Nada de novo no front

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As acusações, ataques e agressões ficaram para trás e, com uma aparente harmonia, Donald Trump e Kim Jong-un firmaram ontem em Cingapura uma declaração que pode significar o começo de um processo de desnuclearização da Coreia do Norte em troca do fim das sanções ao país. O documento está longe de ser um acordo, pois, sem prazos, passos ou metas, é uma carta de intenções, carente de garantias de que a reunião histórica, de fato, reduzirá as tensões entre os dois países. Mas a boa vontade ficou explícita: Trump fez o anúncio-surpresa da suspensão dos exercícios militares realizados pelos americanos com a Coreia do Sul, e o ditador aceitou o convite para ir a Washington.

No papel, a controversa reunião - que durou cinco horas, e ocorreu após idas e vindas dos dois lados - não avançou muito em relação às promessas que Kim já havia feito ao presidente sul-coreano, Moon Jae-in, na Declaração de Panmunjom, assinada entre as duas Coreias no fim de abril. Embora a cúpula tenha sido comemorada por Trump como um "um evento muito importante na História mundial" no qual obteve o compromisso "inabalável" do ditador coreano - em quem ele disse "ter confiança" - o texto final do encontro é vago:

"O presidente Trump se comprometeu a fornecer garantias de segurança à Coreia do Norte, e o presidente Kim Jongun reafirmou o seu firme compromisso de completar a desnuclearização da Península da Coreia", afirmou o documento assinado pelos dois presidentes.

A maior novidade surgiu na entrevista coletiva que Trump deu em Cingapura: o anúncio da suspensão dos exercícios militares conjuntos com tropas dos EUA na Península Coreana. Estas atividades envolvem os quase 30 mil militares americanos baseados na Coreia do Sul e cerca de dez vezes mais sul-coreanos. Considerados fundamentais para uma resposta rápida e eficiente ao vizinho do Norte em caso de conflito, estes "jogos de guerra" - como disse Trump, repetindo o palavreado de Kim - desagradavam à ditadura nortecoreana há décadas e eram vistos com desconfiança por Pequim, que nunca estantes condeu que não aprova forças americanas perto de suas fronteiras. O anúncio de Trump pegou de surpresa os aliados de Seul e também o Pentágono, que nada sabiam da medida.

- Estaremos parando os jogos de guerra, o que nos poupará uma tremenda quantia de dinheiro, a menos e até que vejamos que a futura negociação não está indo como deveria - disse Trump - Além disso, acho (os exercícios) muito provocantes.

Na noite de ontem, Kim comemorou a suspensão dos testes militares. O ditador disse ser "urgente" que a Coreia do Norte e os Estados Unidos interrompam "ações militares hostis e irrientre si", segundo a agência estatal de notícias do país, a KCNA. Pyongyang, que tachou a cúpula de "guinada radical" nas relações entre os dois países, disse que a desnuclearização dependerá da cessação desse antagonismo entre os dois países. A KCNA também afirmou que Trump concordou em levantar as sanções contra a Coreia do Norte, mas não especificou quando. O governo americano não comentou a informação.

Diante das críticas de que cedera muito sem ter obtido nada em troca de Pyongyang, fontes americanas indicaram que este passo seria uma resposta ao fim dos testes de mísseis norte-coreanos e ao desmantelamento de instalações nucleares no país. Mas analistas afirmaram que Trump voltou da Ásia sem, sequer, um inventário do poderio bélico norte-coreano.

E muitos disseram que o encontro serviu para explicitar as incoerências do presidente americano, que há pouco mais de um mês anunciou a saída unilateral do acordo nuclear com o Irã. Firmado em 2015 com a participação de europeus, chineses e russos, o pacto submete Teerã - que não chegou a desenvolver armas nucleares, ao contrário da Coreia do Norte - à mais rigorosa checagem já feita a instalações atômicas no mundo. Com Kim, Trump sequer colocou na declaração os termos de um eventual acordo e se ele seria "verificável". O americano afirmou que "não houve tempo" para os detalhes.

- Fazer com que os dois líderes se engajem em um diálogo pode, por si só, ser importante, mas agora não é nada. Não há acordos. Comparado a outros grandes primeiros encontros, como o de Richard Nixon e Mao Tsé-tung, em 1972, pouco foi realizado - disse David Schultz, professor da Hamline University, em Minnesota. - Trump teve seu ego acariciado. Internamente, ele poderá reivindicar que suas ameaças levaram Kim à mesa de negociações.

