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A DISTÂNCIA INTER-PUPILAR

Publicação: Qua, 20 de abril de 2022

 

 

     Não assisti à cena, mas quem se encontrava no local do ocorrido me declarou que jamais rira tanto como naquele dia.

 

     Vários cadetes num posto de observação. Entre eles dois "aratacas". Um deles alegre, desinibido, brincalhão e muito gozador, que há muito chateava o colega de todas as maneiras. O outro fechadão, sério, de "estopim curto" e que detestava a zombaria do companheiro mas, a bem da convivência, a custo vinha tolerando suas insistentes e desagradáveis brincadeiras.

    

     Tudo na vida tem seus limites, e a paciência do cadete, naquele momento, estava chegando ao seu máximo de tolerância. Aí então ocorreu a hilariantes "tragédia".

 

     Em dado momento, o cadete brincalhão, ao lado, pega o binóculo do outro, puxa-o para si, quase o enforcando pelo cordel que se encontrava no pescoço, coloca-o em seus olhos, dá uma observada no terreno à frente e exclama, para que todos o ouvissem: - A distância inter-pupilar de fulano é uma bostinha -. Nesse momento, o "cálice de fel" transborda e, ato contínuo, sem nada dizer, o "ofendido" lança-se sobre seu "desafeto", e ambos saem rolando pelo solo, um atacando, o outro às gargalhadas quase não podendo se defender, enquanto os demais se contorciam de tanto rir face ao inusitado da cena e, principalmente pela "gaiatice" da frase estopim, desencadeadora da explosão. Realmente o colega tinha os olhos bem juntinhos, possivelmente um ponto sensível em sua auto-estima. Somente a presença do "frango" que ali chegou atraído pelo alarido dos cadetes conseguiu pôr fim à "terrível" luta que se desenrolara. Durante muito tempo, ainda se falava da distância inter-pupilar do cadete. Apesar da briga, pelo que eu soube, continuaram amigos.

 

Autor:  Newton de Arruda Giraud - Art 1955


SEM PALMAS, POR FAVOR!

Publicação: Qua, 6 de abril de 2022

 

 

"Corria o ano de 1977 ou 78; pouco importa, porque a orquestra do Ray Coniff vinha ao Brasil todos os anos, naquele período e, invariavelmente, se apresentava em Curitiba, no teatro Guaíra. O preço dos ingressos era "salgado", porque a procura era enorme. Não era coisa para milico com família...

 

O tenente-coronel S, tido como "mão de vaca", gostava muito da orquestra e sua filha mocinha mais ainda. Conseguiu convencer o pai a pagar-lhe o ingresso. Ela seria a representante da família! Como retransmitir, na volta, toda a emoção da presença na platéia? O oficial encontrou a solução: ela levaria na bolsa um pequeno gravador "K-7". Mas, para economizar fita, foi instruída a só liberar a gravação ao início de cada música, apertando o botão de "pausa" logo ao final, escoimando, dessa forma, as palmas.

 

- Sem palmas! - o pai foi enfático.

 

Assim que a moça pôs os pés em casa, a família acorreu, para ouvir a esperada fita. Ela foi logo rebobinada e, então, colocada para tocar: - Clap, clap, clap, clap !... Clap, clap, clap, clap!... Clap, clap, clap, clap!... - só palmas!... A moça invertera a operação: pausara durante as execuções e liberara a gravação do indesejado!

 

O duro, mesmo, para o Ten Cel S, foi aguentar a turma do QG que vinha até a sua sala pedir para ouvir e copiar as músicas do Ray Coniff..."

 

 

Autor:  César Augusto Nicodemus de Souza  - Art 1960


SALTO NOTURNO DO CURSO DE MESTRE DE SALTO 70/4

Publicação: Qua, 23 de março de 2022

 

"No ano de 1970, fui matriculado e concluí o Curso Mestre de Salto. Foi o curso 70/4 do Centro de Instrução Aeroterrestre General Penha Brasil, Brigada Pára-quedista, Deodoro, Rio, RJ.


Encerradas as etapas teóricas e práticas, com a realização de saltos no Campo dos Afonsos, Rio, RJ, e em Gramacho, RJ, iniciou-se a viagem durante a qual, os alunos executariam lançamentos de pára-quedistas (eles) em algumas Zonas de Lançamento do Centro-Oeste e Norte do Brasil.


Nossa viagem de instrução previa lançamentos em Uberlândia, MG; Campo Grande, MT; Cuiabá, MT; Porto Velho, RO; e Manaus, AM. Tudo ótimo, estávamos vibrando e ansiosos para a conclusão do curso.


