O Irã alerta: "Não confiem"

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Enquanto governantes e observadores mundo afora avaliavam os resultados da inédita cúpula entre Donald Trump e Kim Jong-un, o regime islâmico do Irã alertou o líder norte-coreano "não confiar" no presidente dos Estados Unidos, que no mês passado cancelou o acordo nuclear firmado em 2015 entre Teerã e seis potências (inclusive os EUA). De acordo com o porta-voz Mohammad Bagher Nobakht, o presidente americano é capaz de anular "dentro da algumas horas" o acerto alcançado para promover a desnuclearização da Península Coreana. "Nós não sabemos com que tipo de pessoa (Kim) está negociando", afirmou Nobakht. "Não é seguro que ele não cancelará o acordo antes de voltar para casa."

O Irã vive um momento de incertezas desde a retirada dos EUA do acordo, que tem como signatários os demais membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (Reino Unido, França, Rússia e China) e a Alemanha. Todos criticam Washington e se dizem empenhados em manter em vigor os termos do tratado, pelo qual Teerã interrompeu o programa nuclear em troca da suspensão das sanções internacionais. Segundo a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), o compromisso vem sendo cumprido pela República Islâmica.

A França, cujo presidente, Emmanuel Macron, tentou exaustivamente demover Trump da ideia de romper o acordo nuclear com o Irã, considerou a cúpula de Cingapura "um passo significativo", mas lançou dúvidas sobre a rapidez do acerto entre Kim e Trump. "Duvido que tudo tenha sido alcançado em poucas horas", ponderou a ministra francesa para Relações Europeias, Nathalie Loiseau. "A reunião é em si significativa, mas ainda não sabemos nada sobre o documento assinado. Será analisado quando for divulgado."

Loiseau lamentou que Washington tenha "dois pesos e duas medidas", numa clara referência ao tratamento hostil dispensado a Teerã. A ministra ponderou que, enquanto o acordo de 2015 vem sendo cumprido sob verificação internacional, "assinar um documento com Kim Jong-un, que chegou tão longe para obter armas nucleares, significa recompensar alguém que esteve contra todos os tratados internacionais".

O secretário-geral das Nações Unidas, Antonio Guterres, classificou a cúpula entre os EUA e a Coreia do Norte como "um marco importante". Ele insistiu que se "aproveite a oportunidade trascendental" e ofereceu ajuda para o objetivo de desmantelar o programa nuclear de Pyongyang. A cúpula de Cingapura, disse Guterres, foi "um marco importante no avanço para a paz sustentável e a desnuclearização completa e verificável na Península Coreana".

O presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, disse que o "acordo de Sentosa de 12 de junho ficará registrado como um evento histórico que ajudou a derrubar o último legado que restava da Guerra Fria".

O governo da China, principal aliado da Coreia do Norte, celebrou a cúpula e renovou o apelo à "desnuclearização total" do vizinho. "O fato de que os principais dirigentes dos dois países se sentaram juntos para negociações de igual para igual tem um significado importante e constitui o começo de uma nova história", afirmou o chanceler Wang Yi. "A China celebra e dá seu apoio", declarou o ministro ao ser questionado se o país se sentia "marginalizado" pela aproximação entre Washington e Pyongyang. "É um objetivo que esperávamos e pelo qual trabalhamos", disse, defendendo  "desnuclearização total", tal como exigem os EUA.

A cúpula de Cingapura "foi um passo crucial e necessário", reforçou a chefe da diplomacia da União Europeia, Federica Mogherini. "O objetivo final, compartilhado por toda a comunidade internacional e expresso pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, continua sendo a desnuclearização completa, verificável e irreversível da Península Coreana", lembrou. A declaração conjunta assinada por Trump e Kim, afirmou, "dá um claro sinal de que esse objetivo pode ser atingido".

"Não é seguro que ele (Trump) não cancelará o acordo antes de voltar para casa"
Mohammad Bagher Nobakht, porta-voz do governo iraniano

Reações

Rússia
"O simples fato de que a reunião tenha acontecido já é positivo", celebrou o chanceler Sergei Lavrov. "Só podemos dar as boas-vindas ao fato de que se deu um importante passo em frente. Claro, o diabo está nos detalhes e temos de olhar concretamente para isso. Mas o impulso, pelo que entendemos, aconteceu", completou o vice-ministro Sergei Ryabkov.

Japão
A intenção de Kim Jong-un de "ver a desnuclearização completa da Península Coreana foi confirmada por escrito", comentou o premiê Shinzo Abe. "Eu apoio esse passo inicial em direção a uma resolução do conjunto dos assuntos que concernem à Coreia do Norte."

Israel
O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu saudou o presidente dos EUA e avaliou que sua política também dá frutos no impasse nuclear com Teerã. "O presidente Trump adotou uma posição ofensiva contra a tentativa do Irã de desenvolver a arma nuclear e contra sua agressividade no Oriente Médio. Isso já afeta a economia iraniana", afirmou.

Alemanha
O ministro das Relações Exteriores, Heiko Maas, viu a reunião de Cingapura como "um primeiro passo na direção certa". O processo, apontou, "tem de ser concluído com a desnuclearização total" da Coreia do Norte.

Reino Unido
O chanceler Boris Johnson classificou como "construtiva" a cúpula EUA-Coreia do Norte. "Pode ser que Kim Jong-un tenha entendido que só uma mudança de direção pode trazer um futuro próspero e mais seguro para os norte-coreanos", comentou. "Resta muito trabalho e esperamos que Kim continue as negociações de boa-fé para uma desnuclearização completa, verificável e irreversível."

Fonte: CORREIO BRAZILIENSE - DF