DIREITOS HUMANOS FORA

Trump também disse que o tema dos direitos humanos "foi longamente debatido" na cúpula, embora não conste na declaração. Kim se mostrou mais comedido, embora na noite de ontem Pyongyang tenha informado que Kim aceitou o convite de Trump para uma visita a Washington, da mesma forma que Trump teria aceitado ir à Coreia do Norte.

Trump mostrou-se afável com Kim - diferentemente da cara fechada que exibiu aos aliados tradicionais, como europeus, canadenses e japoneses, que estavam no fim de semana na reunião do G-7 no Canadá.

- Certamente Trump afirmou a Kim que não desestabilizará seu regime. Isso não é pouco, e pode ser feito. Muitos dizem que o ditador poderia estar com medo de ter um fim igual ao de Muamar Kadafi (ditador líbio assassinado em 2011). Bom, depois do acordo de desnuclearização, não foram os EUA que o derrubaram, mas sim o povo líbio - disse ao GLOBO o professor E. Han Kim, especialista em Ásia da Universidade do Michigan. - Tudo está em aberto, mas o diálogo é melhor que as ameaças. Há alguma chance para a paz.

'DOIS HOMENS E UM DESTINO', DA TRUMP PRODUÇÕES
 
Quando o presidente Donald Trump se sentou para conversar com Kim Jong-un, numa cúpula histórica ontem, tinha uma surpresa: um vídeo, de pouco mais de quatro minutos, com versões em coreano e inglês, sobre "dois homens, dois líderes, um destino". Produzido pela Destiny Pictures, o trailer lembra mais um produto de Hollywood do que a linguagem cuidadosa da diplomacia, e foi um dos raros momentos inesperados numa reunião cuidadosamente planejada.
 
Em um ponto da gravação, vê-se uma montagem com bebês e fábricas de automóveis, sugerindo que um futuro mais próspero para a Coreia do Norte poderia nascer, caso Kim concordasse em destruir seu arsenal nuclear. "A História está sempre evoluindo, e chega um momento em que apenas alguns são chamados para fazer a diferença", diz o narrador. "Mas a questão é: que diferença os poucos farão? O passado não precisa ser o futuro. Fora da escuridão pode vir a luz, e a luz da esperança pode arder brilhante."

Trump disse que pediu que Kim e outras autoridades norte-coreanas assistissem ao vídeo antes do encontro, em um iPad.

- Eles têm ótimas praias. Você vê que sempre estão explodindo canhões no oceano. Eu disse: 'Olhe para isso, aqui se pode construir um ótimo condomínio'. Eu expliquei isso a ele, disse que ele poderia ter os melhores hotéis do mundo. Falei: 'Pense nisso do ponto de vista imobiliário' - contou Trump. - Acho que ele adorou.

PONTOS ACORDADOS
 
DESNUCLEARIZAÇÃO

A Coreia do Norte se compromete a trabalhar para concretizar a desnuclearização completa da Península Coreana, seguindo a determinação expressa da Declaração de Panmunjom de 27 de abril de 2018, assinada em conjunto com a Coreia do Sul.

RESTOS MORTAIS

Coreia do Norte se compromete a restituir os restos mortais de prisioneiros de guerra e desaparecidos em combate em seu território na Guerra da Coreia (1950-53). Cerca de 5.300 americanos estão nessa categoria. A medida inclui o repatriamento imediato dos já identificados.

PAZ DURADOURA

Outro importante tópico da Declaração de Panmunjom, o fim oficial da Guerra da Coreia, também foi lembrado na cúpula. Além de anunciar "o compromisso de estabelecer novas relações de acordo com o desejo dos povos dos dois países por paz e prosperidade", Trump e Kim se comprometeram a "construir um regime de paz duradouro e estável na Península Coreana".

EXERCÍCIOS MILITARES

Atendendo a uma das principais reivindicações de Pyongyang, Trump concordou em suspender os exercícios militares conjuntos com a Coreia do Sul, numa manobra que lhe rendeu críticas nos EUA. A concessão pegou a Coreia do Sul de surpresa.

LOCAL DE TESTES DE FOGUETES

De acordo com Trump, Kim se comprometeu a desativar um complexo usado para testes de foguetes. O nome e a localização do complexo não foram divulgados, mas especialistas creem que possa se tratar do complexo de Iha-ri, usado para lançamento de mísseis móveis; o centro de Magunpo, usado para testes de motores de foguetes, ou a instalação de Sohae, de lançamento de satélites.


Fonte: O GLOBO - RJ

Autor: HENRIQUE GOMES BATISTA