugal, e coincidia com época das chuvas, que dificultariam o movimento de tropas inimigas.
Ao primeiro sinal de insurreição, Amador de Araújo e seu assessor militar, Capitão Agostinho Fernandes, sitiariam Ipojuca e Cabo, para fixarem importantes efetivos do invasor ao sul de Pernambuco, ou mesmo atraírem sobre si as forças da Companhia das Índias Ocidentais.
Nas demais localidades, os insurgentes, após imobilizarem as guarnições holandesas, procurariam junção com Antônio Dias Cardoso para formarem o exército libertador e ocuparem Recife.
O plano previa a adesão à causa de dois destacados militares holandeses: Dirck Hoogstraten, comandante da Fortaleza de Nazaré, ponto essencial para os luso-brasileiros receberem apoio externo, e Gaspar Van der Ley, comandante da tropa de milicianos holandeses ao sul de Pernambuco. O primeiro era católico e o segundo havia-se unido com uma brasileira, filha de prestigiosa família local. Ambos, por dedicarem-se à plantação de cana-de-açúcar, tornaram-se devedores insolventes, como a totalidade dos engajados neste ramo de atividade. Os dois foram absorvidos pela cultura luso-brasileira. A vitória da insurreição representaria uma solução para os seus problemas.
Ao primeiro sinal de insurreição deviam os insurretos locais organizar grupos de emboscadas para, sucessivamente. Imobilizar, sitiar e obrigar à rendição as diversas guarnições e fortes inimigos espalhados no Rio Grande do Norte, na Paraíba, em Sergipe e nas Alagoas.

Surge o ideal de Pátria.

Os insurgentes adotaram para designá-los o termo "Independentes", como senha a palavra "Açúcar" e como lema a expressão "Restauração da Liberdade Divina e da Pátria Independentes", para demonstrar o desejo de se tornarem livres da Holanda, a qual tinham sido submetidos pela conquista, consolidada através de um tratado com Portugal. A senha "Açúcar" estava relacionada com a maior riqueza da terra. O lema continha as duas idéias-forças capazes de motivar todos à luta; a primeira representava o ideal coletivo de restabelecer em Pernambuco o predomínio católico, sob séria ameaça dos reformista, um e outro defrontando-se na Europa numa das guerras mais sangrentas da humanidade – a Guerra dos Trinta Anos; a segunda representava o anseio de restabelecimento da Pátria que aglutinava diversas gerações de brasileiros, brancos, negros, índios, mulatos, caboclos e de muitos portugueses que vieram para ficar. A maioria já considerava Pernambuco como pátria, com significado análogo ao do Brasil de hoje.
A insurreição, para a parte mais prestigiosa dos luso-brasileiros, devia ser conduzida dentro dum contexto nativista. Isto é provado com o termo-compromisso assinado pelos patriotas.
A Portugal, dentro do quadro estratégico mundial, interessava a conquista rápida de Recife. Uma luta prolongada era altamente inconveniente e perigosa para seu destino como nação independente. Isto é essencial para o perfeito entendimento desta guerra.

Conspiração.

No ano de 1641, logo após a restauração de Portugal, patriotas de Pernambuco enviaram, através de emissário especial, proposta a D. João IV, no sentido de promover a devolução de Pernambuco a Portugal. à custa de recursos de seus moradores, desde que auxiliados externamente pela Metrópole.
O Rei português, sem comprometer-se ostensivamente, encarregou, no entanto, o Governador-Geral Antônio Teles da Silva de incentivar, apoiar e coordenar secretamente a insurreição.
Teles, que via próxima a tentativa expansionista para a Bahia, combinou o plano com André Vidal de Negreiros.
A partida de Nassau, o caos econômico, a fraqueza militar de Pernambuco, o êxito na restauração do Maranhão, o retorno do clima de intolerância religiosa e a execução violenta de dívidas dos moradores, permitida pela junta de comerciantes que substituíram Nassau, criaram o momento psicológico ideal para a Insurreição Pernambucana.

O conspirador.

André Vidal de Negreiros, a 18 de setembro de 1642, esteve em Recife, em missão diplomática. Encontrou-se secretamente com João Fernandes Vieira, com quem acertou detalhes.
A 27 de agosto de 1644 desembarcou naquela cidade com carta em que fingia ir despedir-se de seus pais na Paraíba por ter de seguir para outra missão.
Segundo J. A. Gonsalves de Melo Neto, "a permanência de Vidal de Negreiros foi de importância decisiva para planejar o movimento restaurador". Vidal, após coordenar com João Fernandes Vieira o plano de apoio externo com o esquema local de insurreição, retornou à Bahia depois de mais de um mês de intensa conspiração.
Com Vidal de Negreiros desembarcara o padre Inácio, da Ordem de São Bento, trazendo aos conspiradores a promessa de auxílio à insurreição, da parte de D. João IV.
Vidal era portador de uma mensagem real ao Conselho Holandês do Recife, em que, para desviar suspeitas, o Rei dizia ter sido informado por Frei Estêvão de Jesus de que os católicos eram muito bem tratados no Brasil, o que o enchia de satisfação. Frei Estêvão, na verdade, havia sido mandado junto ao Rei para anunciar-lhe o propósito de insurreição e pedir-lhe apoio (obtida resposta positiva, embarcou, mas morreu em viagem, sendo substituído por Frei Inácio).

Missão Dias Cardoso.

Ao retornar à Bahia, Vidal de Negreiros prestou contas de sua missão ao Governador e Capitão General do Estado do Brasil, Antônio Teles da Silva, que lhe ordenou procurasse um chefe competente, discreto e conhecedor de Pernambuco para ali ser enviado com a incumbência de organizar e treinar secretamente os insurretos, em ligação com João Fernandes Vieira, líder civil de pouca experiência militar. O indicado foi o Capitão Antônio Dias Cardoso, que atuaria dentro do quadro de uma missão hoje reservada a forças especiais.
Dias Cardoso era bravo e experimentado militar, veterano das lutas do período 1624-1641. Possuía excepcional folha de serviços, aliada à reputação de mestre na arte de guerra de emboscadas. Profundo conhecedor da região, era estimado e respeitado por Vidal de Negreiros, Camarão e Henrique Dias e pelo próprio Fernandes Vieira.
Para ajudar na missão de Dias Cardoso, Vidal de Negreiros forneceu-lhe uma carta em que dizia ir ele fugido para Pernambuco por ter desrespeitado ordem de seu General. Assim, se caísse prisioneiro do invasor, sua vida poderia ser poupada.
Dias Cardoso partiu através de 100 léguas de sertão em terreno difícil, passando muitas dificuldades e perigos de vida ao cruzar territórios hostis, dominados por quilombos ou por índios rebeldes, e ao atravessar a nado rios caudalosos para não ser pressentido pelos holandeses ou moradores. Chegando a Pernambuco transmitiu a João Fernandes Vieira as ordens que recebera de Vidal e do Governador-Geral e as informações sobre o dispositivo inimigo ao longo do itinerário percorrido.
João Fernandes Vieira assim resumiu a vida deste bravo, desde sua chegada até a insurreição:
"Deu cumprimento às ordens que possuía, com fervor necessário a tão importante missão, começou a atrair e adestrar militarmente o povo para a insurreição em diversos lugares, despendendo com isto sete meses, todos passados nas matas ao rigor do tempo, para fugir ao inimigo que se pôs a buscá-lo, colocando em grande perigo sua vida".
Até há pouco desconhecida pelos historiadores, a figura de Dias Cardoso emerge engrandecida de um reexame dos escritos de J. A. Gonsalves de Mello Neto. Obras posteriores, calcadas em Frei Manuel Calado, Lopes Santiago e Frei Rafael de Jesus, não dão o adequado relevo ao seu papel no êxito da Restauração de Pernambuco.

