Para S&P, reforma não será aprovada este ano

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Apesar de o governo seguir apostando na aprovação da reforma da Previdência, em 19 de fevereiro, a agência de classificação de risco norte-americana Standard & Poor"s e agentes econômicos no Brasil duvidam que isso ocorra. E, para a diretora de ratings soberanos da S&P, Lisa Schineller, mesmo que a mudança no sistema de aposentadoria passe pelo Congresso, sozinha, não seria suficiente para equalizar o problema fiscal brasileiro. Ou seja, a nota do Brasil não mudará em 2018, permanecerá três níveis abaixo do grau de investimento, em BB-.

Segundo Lisa, ainda há muitos riscos fiscais envolvidos, como o descumprimento da regra de ouro, que não está totalmente descartado neste ano, mas que, na opinião de especialistas, será inevitável em 2019. "Outras medidas para melhorar o equilíbrio fiscal precisam ser implementadas", alertou.

Outra questão que dificulta a aprovação de reformas, de acordo com a diretora da agência, são as eleições presidenciais, que podem atrapalhar o processo de negociação com o Congresso, já que o cenário eleitoral "ainda está muito aberto". Ela lembrou que, em 2017, um ano em que as mudanças na Previdência poderiam ter avançado, houve vários adiamentos e, portanto, agora, será bem mais difícil, mesmo com a capacidade de articulação do presidente Michel Temer.

"O mercado não conta mais com a aprovação da reforma em 2018. O cenário mais provável é 2019", afirmou o economista-chefe do Banco Safra, Carlos Kawall. Segundo ele, esse downgrade já era esperado e estava precificado. "A S&P já tinha sinalizado que reduziria a nota de risco do país quando houve o adiamento da votação da reforma previdenciária para fevereiro", disse. Para o economista, agora, será uma questão de tempo para que as demais agências internacionais - Moody´s e Fitch Ratings - também coloquem o Brasil em três degraus abaixo do selo de bom pagador.

Na avaliação do diretor para as Américas da Eurasia Group, Christopher Garman, o rebaixamento do Brasil pela S&P terá muito pouca influência na votação da reforma da Previdência no Legislativo ou na potencial candidatura do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, à Presidência da República. "A decisão não vai mudar as discussões de curto prazo no Congresso sobre a reforma, muito menos afetar a decisão de Meirelles sobre a eleição", disse.

Explicações

Em entrevista sobre o rebaixamento, via internet, Lisa reiterou os itens da nota da S&P divulgada na véspera e reforçou que o "ritmo mais lento que o esperado" no avanço das reformas para solucionar os problemas fiscais do país foi determinante. "Acreditamos que será muito difícil aprovar (a reforma da Previdência) em um ano eleitoral", disse.

Pelas estimativas da S&P, o Brasil deverá crescer apenas 2,2% neste ano, taxa bem abaixo dos 3% previstos pelo ministro Meirelles. A agência prevê que a dívida pública bruta deve ultrapassar 80% do Produto Interno Bruto (PIB), neste ano - patamar bem acima da média dos países emergentes, de 48% do PIB. Apesar do avanço preocupante da dívida, Lisa não deixou de elogiar a política monetária que vem sendo conduzida pelo Banco Central. Segundo ela, o BC é um dos principais pontos positivos do cenário econômico do país, pois entregou uma inflação em 2017 abaixo do piso da meta, de 3%.  "Um dos pontos de credibilidade (do Brasil) é a política monetária", frisou.

A Standard & Poor"s foi a primeira agência internacional de risco a conceder o grau de investimento do Brasil, em 2007, após um longo processo de recuperação da confiança perdida, após a moratória na dívida externa nos anos 1980. No entanto, graças ao desequilíbrio fiscal provocado pelo governo a partir de 2011, o país retrocedeu, com a ideia equivocada da nova matriz econômica durante o governo da ex-presidente Dilma Roussef, e mergulhou na recessão em 2015, quando perdeu o grau de investimento.

Para Kawall, do Safra, o Brasil levará de cinco a 10 anos para recuperar o grau de investimento perdido em 2015. "Mas isso só ocorrerá se o governo fizer a lição de casa, agindo corretamente para o avanço da agenda de ajuste fiscal", afirmou. O economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, considerou precipitado o rebaixamento da S&P antes da votação da reforma da Previdência, porque o contexto fiscal não deverá ser alterado até lá. "O governo espera sensibilizar os parlamentares com o rebaixamento, mas o político não é sensível ao ambiente econômico, principalmente, se ele estiver mais favorável do que no ano passado, como as autoridades preveem. Parlamentar está interessado no que vai render voto", resumiu.

A economista Alessandra Ribeiro, sócia da Tendências Consultoria, lembrou que, apesar da antecipação no timing do rebaixamento, o que ajudou a evitar um pânico no mercado, como ocorreu em quedas anteriores, foi o cenário externo. "As condições no mercado lá fora estão mais favoráveis diante das expectativas melhores de crescimento global", explicou. Para ela, o imbróglio do governo em relação às discussões sobre possíveis mudanças na regra de ouro contribuiu bastante para essa antecipação. "O ambiente interno, ao contrário do externo, está cheio de incertezas devido às eleições, e o mercado sabe que apenas a reforma da Previdência não será suficiente para reverter as expectativas ruins para a área fiscal, apesar de os últimos dados de arrecadação terem vindo mais positivos. O problema é que a crise fiscal poderá ficar muito pior em 2019", alertou ela.


Fonte: CORREIO BRAZILIENSE - DF

Autor: ROSANA HESSEL