Ofertas de ações em 2018 vão financiar volta de investimentos

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Leandro Miranda, do Bradesco BBI: "Empresário está voltando a ficar otimista"
A consolidação de um cenário melhor para a economia e sem grandes sobressaltos na política deve levar as empresas a buscarem mais recursos na bolsa em 2018 para crescer, afirmam banqueiros de investimentos. Com a geração de caixa melhorando e a alavancagem financeira caindo, as ofertas de ações primárias - nas quais o dinheiro captado vai para o caixa da companhia - tendem a ser mais usadas para financiar projetos do que para pagar dívidas.

Até agora, a correção que se viu nos mercados globais nos últimos dias não alterou a disposição de empresas e bancos em estruturar operações. Embora haja mais volatilidade no curto prazo, os resultados das empresas estão melhores e a necessidade de capital continua valendo.

É uma mudança em relação ao ano passado, quando o dinheiro levantado em ofertas primárias de ações foi dividido em doses praticamente iguais entre investimentos na expansão dos negócios e melhorias na estrutura de capital.

O Valor mapeou o destino pretendido pelas companhias para os R$ 22,9 bilhões que colocaram no caixa com a realização de ofertas primárias em 2017. O levantamento constatou que R$ 10,9 bilhões foram para pagamento de dívidas e desalavancagem. Outros R$ 10,8 bilhões foram reservados para aquisições, crescimento das operações, pagamento de concessões ou desenvolvimento de novos negócios. Uma parcela pequena, pouco mais de R$ 1 bilhão, serviu para reforçar o capital de giro. Os números são um bom retrato da economia brasileira no ano passado, com sinais de recuperação da atividade, mas uma boa dose de ajustes ainda sendo feitos dentro de casa.

"Muitas companhias usaram caixa para pagar dívida e agora buscam dinheiro para crescer", diz Bruno Saraiva, diretor-executivo de mercado de capitais do Bank of America Merrill Lynch (BofA).

Quase todas as ofertas no horizonte para os próximos meses têm como grande motivador a busca de recursos para financiar planos de expansão ou de aquisições. Não que a gestão de passivos seja capítulo encerrado, mas a tendência é que não dê o tom das operações.

Os pedidos de IPO (sigla em inglês para oferta inicial de ações) já protocolados na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) dão uma ideia desse cenário. As varejistas de brinquedos Ri Happy e de artigos esportivos Centauro planejam captar para investir em suas redes de lojas, mas também querem usar parte do dinheiro para melhorar a estrutura de capital. A farmacêutica Blau, que não conseguiu concluir sua oferta na semana passada, pretende se reapresentar aos investidores mais adiante porque busca dinheiro para expandir as operações.

Embora grande parte das empresas esteja com capacidade ociosa, muitas querem se posicionar para um ciclo mais longo de crescimento da economia, afirma Leandro Miranda, responsável pelo banco de investimentos do Bradesco BBI. "A inadimplência está controlada, o consumo está aumentando e o empresário, que era a peça que faltava, está voltando a ficar solidamente positivo com o país."

Nos últimos anos, a crise e os escândalos relacionados à Lava-Jato atingiram em cheio as grandes companhias. Os bancos ficaram mais restritivos no crédito e os spreads subiram. Quando os sinais de melhora começaram a aparecer, algumas empresas passaram a recorrer à bolsa para reduzir o aperto financeiro e não para bancar investimentos.

"Captar em renda variável chegou a ficar mais barato do que em dívida, o que é uma idiossincrasia", ressalta o chefe de mercado de capitais do BTG Pactual, Fabio Nazari.

Com um início de ano muito aquecido, os bancos estão otimistas com as perspectivas para as ofertas, apesar da recente turbulência no mercado. As estimativas para o volume que pode ser captado na bolsa em 2018 vão de R$ 30 bilhões a mais de R$ 40 bilhões, em ofertas primárias e secundárias de empresas estreantes e já listadas.

Se o topo dessas projeções se confirmar, será um volume parecido com o do ano passado, quando as ofertas de ações movimentaram R$ 42,9 bilhões. A cifra engloba operações primárias e os R$ 20 bilhões levantados em ofertas secundárias, em que o dinheiro vai para o bolso do acionista.

A leitura dos banqueiros é que a recuperação brasileira e a liquidez internacional ajudam as empresas a olhar para frente e planejar investimentos, mesmo sendo um ano eleitoral. "Projetos são pensados para um horizonte mais longo. Quem não se posicionar para investir pode perder o "timing"", diz Roderick Greenlees, diretor do banco de investimentos do Itaú BBA, que coordenou o maior volume de operações no ano passado.

Ao mesmo tempo, é voz corrente na Faria Lima - avenida de São Paulo que concentra bancos de investimento e gestoras - que o próximo presidente não terá como fugir das reformas fiscais. Por isso, há uma aposta crescente em uma disputa eleitoral na qual prevaleça uma visão moderada sobre a economia, o que também ajuda a criar um clima favorável para as ofertas.

Confirmado esse cenário, os banqueiros também veem como provável um crescimento da parcela secundária das ofertas de ações. Alessandro Zema, responsável pelo banco de investimento do Morgan Stanley, observa que a melhora na geração de caixa reduz a necessidade de as empresas recorrerem a dinheiro dos acionistas.

A companhia de pagamentos PagSeguro, que captou US$ 2,6 bilhões na Bolsa de Nova York em janeiro, é um exemplo disso. Uma parcela de US$ 1,1 bilhão foi para o caixa da empresa e será usada para financiar a expansão do negócio. O restante foi para os acionistas que venderam ações na operação.

Fonte: VALOR ECONÔMICO -SP

Autor: Talita Moreira