Compromisso imortal.

No dia 23 de maio de 1645, 18 líderes insurretos firmaram este compromisso:
"Nós, abaixo assinados, nos conjuramos e prometemos, em serviço da liberdade, não faltar a todo o tempo que for necessário, com toda ajuda de fazendas e de pessoas, contra qualquer inimigo, em restauração de nossa pátria; para o que nos obrigamos a manter todo o segredo que nisto convém; sob pena de quem o contrário fizer será tido como rebelde e traidor e ficará sujeito ao que as leis em tal caso permitam"
Surgia assim pela primeira vez no Brasil a palavra pátria e a firme disposição de instaurá-la, a despeito mesmo de interferências contrárias de Portugal. Era o início do processo irreversível de Independência, que seria concretizado cerca de dois séculos após.

Nova traição.

Faltando poucos dias para o desencadeamento da insurreição, os patriotas foram traídos por Fernão Corte Real e Sebastião de Carvalho, que repetiram Calabar. Esta atitude faria malograr o plano de conquista rápida de Recife, prolongando a guerra por nove anos.
O invasor tratou de prender os principais comprometidos, mas encontrou suas casas vazias. Todos haviam fugido para as matas, onde, dentro em breve, se mobilizariam para a luta.

Grito de rebelião.

A 17 de junho de 1645, quatro dias depois da partida de João Fernandes Vieira com 50 companheiros para o interior, a fim de organizar o exército de libertação, ocorreu em Ipojuca a primeira iniciativa insurrecional armada.
Liderados pelo senhor de engenho Amador de Araújo, com a assessoria do bravo Capitão Domingos Fagundes, uma coluna de 400 homens cercou Ipojuca e prendeu no interior do mosteiro, transformado em quartel, a guarnição holandesa, composta de civis que prestavam serviços militares como milicianos, à semelhança de uma guarda territorial.
Por cerca de 45 dias Amador de Araújo atraiu com movimentos e emboscadas todo o exército inimigo em campanha, constituído de 900 homens aproximadamente. Assegurou desse modo condições para a mobilização do grosso do exército e permitiu-lhe aguardar junção com as tropas de Camarão e Henrique Dias, que fortes chuvas haviam atrasado.

Povo em armas.

No dia 13 de junho, partindo do engenho Cosme e Damião, os patriotas deram inicio à marcha que culminaria com a Batalha das Tabocas.
No trajeto pelas matas do Borralho e Camaragibe, pelos engenhos Maciape, São Lourenço, Muribara, São João, Tapacurá, pelo Sítio do Covas e Monte das Tabocas, a coluna conseguiu reunir cerca de 1.600 homens do povo, sem experiência militar e armados com 250 armas de fogo dos mais variados calibres.
A coluna recebeu no engenho Maciape o substancial apoio de 800 voluntários conduzidos pela figura excepcional do Padre Capitão Simão Figueiredo Guerra, que possuía grande experiência na luta de emboscadas.
No Sítio do Covas, onde o exército de liberação acampou durante 22 dias, surgiu séria crise de liderança entre João Fernandes Vieira e Antônio Cavalcanti, que tinham pontos de vista diferentes sobre o modo de conduzir a guerra, pondo em sério risco os destinos da insurreição. Vieira venceu sem lutar, graças a um ardil de Antônio Dias Cardoso, que separou as duas facções prestes a um confronto armado, dando o alarma de que o inimigo se preparava para atacar o acampamento.
Pouco depois tiveram os insurgentes duas boas notícias: a chegada de Amador de Araújo com 14 índios de Camarão e o aviso de que o próprio Camarão estaria ali dentro de poucos dias.
A coluna, sob pressão inimiga, partiu a 31 de janeiro para o Monte das Tabocas, local escolhido previamente por Dias Cardoso para travar a batalha.

Batalha do Monte das Tabocas.

A 3 de agosto de 1645 travou-se no Monte das Tabocas o primeiro encontro entre um contingente do Exército holandês a serviço da Companhia das Índias Ocidentais ao comando do Coronel Hendrick van Hans e o exército dos patriotas, constituído principalmente de civis pernambucanos.
Ao perceber a aproximação do adversário, Dias Cardoso despachou em sua direção pequena força de cobertura, ao comando do Capitão João Nunes da Mata, com a finalidade de atraí-lo para o Monte.
O inimigo bateu e dispersou esta força, prosseguindo até a margem do rio Tapacurá, quando carregou com enorme alarido e estrondo sobre a vegetação da margem, ao imaginar que ali existissem emboscadas.
A vanguarda atravessou o rio e Dias Cardoso foi ao seu encontro, a fim de jogá-la nas emboscadas que preparara Capitão Domingos Fagundes, no comando de 40 homens.
Após oferecer alguma resistência, esta fração foi obrigada a retrair, através de uma única passagem no áspero e impenetrável tabocal que corria na base da elevação, envolvendo-a pelo oeste e sul.
O inimigo atravessou o rio e entrou em formação de combate, numa larga campina entre a margem e o tabocal. A seguir, com um flanco apoiado em cada lado, progrediu em direção à passagem do tabocal, de onde saíra novamente Fagundes em seu encontro.
Os holandeses tinham caído na armadilha de Dias Cardoso, constituída de três emboscadas. A primeira, sob a direção do Capitão João Gomes de Melo, num total de 25 tiros, foi disparada à queima-roupa, sobre a retaguarda adversária, causando-lhe muitas baixas. Com o prosseguimento da força, foi disparada a segunda emboscada, de igual valor, ao comando do Capitão Jerônimo Cunha do Amaral. A vanguarda inimiga continuou a adiantar-se e, quando se aproximava da passagem do tabocal, Dias Cardoso ordenou o acionamento da última, sob a chefia do Capitão João Paes Cabral – foram 40 tiros desferidos contra a testa adversária.
Surpreso, e supondo que havia outras emboscadas, o inimigo retraiu desordenado para reorganizar-se na campina e partir para o segundo ataque. Com a vanguarda enfrentou Agostinho Fernandes que com 80 homens saíra mais uma vez à campina, e com o corpo de batalha desferiu repetidas e inúteis descargas.
Atrás da trincheira vegetal com 15 metros de espessura e um único acesso para dois homens lado a lado, Dias Cardoso adotou as seguintes medidas:

• dispôs cerca de 90 armas em linha, ao longo do tabocal, em posições de tiro previamente preparadas, constituindo as emboscadas;
• manteve uma reserva de aproximadamente 50 homens em duas frações, em condições de reforçar as emboscadas ou a defesa da entrada da trincheira;
• distribuiu o restante das armas – 110 – à força de cobertura de Domingos Fagundes e aos elementos da segurança da retaguarda e dos flancos;
• deixou 30 homens armados com a reserva, composta de 1.350 combatentes, para a defesa de Fernandes Vieira.