O lançamento de pára-quedistas, em Campo Grande, MT, seria um salto noturno. A experiência da maioria dos alunos, até então, era de saltos noturnos no Campo dos Afonsos, ou seja, apesar de ser à noite, a iluminação da cidade do Rio de Janeiro nos dava algumas referência, quando chegávamos à porta do avião, para os instantes finais preparatórios do salto. Porém isto não ocorria em Campo Grande. Era um terrível imenso breu. Referência somente aquelas constantes da carta e as reveladas no briefing (instruções para as tripulações das aeronaves e mestres de salto), antes do embarque e nada mais!


E lá fomos nós. Para cada aluno, quando era chegada a vez de atuar como mestre-de-salto, era criada uma sequência de situações nas quais mesclavam-se as ordens do instrutor, toques de campainha no interior da aeronave, o acender e apagar de luzes de aviso verdes e vermelhas na porta do avião. O aluno deveria responder às perguntas do instrutor, estar atendo aos toques de campainha e acender de luzes, interpretando e informando para o instrutor os significados. Tudo ocorria simultaneamente.


Era a vez do 2º tenente Gílson Campos Filho ser sabatinado. Toque de campainha, luz verde, três toques curtos de campainha etc, gritos do instrutor, capitão Glênio, e o Gílson, respondendo a tudo. Súbito ele se desconcentra, tocou a campainha, luz verde acendeu, Gílson vira-se para o Cap Glênio e pergunta: - Já? -. O Cap Glênio vociferou: - JÁÁÁ! -. E o Gílson, para desespero do instrutor, se lança da aeronave, e o berro angustiado do Glênio: - NÃOOOOOOO!!!!! -. Era tarde, Gílson se lançara no negrume da noite matogrossense, sem luar, estando a mais de três minutos (de avião) do ponto de lançamento. Eram cerca de 22:00 horas, daquele dia.


Concluídos os lançamentos após as aterrissagens dos alunos, iniciou-se a busca do Gílson, que chegou pela manhã à Zona de Lançamento."


Autor:  Jorge da Rocha Santos  - Inf 1968


ALERTA AVIÃO

Publicação: Qua, 9 de março 2022

 

     Sempre fui um admirador da aviação, todavia a neurose de ter medo de altura me tolheu a vocação de sair singrando os ares deste imenso Brasil, numa máquina voadora.

     Nas instruções de campo da AMAN, era ensinado que a aviação inimiga investia nas tropas a pé, para desbaratá-las, e tínhamos o ensinamento tático de como proceder no caso de um "ataque inimigo". Qualquer elemento da marcha que previsse a chegada de um avião não identificado tinha a obrigação de gritar "Alerta Avião", e toda a tropa repetia a cantilena, disparando em direção ao mato, cada coluna para o lado da estrada à sua direita ou à sua esquerda.

     Numa dessas marchas, um colega que estava, com indisposição intestinal, começou a sentir os sintomas de um "descarrego" iminente. Que fazer? Se pedisse permissão ao comandante da tropa, seria negado, pois o mesmo não iria paralisar a marcha, para atender a um caso fortuito. Se abandonasse a tropa, para correr para o mato, provavelmente não alcançaria mais a coluna e seria punido.

     Nesse meio tempo, um colega sugeriu a solução legal para o caso. - Grita "Alerta Avião", cara. Pelo menos meia hora, você vai ter disponível para satisfazer suas necessidades! - Não deu outra, ouviu-se o grito e a tropa, automaticamente, desbaratou-se rumo ao mato, gritando, em coro, "Alerta Avião". O capitão comandante da tropa não gostou da ideia, indagou aos tenentes quem primeiro havia dado o alarme, prerrogativa dele naquele exercício. Naquela gritaria de mais de cem vozes, foi impossível apurar quem deu o primeiro grito.

     O colega se livrou da maldita dor de barriga, e, depois de mais de meia hora, a marcha retomou o seu curso, sem que fosse apurado o gaiato autor da brincadeira.

 

Autor: JOSÉ BATISTA PINHEIRO - Inf 53


O SOLDADO EM ANEXO

Publicação: Qua, 23 de fevereiro 2022

 

     Qualquer um que tenha servido com o Maj Nélson Cibulars sabe quantos causos ele era capaz de protagonizar. Extremamente ativo, inteligente e criativo, não havia dia em que não deixasse a sua marca na unidade. Como comandante interino e, depois, como Subcomandante do, então, 1º GCan.Au.AAé. (São Cristóvão, Rio), revolucionou as rotinas e atividades, as condições do aquartelamento e tudo mais, mediante acompanhamento diuturno de tudo o que se passava no interior da Unidade. Não perdia tempo e decidia em cima dos fatos. Também não lhe faltavam o humor e a fina ironia. O exemplo que se segue é típico.

