Polarização em alta

Fonte:





No primeiro pleito legislativo pós-acordo de paz na Colômbia, a Farc, partido da ex-guerrilha, teve só 0,5% dos votos e ficaria fora do Congresso se não tivesse dez assentos garantidos.

O resultado das eleições legislativas de domingo, a primeira após o histórico acordo com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, indica um país cada vez mais polarizado: de um lado, Álvaro Uribe, contrário ao acordo de paz, mostrou que está mais vivo do que nunca: não apenas foi o mais votado ao Congresso, com 870 mil votos, como seu partido deu uma virada de mesa, o que dá ainda mais força à seu afilhado político, Iván Duque, na corrida presidencial de maio. Na outra ponta, a Força Alternativa Revolucionária do Comum (Farc), partido nascido da ex-guerrilha, conquistou apenas 0,5% dos votos e, sem os dez assentos garantidos pelo acordo, não teria obtido uma cadeira sequer. Os números indicam ainda um crescimento de partidos independentes, como a Aliança Verde, e de nomes como Gustavo Petro, ex-guerrilheiro do Movimento 19 de abril (M-19) e ex-prefeito de Bogotá, que será candidato presidencial pela coalizão de esquerda, após obter 2,8 milhões de votos nas primárias.

CENTRO-ESQUERDA AVANÇA DIVIDIDA

Para Borja Paladini, representante do Instituto Kroc para Estudos Internacionais da Paz na Colômbia, o resultado mostra que grupos com visões mais polarizadas, tanto da direita quanto da esquerda, continuam ganhando espaço:

- Nenhum candidato sozinho poderá conseguir se eleger, terá que fazer alianças. O desafio agora é saber se os atores com pensamentos mais pragmáticos, de centro, como Sergio Fajardo ou Humberto de la Calle, conseguirão espaço nas presidenciais - disse ao GLOBO, durante um seminário organizado pelo Instituto de Relações Internacionais da PUCRio - A questão é: o país será capaz de enfrentar os problemas juntos ou seguirá brigando por suas visões opostas?

Katherine Aguirre, economista colombiana com experiência em áreas de violência e pesquisadora associada do Instituto Igarapé destaca que, além de mostrar a força política de Uribe - e consequentemente de seu candidato às presidenciais - o resultado revela uma centro-esquerda muito fragmentada. Ainda assim, foi o segmento que mais avançou:

- O resultado dá muita força ao candidato presidencial pelo Centro Democrático, porque mostra que a legenda tem um campo político importante e grande comparecimento às urnas. Duque, indicado por Uribe, poderia inclusive ganhar no primeiro turno - afirmou Aguirre ao GLOBO. - Por outro lado, enquanto vemos uma maior aceitação de legendas independentes, os números também indicam uma centroesquerda bastante dividida.

Enquanto os candidatos que apoiaram o "não" ao acordo de paz - representados por Centro Democrático, Mudança Radical e setores do Partido Conservador - alcançaram quase seis milhões de votos, somando134 das 280 cadeiras no Parlamento, facções que apoiaram o pacto obtiveram 34 assentos no Congresso. Elas estarão representadas, principalmente, por Movimento Progressistas (de Petro), Polo Democrático Alternativo, e Lista da Decência, que estreou nesta campanha, além da Aliança Verde.

A Farc, por sua vez, não conseguiu atender às expectativas nem mesmo em Caquetá, seu reduto histórico: esperavam cinco mil votos para o Senado na região e mal passaram de 1.600. Por isso, alguns analistas acreditam que um apoio da ex-guerrilha a Petro, por exemplo, poderia ser mais prejudicial que benéfica. Por outro lado, o resultado eleitoral do novo partido desmonta os temores infundados incutidos pela direita durante a campanha do "não" ao referendo, explica Aguirre.

- Era muito difícil prever qual seria o resultado da nova legenda. Mas, definitivamente, ele rompe o discurso da direita de que, caso o acordo fosse assinado, o país seria entregue à ex-guerrilha, ou que ela controlava as camadas populares.

Para Paladini, a boa notícia é que a exguerrilha participou do processo eleitoral:

- Ver antigos guerrilheiros votando é muito simbólico, porque mostra que trocar as balas por votos é possível. Mas sua fortaleza política ainda é muito fraca. Teremos que esperar pelas eleições locais, mais à frente, para testá-la novamente.

PARTIDO DE SANTOS SAI DERROTADO

Além da nova legenda, outro derrotado foi o partido do presidente Juan Manuel Santos - vencedor do Nobel da Paz, em 2016, e que ontem anunciou a retomada de negociações com o Exército de Libertação Nacional (ELN). Sua legenda, o Partido da Unidade, perdeu 19 cadeiras e sequer terá um candidato nas presidenciais de maio. O esperado crescimento do voto religioso também não se concretizou: a única candidata cristã que obteve um assento foi a pastora Claudia Castellanos, da Missão Carismática Internacional.

E, apesar da tradicional alta abstenção, de 53%, a participação melhorou: quase três milhões de eleitores a mais votaram nas legislativas, em relação às últimas eleições.

Sobe e desce

Álvaro Uribe. O ex-presidente saiu fortalecido da campanha contra o acordo de paz com as Farc e acabou sendo o mais votado ao Congresso, com 870 mil votos.

Iván Duque. Herdeiro de Uribe, o candidato presidencial pelo Centro Democrático, foi o mais votado nas primárias da legenda, e segundo analistas, pode inclusive vencer no primeiro turno, em maio.

Gustavo Petro. O ex-guerrilheiro do Movimento 19 de Abril (M-19) conseguiu 2,8 milhões de votos nas primárias da coalizão de esquerda, sendo o grande nome para tentar derrotar Duque nas presidenciais.

Farc. A Força Alternativa Revolucionária do Comum (Farc), partido nascido da ex-guerrilha, conseguiu apenas 0,5% dos votos. Nem em seu reduto histórico alcançou as expectativas, o que indica um longo caminho para se firmar como força política no país.

Juan Manuel Santos. Apesar dos apelos, o atual presidente colombiano não conseguiu mobilizar os eleitores da legenda, o Partido da Unidade, que perdeu 19 cadeiras no Congresso e não terá um candidato nas presidenciais de maio.

Grupos religiosos. Fortalecido após a forte campanha contrária no referendo de 2016, o crescimento das legendas religiosas não se concretizou. Só a pastora Claudia Castellanos conseguiu uma cadeira no Congresso.

Fonte: O GLOBO - RJ

Autor: MARINA GONÇALVES