Após muita resistência, a vanguarda inimiga obrigou Agostinho Fernandes a retrair e infiltrar-se no tabocal. Parte do corpo de batalha conseguiu penetrar na passagem a, por cuja posse se travou luta feroz e demorada, sob a direção de Dias Cardoso, que mandou substituir os combatentes mais cansados e repeliu o atacante.
A tentativa de envolvimento foi evitada pela segurança da retaguarda e por um atirador isolado da proteção de flanco, que atingiu, mortalmente, o comandante da vanguarda holandesa – Capitão Falloo.
Após reorganizar-se, o inimigo partiu para outro ataque em toda a frente, visando a penetrar ao longo da linha do tabocal. Progrediu e conseguiu, após muita luta, introduzir-se em diversos pontos da linha de resistência, isolando e fixando seus defensores, inclusive Dias Cardoso
Fixada parte das tropas dessa linha, o inimigo começou a adiantar-se em direção ao alto da elevação, onde se encontrava a reserva constituída pelo povo, desarmada, sob a direção do Capitão Padre Simão de Figueiredo, e do próprio líder da insurreição, João Fernandes Vieira.
Na iminência do perigo, Vieira conclamou o povo ao esforço derradeiro e prometeu liberdade a 50 servos de sua guarda pessoal se se mostrassem valorosos no combate. Os escravos desceram o monte em duas partes, armados com arcos, flechas, lanças e facões, tocando flautas, atabaques e buzinas. Na esteira destes bravos veio todo o povo, com os mais variados tipos de armas, a maioria instrumentos de trabalho. O contra-ataque transformou-se num corpo-a-corpo, feroz e desordenado, com patriotas a surgir de todas as direções, lançando-se aos magotes sobre o inimigo, obrigando-o a bater em retirada. Venceram os insurretos.

Projeção da batalha.
Após quatro horas de peleja o inimigo abandonou, no campo de luta, mais de 100 mortos e grande quantidade de munição e armamento. Fez transportar numerosos feridos para Recife e com 450 homens retirou-se para Casa Forte.
Entre os patriotas registraram-se 63 baixas: 33 mortos e 30 feridos.
João Fernandes Vieira, líder da insurreição, reconheceu que o mérito da vitória coube a Dias Cardoso, ao certificar em documento revelado por Gonsalves de Melo Neto:
"Graças ao Sargento-Mor Antônio Dias Cardoso e mediante favor divino, alcançamos vitória, tudo alcançado por Deus, pela boa ordem com que Dias Cardoso dispôs a batalha, dando a todos os oficiais muito exemplo com sua militar doutrina e conhecido esforço que, em quatro horas de batalha mostrou sem descansar, acudindo em todas as partes com bravo ânimo".

Batalha de Casa Forte.

A 10 de agosto o exército dos patriotas operou junção com as forças de Henrique Dias e Filipe Camarão em Gurjau e no dia 16 no Cabo, com as tropas de Vidal de Negreiros e Martim Soares Moreno, que desembarcaram a 28 de junho em Tamandaré. Marcharam para Muribeca e, depois, para Casa Forte (também conhecida por Engenho de Nassau), chegando na manhã de 17 de agosto.
Coube a Antônio Dias Cardoso a concepção e disposição do ataque ao engenho de Isabel Gonçalves. Após breve período de combate renderam-se os remanescentes do exército da Companhia – um efetivo de 422 homens, entre índios e brancos, sob o comando do Coronel Van Haus. Aos 250 holandeses foi dado quartel, com condições de regresso à Europa. Os índios, somando 172, foram justiçados sob o argumento de traição à fé católica, conforme as leis de guerra da época, e como exemplo aos demais. Punia-se, assim, também, o massacre de Cunhau.
Morreu neste encontro o Capitão Domingos Fagundes, um dos maiores responsáveis pela vitória em Tabocas. Henrique Dias foi ferido gravemente.

Alastra-se o incêndio.

Até 3 de setembro o invasor havia perdido Serinhaém, Cabo, Pontal e Nazaré. Ainda neste mês caíram a fortaleza existente em Porto Calvo e também Maurício e Sergipe, sendo Olinda reocupada.
No final de 1646 os patriotas haviam obtido numerosos e brilhantes triunfos e os habitantes aderiram em massa ao movimento.
Recife, a ilha de Itamaracá e os fortes em Três Reis Magos e Cabedelo resistiram em mãos do invasor.
Apesar de todas estas vitórias, o projeto fracassara para D.João IV. Recife não fora conquistada rapidamente, por ter sido divulgado em Pernambuco o plano insurrecional e, também em razão de a esquadra de Salvador de Sá não ter executado a parte do plano que lhe estava reservada.
Sem o concurso da artilharia de sitio, Recife era uma fortaleza inexpugnável, separada por largo e profundo fosso – o rio Capibaribe. As autoridades holandesas não foram aprisionadas; o seu resgate seria a entrega de Recife.

Ocasião perdida.

A esquadra de Salvador de Sá e a flotilha de Serrão de Paiva, com 37 navios, depois de desembarcarem as tropas de Vidal e Moreno, apresentaram-se no dia 11 de agosto frente a Recife.
Após troca de cartas e conversações, no dia 13, a força de Salvador de Sá arvorou velas e rumou para Portugal, levando consigo a última esperança da conquista rápida de Recife. Os motivos que impediram o ataque a Recife, defendido apenas por quatro navios e um iate, permanecem até hoje desconhecidos.
Entre a chegada e a partida da esquadra, o exército luso-brasileiro, depois de operar junção com as forças de Camarão e Henrique Dias, marchava em direção a Cabo.
Os remanescentes do exército de campanha holandês, reduzido à Metade, encontravam-se em Casa Forte.

Plano descoberto.

