Peso do lucro dos bancos no crédito chega a 14%

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Após três anos sem fazer um mapeamento anual do mercado de crédito nacional, o Banco Central (BC)  divulgou ontem o Relatório de Economia Bancária, com discurso muito semelhante ao do setor bancário. Durante a apresentação do documento, o diretor de Política Econômica do BC, Carlos Viana de Carvalho, afirmou que o lucro dos bancos não é o maior vilão do spread (diferença entre o custo de captação e a taxa cobrada de quem pega empréstimo). Para ele, o principal componente é a inadimplência, que teve um peso de 38,3% na formação do spread em 2017, e é crescente. Em 2015, esse percentual foi de 35,25%, de acordo com o relatório. No mesmo período, o peso do lucro dos bancos no spread bancário foi de 14,04%,

"A mensagem aqui é que a inadimplência é o componente com maior peso no ICC (Indicador de Custo do Crédito)", resumiu. O mesmo estudo, entretanto, mostra que a inadimplência vem caindo. Segundo ele, quanto maior for essa taxa, maiores serão os juros necessários para cobrirem a perda com os calotes. "O peso da inadimplência é elevado. Queremos que o custo do crédito caia, mas precisamos buscar uma queda sustentada desse custo. Uma queda temporária e efêmera não vai gerar benefícios para a sociedade, e, por isso, nosso foco na agenda BC+ caminha nessa direção", destacou

Ele defende maior concorrência. Outros itens com peso significativo no spread em 2017 foram despesas administrativas, de 25,5%, e tributos e Fundo Garantidor de Crédito (FGC), de 22,1%. Segundo Viana, a Selic "é apenas um componente do custo de captação" e, portanto, o impacto de sua redução nos últimos anos, apesar de expressivo, é pequeno nos juros cobrados pelo mercado.

O presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Murilo Portugal, elogiou a reavaliação dos principais componentes do spread bancário contidos no novo relatório do BC. Conforme ele, a análise anterior mostrava que os custos da intermediação financeira representavam 77% do spread e agora são 86%, sendo que a parte referente ao lucro representa 14,04%. "Para reduzir esse nível, um desejo de todos nós, precisamos reduzir custos de inadimplência e de operação e a carga tributária. Todos que entram no mercado para competir têm as mesmas condições. Só a competição não vai resolver esse problema", destacou.

De acordo com o relatório do BC, o mercado total de crédito cresceu 3,3% em 2017 sobre o ano anterior, para R$ 3,3 trilhões, dado inferior aos R$ 3,5 trilhões de 2015. O estudo mostrou ainda que tanto a inadimplência quanto o endividamento das famílias diminuíram entre 2016 e 2017. "A trajetória da inadimplência do segmento de pessoas físicas, que atingiu 3,5% em dezembro de 2017, foi a menor taxa desde o início da série histórica", informou o documento.

Metodologia
O estudo, com 138 páginas, faz um panorama do setor e revela, pela nova metodologia do BC,  uma redução do peso da rentabilidade dos bancos no spread, já que, no ano passado, foi de 14,04% ante 14,4%, de 2016 e 16,24%, de 2015. Essa diminuição, entretanto, está na contramão do lucro dos principais bancos nacionais, que é crescente e, entre 2016 e 2017, teve alta de quase 15%, somando R$ 57,6 bilhões.

"A metodologia antiga de cálculo do spread era ruim e essa nova continua ruim. Faltou transparência, porque o governo ainda não consegue mostrar de forma clara qual é o verdadeiro custo do crédito", avaliou o consultor Roberto Luis Troster, ex-economista-chefe da Febraban.

Setor é dominado por poucas instituições

O Relatório de Economia Bancária (REB) do Banco Central, divulgado ontem, mostrou que a concentração do mercado financeiro continua elevada no Brasil. De acordo com o estudo, apenas os cinco maiores bancos nacionais detêm 76,1% do crédito pessoal e são donos de mais de 80% dos ativos do setor. Duas instituições públicas dominam 39,8% do segmento de crédito pessoal, enquanto os três maiores bancos privados detêm outros 36,3%, totalizando 76,1% do bolo. 

Conforme um comparativo apontado pelo BC com base em dados do Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês), a participação das cinco maiores instituições bancárias nos ativos totais do setor teve um crescimento bem forte entre 2006 e 2016, passando de 60% para 82%. Essa taxa é mais alta que a de países emergentes, como China, Índia, México e Coreia do Sul, de 37%, 36%, 70% e 62%, respectivamente. 

O diretor de Política Econômica do BC, Carlos Viana de Carvalho, afirmou que a concentração não é a razão de os juros serem elevados. "Não existe uma evidência empírica embasada sobre isso. O ponto dessa ideia de que é preciso reduzir a questão do spread de forma estrutural. E isso não é uma solução fácil", disse ele, defendendo maior concorrência no mercado. 

O presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febabran), Murilo Portugal, reconheceu que o esforço para reduzir custos operacionais e ganhar eficiência depende dos bancos, e também do governo, do Legislativo e do Judiciário. Ele ainda lembrou que os bancos revisaram as projeções de crescimento econômico, indicando que a recuperação não ocorrerá na velocidade esperada. Isso devido ao "choque do petróleo e os juros nos Estados Unidos, que vão subir mais rápido do que se esperava. No Brasil, tivemos um choque grande com a greve dos caminhoneiros. Isso reduziu as expectativas de crescimento para este ano de 3% para 2%. Mas isso é o dobro do que crescemos no ano passado", disse (RH e AT)

Fonte: CORREIO BRAZILIENSE - DF

Autor: ROSANA HESSEL e ANTONIO TEMÓTEO