Tiros no cartão-postal

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A guerra entre traficantes de facções rivais que assola o Leme chegou ontem à Urca, onde moram os generais que comandam a intervenção federal na segurança do Rio. Bandidos que se escondiam no Morro da Babilônia fugiram em direção à Praia Vermelha e foram surpreendidos pela polícia na mata. O intenso tiroteio parou por 15 minutos as decolagens do Aeroporto Santos Dumont e fechou a estação do bondinho do Pão de Açúcar. Dois policiais foram feridos. Uma guerra entre traficantes, que aterroriza o Leme desde o início da semana, ganhou terreno e chegou ontem à Urca, que, cercada por instituições militares, ganhou fama de ser um dos bairros mais seguros da cidade. No início da tarde, a tranquilidade da região onde moram oficiais que integram a cúpula da intervenção federal na segurança do Rio foi quebrada pelo som de tiros. Criminosos que se escondiam no Morro da Babilônia e fugiam em direção à Praia Vermelha foram surpreendidos por PMs do Batalhão de Choque dentro de uma mata. O confronto que se seguiu, e que deixou dois policiais feridos por estilhaços de granadas, foi escondido pela vegetação densa, mas os disparos puderam ser ouvidos de vários pontos da Urca, deixando moradores em pânico. Os tiros também atingiram em cheio a já combalida imagem da cidade: o Aeroporto Santos Dumont teve decolagens suspensas por cerca de 15 minutos para que aviões não entrassem na zona do conflito e o bondinho do Pão de Açúcar, uma das principais atrações turísticas do país, que funciona há 106 anos, foi fechado pela primeira vez por causa da violência.

Turistas que admiravam a paisagem carioca do alto do Morro Cara de Cão, primeira parada do bondinho, foram levados às pressas para um anfiteatro, onde ficaram abrigados por quase uma hora. Cerca de 20 crianças que chegavam para o embarque na Praia Vermelha ficaram encurraladas - elas tiveram que se proteger dentro da estação fechada. Diante dos olhos de várias pessoas, desenrolavam-se cenas assustadoras à beira-mar. Armados com fuzis, PMs do Comando de Policiamento Ambiental cruzaram a água de jet ski para, com o apoio de um helicóptero e de homens do Batalhão de Operações Especiais (Bope), resgatar um colega ferido na mata. Em meio a tiros disparados por traficantes, eles subiram a encosta para socorrer o policial. Levado para a areia com uma perna sangrando, o policial foi encaminhado para o Hospital Geral da PM, e não corre risco de vida. Um outro agente, com um ferimento leve no rosto, continuou trabalhando normalmente.

Enquanto cerca de 30 bandidos se escondiam na mata, ainda fazendo disparos, um dos traficantes resolveu se entregar. De calça, sem blusa, descalço e carregando um fuzil, ele desceu o costão da Praia Vermelha agachado, até ser capturado pela polícia - a cena foi filmada, e tomou as redes sociais. Na internet, o clima entre moradores e estudantes das universidades que funcionam na Urca era de perplexidade. "Estava no bandejão da reitoria da UFRJ e ouvi os disparos", contou um internauta. "Troca de tiros na praia, do lado de uma escola militar. E eu achando que aqui continuava de boa, na tranquilidade", escreveu outro. Quem estava perto dos confrontos, com a adrenalina a toda, também desabafou:

- A sensação era que os criminosos estavam invadindo o Pão de Açúcar, porque os tiros pareciam muito próximos. Procuramos um lugar para nos esconder. Os funcionários do bondinho também não sabiam o que estava acontecendo, muito menos como proceder. Demoraram a nos passar informações. Foi horrível - disse, aos prantos, uma turista mineira que veio ao Rio com uma amiga para um congresso. - Tentamos descer, mas não deixaram. Perdemos o evento, só o que queremos agora é voltar para casa.

Entre os estrangeiros, a sensação que dominava era a de incredulidade. Uma turista chilena contou que, no início, pensou se tratar de trovoadas:

- Eu não conhecia barulho de tiro. Para mim, eram trovões. Não existe isso no Chile.

Três estudantes mexicanas também demoraram a entender o que se passava:

-Pensamos que eram fogos. Só depois, quando vimos a expressão de medo em todos, é que percebemos a gravidade do caso.

Os confrontos duraram cerca de três horas. Às 17h, os PMs do Batalhão de Choque que estavam na mata saíram do Morro da Babilônia. Eles deixaram para trás bandidos que continuavam escondidos, mas apreenderam seis fuzis. À noite, novos disparos foram ouvidos, mas, desta vez, no Leme. Moradores da Babilônia sofrem desde segunda-feira com confrontos. A comunidade, controlada há um mês pela facção Terceiro Comando Puro, que também domina o vizinho Chapéu-Mangueira, foi invadida por bandidos do Comando Vermelho, que tentam retomá-la.

ENTIDADES LAMENTAM EPISÓDIO

As cenas de violência na Urca foram criticadas por entidades da área de turismo.

- É muito triste, sim. Lamentável. Faz o Rio voltar algumas casas. Mas também acredito que foi um fato pontual. Não devemos usar isso para danificar um projeto que tem dado certo - disse o presidente da Riotur, Marcelo Alves, que, horas antes dos confrontos, participou do seminário "Juntos por um Rio mais positivo", evento no qual o secretário estadual de Segurança, general Richard Nunes, apresentou uma redução de 32% no índice de roubos e furtos a turistas nos primeiros quatro meses de 2018, em relação ao mesmo período de 2017.

Presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Rio e do Sindicato dos Meios de Hospedagens do Município, Alfredo Lopes observou que, desde o fim da Olimpíada, em 2016, não há investimento para a promoção do turismo do estado. Ele frisou que, paralelamente, casos de violência acabaram tendo "publicidade negativa espontânea":

- Estamos pleiteando recursos do Ministério do Turismo para investir em propaganda. O estado está sem recursos, a prefeitura diz que não tem dinheiro. Por isso, pleiteamos verbas federais para fazer um contraponto.

Vice-presidente da Associação dos Embaixadores de Turismo do Rio, Bayard Boiteux, disse que a cidade teve, mais uma vez, a imagem atingida pela violência:

- O tiroteio na Urca está tendo repercussão em vários países, o que não é nada bom para uma cidade que já se encontra em listas de alerta para viajantes no mundo.

Fonte: O GLOBO - RJ

Autor: DAYANA RESENDE, EDIANE MEROLA RAFAEL SOARES