A flotilha de Serrão de Paiva, ao separar-se de Salvador de Sá, foi destruída, caindo em poder do invasor documentos que revelavam o apoio e o incentivo de D. João IV à insurreição, e que foram amplamente divulgados na Europa, deixando Portugal em dificílima situação.
Em Lisboa, a opinião pública dividiu-se entre os que tinham o Brasil como essencial para a sobrevivência da monarquia portuguesa e os que julgavam preferível sua perda, como imperativo da independência portuguesa.
O Padre Antônio Vieira, da segunda corrente, argumentava na Europa pela impossibilidade da conquista de Recife pelos patriotas, acrescentando que, mesmo que o conseguissem, seria vitória problemática, pois além da guerra com a Espanha haveria outra contra a Holanda, vizinha de Portugal no Brasil, na Índia, na China, no Japão, em Angola e demais partes da terra e do mar onde o poder holandês era o maior do mundo. Sua proposta, conhecida como o Papel Forte, na qual os holandeses conservariam Recife mas admitiriam a perda de outras terras, não foi aceita.

Duelo diplomático.

Na Europa teve início longa e sutil luta diplomática, na qual operou prodígios o Embaixador Souza Coutinho para evitar a devolução de Pernambuco, cuja compra a Holanda chegou a ser proposta.
Por volta de 1647, pressionado pela opinião pública de Portugal e Holanda, desabafou o Embaixador, sem desanimar, no entanto, um só Momento: "A guerra de Pernambuco foi a ruína da reputação de Portugal, pois além de atrair o ódio da Holanda, deixou-nos fora da paz de Methuen".
Nesta fase, D. João IV pensou em transferir-se para o Brasil e aqui fundar um reino autônomo, como o faria, em 1808. D. João VI. A 12 de agosto de 1647, vencido na luta diplomática, decidiu mandar restituir o que os patriotas haviam tomado no Brasil, com a condição de ser-lhe devolvida a ilha de Itaparica.
A Companhia foi reforçada, na perspectiva de paz com a Espanha, e ameaçou reconquistar não só o terreno perdido em Pernambuco como todo o Brasil. Poderia atrair tanto a Holanda como a Espanha.
Perigavam a independência de Portugal e todo o esforço dos patriotas do Brasil.

Patriotas em dupla rebeldia.

D. João IV, com o seu tesouro exaurido e em luta contra dois gigantes, operou prodígios para socorrer os patriotas de Pernambuco; mas os reforços que enviou não conseguiram, na maior parte, furar o bloqueio naval holandês no Nordeste.
A luta no Brasil prosseguiu e a ordem para a sua cessação, emanada de Portugal, recebeu,a seguinte resposta dos patriotas: "Combateremos até o fim, e somente após expulsar o invasor iremos a Portugal receber o castigo pela nossa desobediência".
Os pernambucanos clamaram por auxílio da Metrópole e, não sendo atendidos, ameaçaram pedi-lo a outro rei católico, o da Espanha, em guerra contra Portugal.

Arraial Novo do Bom Jesus.

Não contando com o apoio naval e de artilharia que esperavam de Salvador de Sá, e sem o que seria inútil qualquer tentativa de conquista de Recife, decidiram os insurgentes cercá-lo, adotando o mesmo expediente de Matias de Albuquerque.
Foi construído o Arraial Novo do Bom Jesus, em uma elevação distante uma légua de Recife, onde se abrigaram os patriotas.
Tal como por ocasião de sua conquista, Recife foi cercada por estâncias, as quais tinham a missão de fixar o inimigo, retardando-o até o recebimento de reforços do Arraial, em caso de rompimento do cerco ou de ataque a qualquer delas. Os insurretos ficaram com liberdade total na campanha, com o porto de Nazaré para comunicar-se com o exterior. O forte em Arraial Novo foi desenhado pelo Coronel holandês Dirck Hoogstraten, comandante da Fortaleza de Nazaré, que se rendera, conforme plano estabelecido e se incorporara à insurreição com todo o seu regimento, prestando assinalados serviços à causa.

Disposição de um povo heróico.

Na madrugada do Ano Novo de 1646, Recife foi acordada com o troar ensurdecedor dos canhões do Arraial, tomados dos holandeses em Porto Calvo, que anunciavam ao inimigo a disposição de um povo combativo: "Não vos iludais, senhores, que o Brasil não foi feito para vós, não percais tempo, voltai para casa", foi o que disseram os nossos, pela voz de um dos seus chefes.
Do heroísmo e disposição dos bravos do Arraial diz este depoimento holandês: "Apesar de suportarem duramente reveses no mar, muita necessidade de vestuário, carne e tudo o mais, e de viverem em contínuo sobressalto, nenhum veio ter conosco, persistindo obstinados em sua rebelião".
À projeção histórica dos Montes Guararapes liga-se intimamente o Arraial, abrigo do espírito de resistência.

Cerco de Recife.

De acordo com Jordão Emerenciano, o cerco de Recife tornou-se rigoroso em junho de 1646, e a situação da praça angustiosa e insuportável. Foi estabelecido um severo racionamento para enfrentar a fome. A penúria era tamanha que atingiu as pessoas mais influentes. Consumiram-se ratos, cães e gatos; os escravos foram vistos desenterrando cavalos mortos de inanição para alimentarem-se; os oficiais batavos, no leito vazante do Capibaribe, disputavam com o povo a captura de caranguejos.
Nesta ocasião, os escravos dos holandeses, premidos pela fome, engrossaram em grande número as fileiras dos patriotas.
Quando a praça estava prestes a capitular chegaram da Europa reforços e víveres.
Trazendo auxílio, retornou ao Brasil o Coronel Von Schkoppe, criticando acremente os defensores por terem permitido que "bandos de desordeiros" encurralassem em Recife tropas de linha de um dos melhores exércitos do mundo. Ao tentar diversas operações na área próxima, viu-se frustrado em todas e recolheu-se à praça, aguardando novos reforços, convencido de que não estava lidando propriamente com amadores.

Bombardeio e sítio de Recife.

Von Schkoppe resolveu fazer uma incursão sobre a Bahia, onde conquistou a ilha de Itaparica, praticando toda a sorte de represálias e vinganças. Os baianos tiveram frustrado um ataque contra a ilha, na noite de 17 para 18 de março de 1647. Voltaram à carga, sob o comando do Capitão Francisco Rebello, na madrugada de 10 de agosto. Após luta encarniçada e desigual, recuaram com pesadas baixas, inclusive do comandante. Von Schkoppe tornara Itaparica uma fortaleza inexpugnável. Qualquer ataque partido de terra teria idêntico destino.
Os patriotas pernambucanos, por seu turno, aproveitando o enfraquecimento de Recife com a saída de Von Schkoppe para a Bahia, urdiram plano ousado e inteligente. Secretamente, durante noites, levantaram a Fortaleza do Asseca, no atual cais da Aurora, nela trabalhando, indistintamente, oficiais, soldados e civis, não tendo sido admitida mão escrava.
Concluída, na manhã de 7 de novembro, rompeu bombardeio sobre Recife, acompanhado de toque de tambores e gritos.
Esse feito causou enorme surpresa ao invasor, vendo surgir, como por encanto, aquela fortaleza junto às suas defesas, vomitando fogo e atingindo Recife. Do que foi este bombardeio, diz bem Lopes Santiago: "O inimigo desocupou os sobrados e refugiou-se em abrigos que construiu nas lojas onde passaram a dormir, e as naus holandesas que entravam e saíam pela barra eram atingidas. Essa resolução foi uma das coisas mais importantes que se fez neste Estado".
Um grupo de patriotas, aproveitando-se da confusão, numa ação de comandos, penetrou na praça e invadiu o antigo palácio de Nassau, matando muitos inimigos e trazendo diversos troféus.
O Conselho de Recife chamou com urgência Von Schkoppe, que abandonou Itaparica, onde resistira a dois ataques, para vir socorrer a cidade.
De tudo tentou o comandante holandês contra o bastião dos Libertadores, o qual somente cessou o bombardeio no final do ano, por falta de munição de artilharia.
Tão notável feito militar teve enorme repercussão estratégica, pois fez voltar por simples ação de presença, às mãos dos baianos, a ilha de Itaparica e criou condições para aportasse a Salvador, tranqüila e sem luta, furando o rígido bloqueio naval, uma esquadra portuguesa, com reforços e o novo Governador Geral, D. Antônio Teles de Menezes.

