ÓLEO LEVE DE ARMAMENTO

Publicação: Qui, 8 de novembro de 2018

 

"O toque de ordem indicava o final do expediente, deixando às guarnições de serviço a missão de guardar as instalações do quartel. Pura rotina.

 

Às vezes, a faina prosseguia pela noite com programas de instrução militar e tarefas exaustivas. Isso era comum no batalhão recém-transferido para a Capital Federal, fazendo com que alguns profissionais só voltassem para casa, após o toque de silêncio.

 

A sobrecarga de trabalho no BGP era um bom pretexto para os casados que gostavam de "pular a cerca" e sair para uma escapadinha esperta na cidade.

 

O afoito tenente, ex-seminarista, encantado com as facilidades que a noite oferecia e com a disponibilidade feminina, saiu em campo, para cumprir uma "agenda pirata."

 

Quase meia-noite!

 

Hora de voltar para casa, após a extenuante jornada, fazendo uma escala técnica no quartel, para vestir novamente o uniforme de instrução, símbolo de trabalho e dedicação à caserna, naquele período duro de incorporação de novo contingente.

 

O fugitivo estava feliz e realizado após o programa clandestino. Só que, com ele, veio impregnado um perfume feminino que denunciava a origem de seu portador.

 

Após contar suas prosas ao oficial-de-dia, seu colega de turma, pediu uma "avaliação olfativa" que foi muito fácil de diagnosticar. No ensejo, constatou que o tal perfume persistia, apesar de um prolongado banho.

 

Novo banho e nada! Parecia que o sabonete estimulava o forte perfume. Veio então a sugestão do oficial-de-dia: outro banho, desta vez, com sabão de lavar roupa, daqueles mais baratos que nem marca têm. Melhorou bastante, mas não resolveu. Nos recantos e articulações mais protegidos da pele, ficava um resquício teimoso do bendito perfume, como se fosse uma arma do crime, evidenciando os indícios de culpa.

 

Uma luz brilhou na cumplicidade do companheiro que estava de serviço. Mandou acordar o armeiro de seu pelotão e ordenou que trouxesse um kit com OLA (Óleo Leve de Armamento), graxa e outros complementos usuais.

 

Como se fosse uma cerimônia de batismo profano, o tenente foi untado com os malcheirosos lubrificantes bélicos, sem ter pena da pele nem do uniforme limpo e engomado.

 

Alívio!

 

Sentiu-se purificado...

 

Enfim vencera a batalha contra o intruso perfume de alcova extraconjugal.

 

Após se conceder uma auto-indulgência por seu pecado na capital, tomou, enfim, o caminho do lar, doce lar, com a sensação do dever cumprido e ensaiando um discurso reclamatório, para justificar o atraso, a viscosidade do corpo e o odor incômodo de oficina mecânica.

 

Não se sabe se essa estratégia virou moda..."

 

Autor:  Paulo de La Peña - Inf 1964