     Eu comandava a 1ª Bateria de Canhões e, estando no meu PC, recebi a apresentação de um dos meus soldados, com um cartão preso por um clip ao colarinho da camisa. interpelei-o sobre o que aquilo significava, e ele me disse que fora mandado pelo Maj. Subcmt., o qual lhe dissera que eu deveria ler aquele cartão. Foi o que fiz. Na sua intenção de alertar, rápida e desburocratizadamente, o Cmt. da Bateria sobre o deslize de  um soldado, ele ali escrevera: "O soldado em anexo... fez isso e aquilo"...

 

Autor: César Augusto Nicodemus de SOUZA - Art 60

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REC SIN

Publicação: Qua, 9 de fevereiro 2022

 

     A AMAN sempre teve suas místicas e a Seção de Instrução Especial (SIEsp) não era diferente. Instrutores e monitores operacionais, que tinham pouco ou nenhum contato com os Cadetes durante o ano, eram conhecidos pela rigidez e cobrança por todos que conviviam no meio acadêmico.

     Durante o Estágio de Operações Especiais, no 3º ano, a ênfase da SIEsp eram as técnicas de patrulha. Dispondo de meios nobres para o planejamento dos futuros Oficiais, era comum os instrutores comentarem: “ Peçam tudo o que precisarem para cumprirem a missão!”. No início dos anos 2000, imaginar uma patrulha com viatura já era o auge pro Estagiário. Contudo, na SIEsp havia óculos de visão noturna, mira laser, helicópteros e outros meios que faziam com que o Estágio ganhasse em realismo.

     E, nesse contexto, entra em cena o Estagiário 57. Por ser de Arma base, era quase uma obrigação se voluntariar para as funções de comando da patrulha, até para evitar que companheiros menos experientes sofressem as consequências de planejamentos equivocados. Após a célebre frase do instrutor “ O comandante será…..”, o 57 não foi escolhido como Comandante, mas coube a ele ser o Comandante do grupo de assalto.

     O 57 era conhecido na Turma como um cara muito gente boa, mas o que tinha de companheiro, tinha de “ torador”. Bastavam poucos minutos de auditório para que as piscadas de pálpebras iniciassem quase que instantaneamente. E na SIEsp não seria diferente.

     Depois de dias de exercício, horas sem dormir e o cansaço abatendo a todos, o nosso querido 57 rendia-se aos braços de Morfeu com facilidade ainda maior do que nos dias de palestra. Durante a ordem à patrulha, o pobre Estagiário quase caiu sobre o caixão de areia algumas vezes, para alegria daqueles que queriam se distrair para se manterem acordados e desespero do seu “canga”, que via o risco de banhar-se nas frias águas da Represa do Funil aumentar caso o Instrutor visse o estado do 57.

     O planejamento daquele dia era simples: a patrulha iniciaria o deslocamento até as margens da represa, onde embarcariam em voadeiras. O grupo de reconhecimento e sinalização (REC SIN) nadaria até a margem desejada, sinalizaria o desembarque da patrulha no local, tomaria-se o dispositivo e teria início a ação no objetivo.

     Terminadas as ordens e os ensaios, a patrulha iniciou seu deslocamento pelas águas da represa por volta das 23:00hs. No local marcado pelo Comandante, o REC SIN lançou-se na Represa do Funil e foram nadando em direção à margem. A distância do nado era de cerca de 250 metros, o que levaria naquelas condições aproximadamente 15 minutos. No entanto, uns 05 minutos após o salto da equipe, o 57 anuncia:

     - Comandante, o REC SIN está sinalizando o desembarque!

     - O que? - Perguntou o Comandante.

     - É o REC SIN! Estão mandando o sinal! - Diz o 57 apontando para o horizonte.

     - Onde? Perguntam os outros militares.

     - Ali, bem na nossa frente.

     - Aquilo é a LUA, 57!!

     Depois de muitas risadas, inclusive da equipe de instrução, a patrulha seguiu, mas a história do REC SIN se preservou pelo tempo, sendo motivo de brincadeiras com o 57 mesmo depois de tantos anos.

 

Autor: Maj José Renato Gama de Mello SERRANO - Cav 2004