Heroínas de Tejucopapo.

A 24 de abril de 1646, ocorreu em Tejucopapo comovente episódio, no qual mulheres e rapazes imberbes enfrentaram o invasor com determinação e bravura.
Em conseqüência da fome que afligia Recife, então cercada, uma esquadra holandesa partiu para incursões no litoral, visando a obter alimentos.
Após ancorar em Maria Farinha e atrair as defesas patriotas para Igaraçu, velejou ainda à noite e desembarcou soldados num ponto desguarnecido da costa, com destino a Tejucopapo. Dado o alarma, toda a população buscou abrigo num fortim de pau-a-pique, erguido em ponto dominante, sob a proteção de alguns bravos.
O moço Mateus Fernandes reuniu 30 jovens voluntários e se propôs a emboscar o inimigo, procurando retardá-lo até a chegada de reforços solicitados a Igaraçu.
Sofrendo pesadas perdas das emboscadas de Mateus Fernandes e seus companheiros, o invasor investiu furioso contra o fortim, abrigo de mulheres, velhos e crianças.
O desespero tornou-se grande ante aquela avalancha de ódio. Percebendo que se desagregara a resistência, o agressor, a golpes de machado, iniciou a abertura de brechas na paliçada para penetrar no fortim e trucidar seus ocupantes, em represália aos efeitos mortíferos das emboscadas.
Nesse momento crítico, em que o pânico começou a se alastrar, destacou-se uma brava mulher que, com um crucifixo na mão, percorria o reduto e concitava as outras a pegar em armas e a correr à paliçada para morrerem juntas. Seu apelo foi atendido; todas, apanhando foices, porretes e qualquer armamento improvisado que estivesse ao alcance das mãos, lançaram-se aos magotes sobre o adversário que já penetrava no reduto por brechas abertas na paliçada, obrigando-os a retroceder. Outras começaram a lançar no rosto dos invasores, que se aplicavam em alargar as brechas, água com pimenta-malagueta.
A despeito da denodada reação dessas bravas criaturas, o inimigo começou a penetrar no reduto e a trucidar seus ocupantes e as defensoras mais agressivas. Achava-se empenhado nessa faina, quando recebeu um ataque lançado em sua retaguarda por Mateus Fernandes e seus 30 comandados. Julgando tratar-se de maiores reforços, o inimigo ordenou a retirada e reembarcou para Recife, humilhado e abatido.

Fatos importantes.

A 23 de janeiro de 1648, fugiu de Recife, onde se encontrava preso havia nove meses, o Mestre-de-Campo General Francisco Barreto de Menezes, mandado a Pernambuco por D. João IV para comandar as operações. Foi recebido no Arraial com grande alegria e reassumiu suas funções em 16 de abril. Sua experiência militar era grande. Participara também da famosa marcha de Luís Barbalho, do Rio Grande do Norte à Bahia.
A 18 de março aportou em Recife uma poderosa esquadra da Companhia, composta de 41 barcos, transportando víveres e 6 mil soldados. Com este poderio o invasor decidiu romper o cerco e marchar na direção sul, zona de retaguarda patriota, conquistando Cabo e adjacências, com a finalidade de controlar bases de suprimentos próximas, cortar nesta região o apoio externo aos patriotas e criar condições de prosseguimento por terra para conquistar a Bahia.
Durante a execução desse grandioso plano ocorreu a primeira batalha dos Guararapes.

Primeira Batalha dos Guararapes.
Ao alvorecer do dia 18 de abril o exército da Companhia das Índias Ocidentais, ao comando do Tenente-General Von Schkoppe, marchou na direção Afogados-Barreta-Guararapes, com 6.300 homens.
Ao atingir Afogados, fez uma finta para dar a entender que sua intenção era atacar o Arraial para aí fixar os patriotas. Incumbido de esclarecer a situação, Dias Cardoso descobriu o verdadeiro propósito.
Em conselho de guerra, os luso-brasileiros decidiram retardar o invasor na altura de Barreta, travar a batalha o mais distante possível de Recife e defender o Arraial contra uma ação diversionária.
Em cumprimento a esta decisão o exército de patriotas, composto de 2.200 homens, rumou para o sul a fim de, a caminho, interceptar o invasor e travar a batalha decisiva.
Prudentemente, o General Barreto confiou aos seus chefes imediatos a condução pormenorizada das ações, pois eles conheciam melhor o terreno e a tática desenvolvida naquela luta.
Depois de realizada a reunião para decidir um impasse entre Vidal e Vieira sobre o local adequado para a batalha, e atendendo a sugestão de Dias Cardoso, na qualidade de soldado mais prático e experiente, rumaram para o Boqueirão dos Guararapes, que foi ocupado até às 20 horas da noite de 18 para 19.
O exército inimigo, após vencer uma resistência em Barreta, degolando barbaramente muitos de seus defensores, seguiu tranqüilo e vagaroso para o sul, esperando encontrar 200 patriotas à sua frente, de guarnição em Guararapes.
Na manhã de 19, no momento em que as forças da Companhia das Índias Ocidentais se aproximavam de Boqueirão, uma passagem estreita e longa entre o monte central e os alagados em sua base, saiu-lhes ao encontro Dias Cardoso, no comando de 200 homens, enquanto todo o restante do exército permaneceu escondido. Com imprudência e entusiasmo, os holandeses desdobraram-se e partiram para atacar a fração de Dias Cardoso, o único inimigo que esperavam encontrar. Este retraiu para o interior do Boqueirão, tentando envolver, através dos alagados e montes, a vanguarda e o corpo de batalha. No momento em que o adversário progredia nos alagados e já em grande número no interior do Boqueirão, com drástica redução de frente, teve enorme surpresa – caíra em emboscada, executada com habilidade por Dias Cardoso, reeditando o feito de Tabocas.
As forças luso-brasileiras, até então semi-escondidas, à ordem de "Às espadas!" atacaram repentinamente e com grande fúria.
O terço de Pernambuco, o mais forte, ao comando de Vieira e auxiliado por Dias Cardoso, investiu sobre o Boqueirão, rompeu o grosso da tropa inimiga e envolveu a ala nos alagados. O de Camarão assaltou a ala direita e o de Henrique Dias a esquerda, ficando o de Vidal de Negreiros em reserva, junto ao Boqueirão.
O primeiro embate foi vencido, com muitas mortes e deserções nas fileiras batavas. Refeito da surpresa o inimigo acometeu com a sua retaguarda, que tinha o elevado efetivo de 1.200 homens, a ala de Henrique Dias, que não tinha mais de 400. Contido, foi logo em seguida atacado violentamente pela reserva comandada por Vidal de Negreiros.
Após luta feroz de quatro horas, os patriotas impuseram-lhe a retirada, com Von Schkoppe ferido e muitos oficiais mortos. As perdas holandesas totalizaram 1.038 homens, entre mortos e feridos, contra 480 dos patriotas, dos quais 80 mortos.

A batalha, confronto enaltecedor.

A primeira Batalha dos Guararapes foi notável feito de armas. Estudada no quadro de sua época e guardadas as proporções, foi um acontecimento militar digno de figurar com realce entre os que deram renome de insignes capitães a Gustavo Adolfo, Turenne e outros chefes militares do século XVII.
Realmente, desde os preliminares até os últimos instantes, os brasileiros foram sempre superiores aos holandeses, quer em espírito ofensivo, quer na própria direção e coordenação dos combates.
É necessário ressaltar que a firme determinação daqueles homens de travar batalha decisiva era idéia revolucionária na época, tanto que os próprios chefes holandeses, portadores da mais aperfeiçoada instrução do tempo, não tinham outras preocupações que não fossem os objetivos geográficos ou as praças-fortes. Ao saírem de Recife, buscavam apoderar-se de Muribeca ou do cabo de Santo Agostinho, com a intenção de cortarem as comunicações e os recursos dos patriotas concentrados no Arraial e na Várzea. Agiam dentro das idéias estratégicas vigentes no século XVII. Os brasileiros, entretanto, pela sua admirável intuição, mostravam-se avançados de mais um século em relação às idéias militares contemporâneas.

Adequação de uma escolha.

Não menos inovadora foi a escolha, pelos chefes luso-brasileiros, de um campo de batalha adequado às armas e ao modo de pelejar dos soldados. Não se preocuparam em tomar posse dos montes que dominavam a planície e os alagados, ao sul. O que lhes interessava, primeiro, era esconder a importância ou o valor dos seus efetivos para conseguir uma surpresa sobre o inimigo; segundo, atrair os holandeses para a luta em terreno estreito, entre os montes e os brejos, onde perdessem a vantagem da superioridade numérica e de armas de fogo. Com o seu modo de combater, em pequenos grupos separados, e de preferência com arma branca, avançando e recuando, armando ciladas, o exército luso-brasileiro foi senhor de todas as ações no dia 19. Aproveitando a surpresa obtida tanto pelos seus efetivos – avaliados em 3 mil homens por Von Schkoppe – como pelo terreno alagadiço e inseguro, não foi difícil a Barreto de Menezes, Dias Cardoso, Vieira, Vidal de Negreiros, Henrique Dias e Camarão investirem confiantes sobre os adversários com o propósito de lançá-los e destruí-los de encontro aos brejos.
No que respeita à direção da luta, os documentos oficiais estabelecem a prioridade de Barreto de Menezes. Ele acompanhou com atenção todas as ações que se desenvolviam tanto na baixada como nos montes e, por três vezes, pelo menos, interveio oportuna e sabiamente; primeiro, quando empregou sua reserva inicial para reforçar e apoiar Henrique Dias, o que não deu resultado por motivo alheio à vontade; segundo, ao reunir elementos dispersos e retirantes da frente de luta para organizar com eles nova reserva a fim de atender às circunstâncias; terceiro, para decidir o curso da batalha lançou essa última tropa contra os regimentos flamengos, já em plena desordem e confusão, no terreno alagadiço, onde foram massacrados.
Enquanto isto, que fazia Von Schkoppe? Seu sucinto relatório e a descrição do combate feita pelo Coronel Van den Brande permitem concluir que o General holandês não comandou seu exército na batalha, parecendo que apenas em um momento fez intervir e valer sua vontade, para transmitir a determinação àquele Coronel de manter-se nos montes até a noite.

Crítica infundada.

Alguns historiadores têm assinalado como falta cometida pelos chefes luso-brasileiros o fato de não terem perseguido os holandeses após a batalha.
Não é crítica justa. De acordo com as idéias estratégicas dominantes na época, não havia a preocupação de perseguir e aniquilar o inimigo, batido numa batalha travada pela conquista ou defesa de uma cidade ou de uma praça-forte. Apesar disto o General Barreto de Menezes procurou manter o contato com o exército adversário durante a noite, para impedir que se retirasse sem ser pressentido. O cansaço da tropa e a chuva torrencial não permitiram ao comandante luso-brasileiro a perseguição e aniquilamento das forças inimigas.
Sem nenhum exagero patriótico, mas, ao contrário, à luz do depoimento oficial dos que tiveram a responsabilidade de dirigir a batalha que se travou nos Guararapes aos 19 dias do mês de abril de 1648, pode-se concluir que tanto o comando como as tropas luso-brasileiras demonstraram nítida superioridade moral e profissional em relação ao comando e às tropas holandesas. A vitória em Guararapes nesse dia não foi, portanto, obra fortuita dos acontecimentos, mas sim resultado da ação vigilante e decidida dos chefes, da bravura e do espírito combativo dos soldados.

Sonho frustrado.

Nossa vitória reduziu sensivelmente a capacidade ofensiva terrestre e naval do inimigo, além de deitar por terra, em definitivo, os sonhos de lucro da Companhia, ao ver fracassar, destruída moralmente, a caríssima expedição que enviara a Pernambuco. Esperando que o empreendimento obtivesse recursos locais, abandonou-se à própria sorte, agravando ainda mais o estado de indisciplina dos soldados mercenários, que tinham perdido muitos de seus oficiais na batalha.
Da situação local diz bem um depoimento holandês: "Recife sitiada é e continua sendo a cidade da fome. Vivemos aqui como bestas e morremos como porcos".
Os patriotas apertaram o cerco. Além de reconquistarem Olinda em 20 de abril, reforçaram seus meios com copioso material bélico capturado. Conseguiram também diminuir no litoral as incursões da esquadra, que tinha falta de víveres e aguadas. Este feito repercutiu em Portugal, onde os brasileiros passaram a ser mais admirados, respeitados e ajudados.

Reconquista de Angola.

A diminuição da capacidade de ação estratégica e naval holandesa criou condições para a libertação de Angola. A 12 de maio de 1648, partiu do Rio de Janeiro, ao comando de seu Governador, Salvador Correia de Sá e Benevides, uma expedição composta de 15 navios e 900 brasileiros, com destino a Angola, para devolvê-la a Portugal.
Após romper o bloqueio flamengo, atingiu a África e, através de vitoriosas manobras militares contra uma força superior e bem fortificada, em São Paulo de Luanda, reconquistou aquela possessão, entre 15 e 16 de agosto do mesmo ano.
Em maio de 1648 e em janeiro de 1649 os holandeses, através do Almirante With e do Coronel Van den Brande, respectivamente, desfecharam dois ataques contra o Recôncavo, na Bahia, sem no entanto molestarem Salvador. Incendiaram, saquearam, mataram e retornaram a Recife, sem grandes ganhos.

Segunda Batalha dos Guararapes.

A 17 de fevereiro de 1649, 3.650 holandeses, ao comando do Coronel Van den Brinck, decidiram deixar Recife e ocupar os Montes Guararapes, de onde esperavam atrair os 2.640 luso-brasileiros a uma batalha decisiva.
Após uma marcha forçada, estacionaram nos Guararapes, numa reedição da manobra usada pelos libertadores, na primeira batalha.
Nosso exército, ao ver ocupado o Boqueirão, infiltrou-se durante a noite de 18 através de passagens existentes a oeste dos montes. Postou-se pela manhã à retaguarda do exército da Companhia das Índias Ocidentais, sem revelar sua força e dispositivo.
Frustrados em seu plano e castigados pela sede e pelo sol inclemente, decidiram os holandeses retornar a Recife no início da tarde de 19, na crença de que os luso-brasileiros, muito enfraquecidos, segundo informações recebidas, não interfeririam na manobra. À tarde, após retirar quatro regimentos de posição, para iniciar a marcha de retorno a Recife, deixando somente dois para cobrir o retraimento, foram atacados de surpresa.
Os luso-brasileiros, com seis unidades de infantaria, comandadas por Vieira, Henrique Dias, Camarão, Figueiroa, Vidal de Negreiros e Dias Cardoso e duas subunidades de cavalaria ao comando de Antônio Silva e Manoel de Araújo, atacaram em toda a frente, saindo de locais onde se mantiveram cobertas. Surpreso, o exército batavo, após esboçar reação, desintegrou-se por completo.

Confusão, desordem e pânico.

Este desastre militar foi assim descrito por Van Goch, oficial holandês que participou da batalha:
"Tivemos que recuar por causa da excessiva força do inimigo que atacou com tanta impetuosidade que nossas tropas começaram a fugir e acharam-se logo no maior confusão, que nem palavras nem força puderam retê-las, apesar de todos os esforços dos oficiais. As nossas tropas, entregues à desordem, à deserção e à confusão, dispersaram-se aqui e ali, por diversos caminhos, em direção ao mato e ao rio".
Von Schkoppe, ausente da batalha, assim se referiu ao último grande fracasso militar terrestre da Companhia no Brasil:
"A cavalaria e a infantaria se lançaram sobre os nossos regimentos e causaram tanta desordem que nem os oficiais, quer subalternos quer superiores, nem os soldados, puderam cumprir o seu dever, o que provocou tal consternação entre os nossos que a pena não poderia descrever (..) e a maior parte de nossas tropas se pôs a fugir, deixando-se matar sem resistência, como crianças".
E um comentarista luso-brasileiro, contemporâneo da batalha, observou:
"Foi a derrota cruel e sangrenta, e os portugueses, matando a quantos encontravam, levaram a vitória à distância de duas léguas, até a Barreta, onde o General deixou algumas companhias para impedir o passo dos fugitivos. Todos estavam cansados, uns de fugir, outros de matar e vencer".
Souza Júnior, no final da análise desta vitória memorável escreveu:
"Mais uma vez os patriotas, inferiores em número mas superiores como combatentes, derrotaram esmagadoramente os soldados de um dos melhores exércitos da Europa".
O exército da Companhia das Índias Ocidentais retirou-se na maior desordem para Recife, com 1.544 baixas, sendo 927 mortos (entre eles Brinck), 89 feridos e 428 prisioneiros, representando 44% do efetivo envolvido na batalha, contra 45 luso-brasileiros mortos e 425 prisioneiros.

Guerra antiga com idéias novas.

Novamente os nossos demonstraram, em relação ao inimigo, absoluta superioridade em espírito combativo, conhecimento da arte de fazer a guerra, coragem e determinação.
Do lado holandês houve, como sempre, ausência de plano bem definido. Depois de estar com o exército em formação de combate nos Montes Guararapes, resolveu o Coronel Brinck regressar a Barreta, sem combate, a fim de receber ali novas ordens do Tenente-General e dos conselheiros que se encontravam em Recife. Foi erro imperdoável que lhe custou bem caro: sofreu uma derrota e perdeu a vida. Foi o maior desastre das armas holandesas no Brasil.
Do lado luso-brasileiro, tudo se passou conforme plano previamente traçado e resolvido dentro de rígida linha de fidelidade às suas idéias, que até hoje causam admiração. Primeiro, estava decidido que era preciso travar batalha com o inimigo; daí a marcha para os Guararapes, assim que chegou ao Arraial a notícia do movimento do exército da Companhia das Índias Ocidentais para aquela região. Segundo, o dar batalha com a disposição de vencer implicava escolher terreno favorável e eleger o momento oportuno; eis por que o exército se apresentou ao sul e não ao norte dos montes, e somente atacou, apesar de muitas vezes provocado, quando pôde escolher e golpear o inimigo em flagrante mudança de atitude e formação.
Outras medidas oportunas e eficientes tomadas pelos chefes luso-brasileiros, e que merecem ser assinaladas porque não eram próprias da época embora constituam hoje preceitos habituais, foram a busca de informações e o reconhecimento do terreno e do inimigo, tendo em vista o ataque planejado. Durante a noite e pela manhã não descuidaram em manter-se bem informados sobre o adversário. Golpes-de-mão e pequenas incursões foram realizadas não só para inquietar como para reconhecer. Tão estreito era o contato entre as duas forças e tão vigilantes estavam os nossos homens, que logo que as• tropas flamengas começaram a abandonar os montes, tomando o dispositivo de marcha para Barreta, o comandante de nossas forças recebeu a informação precisa do que se passava.

Reconhecimento providencial.

Quanto ao reconhecimento do terreno e do inimigo, encontram-se em Lopes Santiago detalhes esclarecedores: "Tanto que amanheceu o seguinte dia, 19 de fevereiro", escreveu o cronista da Guerra de Pernambuco, "se acordou em Conselho se reconhecesse o inimigo, a forma em que estava e assim ordenou o Mestre-de-Campo General Francisco Barreto de Menezes a todos os Mestres-de-Campo e ao Tenente-General Filipe Bandeira e aos Sargentos-maiores do terço, a saber: Antônio Dias Cardoso, do de João Fernandes Vieira; Paulo da Cunha, do de André Vidal de Negreiros; Jerônimo de Enojosa, do de Francisco de Figueiroa, com o Capitão de Cavaleiros Antônio da Silva, para que reconhecessem o inimigo, e viram que estava na mesma forma que o dia de antes, situado nas eminências dos Montes Guararapes, podendo socorrer uns aos outros. Recolhidos os mestres-de-campo, havendo notado e visto a disposição dos holandeses, se chamou a Conselho donde se tornaram como dantes a resolver que não convinha buscar o inimigo, por estar bem formado e senhor assim das eminências dos montes, donde socorriam uns aos outros como da baixa do boqueirão, porque não havia em nosso exército poder para contê-lo por oito ou nove partes, como estava formado, e que para cometerem por duas ou três partes seriam os nossos logo cortados e facilmente destruídos, mas que estivessem com muito cuidado para que tanto que o inimigo se movesse, ou para marchar para diante, ou para se ir para o Recife, investissem, não convinha estar a nossa infantaria à sua vista formada, para não reconhecer o nosso poder: e com este acordo e parecer se ajustou o Mestre-de-Campo General Francisco Barreto de Menezes".

Esboço de guerra moderna.

Não parece absurdo concluir que, respeitadas as proporções, nas lutas do Recôncavo aos Guararapes existe bem nítido um esboço do quadro da atual guerra total.
Não representa de fato exemplo de política de terra arrasada, tão empregada modernamente, o que fizeram os insurgentes na Paraíba e no Rio Grande do Norte, para tirar aos invasores qualquer sorte de recursos? "Ao retirar-se", descreveu Rocha Pombo, "destruíram os moradores tudo quanto pudesse ser útil aos flamengos. A devastação foi completa, como se uma tormenta houvesse varrido aquela terra, agora deserta".
Não constitui,realmente, a ação dos guerrilheiros soviéticos, dos maquis franceses e dos partiggiani da Itália uma reprodução em grande escala das terríveis intervenções das famosas companhias de emboscadas que não permitiam que o invasor saísse sem perigo das suas praças-fortes? "Quanto ao resto", mandavam dizer para a Holanda os Conselheiros da Companhia, após a Batalha dos Guararapes, "estamos encerrados aqui em Recife, não tendo mais lugar ainda do que a praça e a fortaleza que o inimigo abandonou. O inimigo conserva-se pelas vizinhanças com todas as suas forças". E mais adiante chamavam: "O inimigo nos mantém aqui tão fechados que para bem dizer está com a espada sobre o nosso pescoço".

Em busca de uma batalha decisiva.

O princípio da concentração de esforços, em contraposição à dispersão de meios dos holandeses não se apresenta concretizado na reunião de todos os recursos dos patriotas na Várzea e em derredor de Recife?
"Os mestres-de-campo Fernandes Vieira e Vidal de Negreiros", relatou Lopes Santiago, "trataram de defender a campanha, convocando todos os soldados, provendo as estâncias fronteiras e postos mais perigosos, e considerando que a primeira guerra se perdeu por estar o poder que havia tão dividido que se estivera junto não ganhara o inimigo".
A procura de uma batalha decisiva, característica fundamental da guerra moderna, não se encontra materializada nas duas batalhas dos Guararapes?
Apesar de fatores restritivos, como os recursos e meios limitados, não podemos deixar de assinalar, nos últimos anos da guerra contra os holandeses, o aparecimento de va forma de conduzir as operações em campanha, que não se coadunava com os reduzidos conhecimentos da arte militar de então. Em pleno século XVII, longe dos campos de batalha da Europa, já se fazia, no Novo Continente, guerra de movimento e de destruição do inimigo, mercê da inteligência, vivacidade e intuição dos chefes militares do Arraial Novo do Bom Jesus que, durante quase 10 anos ininterruptos de luta implacável, combateram e venceram um dos melhores exércitos da época.

Cada soldado patriota, um capitão.

Com toda a sua autoridade de mestre da guerra brasílica ou de emboscada, Antônio Dias Cardoso, ao representar os luso-brasileiros na troca de mortos e prisioneiros, respondeu a um oficial inimigo, que assegurava vencê-lo no próximo confronto com a mesma tática de dispersão: "Melhor para nós, pois cada soldado nosso é um capitão, enquanto cada um dos vossos necessitará um capitão ao lado para combater". Dias Cardoso estabelecia assim a diferença entre o soldado patriota, encaminhado à luta por motivos espirituais, e o mercenário, engajado por dinheiro.

Derrocada.

Ao rude golpe militar e econômico sofrido pelo invasor nas duas batalhas dos Guararapes somam-se outros mais: a organização em Portugal da Companhia Geral de Comércio do Brasil, a guerra naval entre Inglaterra e Holanda e a ruína da Companhia das Índias Ocidentais. Tudo isso contribuiu para que a Holanda perdesse a supremacia naval no litoral do Nordeste.

Libertação.

A 14 de janeiro de 1654, em ação conjunta do exército luso-brasileiro e da esquadra da Companhia de Comércio do Brasil, composta de 64 navios, sendo 13 ou 14 de guerra, teve início o assédio de Recife. Em 10 dias de operações, a capital holandesa caiu em mãos dos nossos.
No dia 26, na Campina do Taborda, fronteira ao Forte de Cinco Pontas, os holandeses assinaram a rendição de todas as suas forças no Brasil. A guerra chegara ao final. Os patriotas ocuparam Recife a 27 e 28, após 23 anos em mãos do invasor. Nela entrou triunfante o Mestre-de-Campo General Barreto de Menezes.
A guerra acarretou o aumento das guarnições militares dos principais núcleos populacionais brasileiros. Já em 1640, por exemplo, o Rio de Janeiro possuía guarnição respeitável para a época. E segundo Mirales, em sua célebre História Militar, nessa mesma ocasião contava a Bahia com seis terços e uma unidade de artilharia, além das unidades de guerrilheiros e pernambucanos.
Tempos depois do término da guerra, o Governador de Pernambuco, cumprindo determinação régia, deu nova organização militar à capitania. Com os militares fora do serviço ativo, instituiu uma tropa de 6.500 infantes, 800 cavalarianos e um trem de artilharia de campanha. Cada comarca passou a dispor de um terço e cada freguesia de uma companhia. Mais tarde, durante o governo do Conde de Óbidos, tomaram-se novas providências, dentro do espírito da antiga organização das ordenanças.
Não obstante, a conseqüência de maior relevo da guerra holandesa, no tocante à organização militar, foi que o povo, muito particularmente da Bahia para o norte, passou a encarar a força terrestre com maior simpatia, admitindo-a, realmente, como um meio para a sua defesa e a dos seus bens, isto refere-se de modo especial às ordenanças, que receberam muito maior atenção da Metrópole e passaram a apresentar maior eficiência militar.