Jogo de empurra na Baía

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Três criminosos foram presos numa traineira na Praia Vermelha, com armas que haviam recuperado na mata no costão da Urca, deixadas por traficantes em fuga das favelas do Leme no fim de semana. O barco saiu da Vila dos Pinheiros, perto da Ilha do Fundão. Autoridades divergem sobre a quem cabe a segurança na Baía de Guanabara. A prisão de três criminosos numa traineira ancorada na Praia Vermelha, na Urca, na noite de anteontem, trouxe à tona a falta de segurança na Baía de Guanabara. Os bandidos tinham acabado de recuperar na mata fuzis e pistolas usados na guerra entre facções nos morros do Leme. Segundo a polícia, eles saíram da Vila dos Pinheiros, no Complexo da Maré, seguiram de barco pelo Canal do Cunha e passaram sob a Ponte Rio-Niterói até chegar perto do costão, onde esta semana sete corpos foram encontrados.

No trajeto, passaram ainda pelas imediações do Aeroporto Santos Dumont e pela Fortaleza de São João, do Exército, sem serem incomodados. Os criminosos só foram presos porque policiais civis da 27ª DP (Vicente de Carvalho), informados da tentativa de recuperar as armas, pediram o apoio de um barqueiro de Niterói, onde estavam, para ir atrás dos suspeitos e prendê-los.

Autoridades não se entendem sobre a quem cabe vigiar a Baía. Questionado sobre a atuação para reprimir esse tipo de crime, o Gabinete de Intervenção Federal (GIF) informou, por meio da assessoria de imprensa, que o patrulhamento é de responsabilidade de órgãos federais. Quando a intervenção foi decretada, em fevereiro, a equipe que assumiu o controle da segurança no Rio anunciou que a Marinha fiscalizaria a Baía, assim como a região do Porto, para controlar embarcações e contêineres.

Em nota, porém, a Marinha informou que a Capitania dos Portos atua no litoral do Rio apenas para fiscalizar o tráfego aquaviário e transferiu para os órgãos de segurança pública a tarefa de policiamento. "As atribuições e competências da autoridade marítima brasileira se referem, exclusivamente, à segurança da navegação, à salvaguarda da vida humana no mar e à prevenção de poluição ambiental, provocada por embarcações", diz o texto. A Marinha destacou ainda que "é de competência dos órgãos de segurança pública o combate ao tráfico de drogas, assim como a segurança das pessoas e dos bens patrimoniais nas orlas das praias".

"A BAÍA PASSOU A SER UMA ROTA ALTERNATIVA"

A Polícia Federal, por sua vez, afirmou que a responsabilidade pelo patrulhamento ostensivo dos 380 quilômetros quadrados da Baía é compartilhada. Por escrito, informou que "realiza patrulhamento preventivo por meio do Núcleo de Polícia Marítima da PF, entre outros órgãos, para inibir práticas ilegais e apoiar investigações criminais de suas delegacias, responsáveis pelo combate ao tráfico internacional de armas e de drogas".

E a Polícia Militar explicou apenas que o Grupamento Aeromóvel (GAM) deixou de ter o policiamento marítimo em sua estrutura desde 2012. "O GAM realiza exclusivamente atividades aéreas de segurança pública. O Comando de Policiamento Ambiental (Cpam) atua na Baía de Guanabara somente na parte ambiental", informou.

No ano passado, uma investigação do Grupo de Apoio e Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público, detectou que embarcações faziam o transporte de armas e drogas para comunidades que margeiam a Baía de Guanabara. Na época, os investigadores descobriram que traficantes de duas facções usavam barcos de pequeno porte para distribuir o material, principalmente para o Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, e o Morro do Dendê, na Ilha do Governador. O promotor de Justiça Alexander Araújo abriu inquérito, que segue sob sigilo.

- A rodovia ainda é a grande porta de entrada de armas e drogas no estado. Porém, como os fuzis são fabricados em outros países, eles chegam pelo mar, e a Baía passou a ser uma rota alternativa. É mais difícil interceptar o material ilícito por vias aquáticas porque, normalmente, o deslocamento é feito de madrugada. É necessário um patrulhamento constante e não é o que se vê - alertou o promotor. - A Baía tem localização estratégica para a redistribuição das armas e drogas pela proximidade com o porto, o aeroporto e a Linha Vermelha.

CINCO FUZIS, TRÊS PISTOLAS E SEIS GRANADAS

A operação coordenada pelos delegados Marcus Amim e Victor Tuttman, da 27ª DP, apreendeu dentro da traineira cinco fuzis, seis granadas, três pistolas de origem americana, grande quantidade de munição e carregadores de fuzil. Também foram encontradas roupas para camuflagem na mata. Um vídeo da operação policial mostra as armas dentro do barco, no fim da noite de segunda-feira, e o piloto da traineira afirma ter sido sequestrado pelos traficantes para ajudá-los a resgatar armas abandonadas.

Dois dos bandidos fizeram uma escalada de uma hora até a mata junto aos morros do Chapéu Mangueira e da Babilônia, no Leme, para resgatar o armamento que estava escondido desde o último fim de semana, quando houve confronto com a polícia. O armamento, que seria do Terceiro Comando, foi deixado para trás quando os criminosos da Vila dos Pinheiros, da mesma facção, fugiam do Morro da Babilônia, para onde se deslocaram em apoio à quadrilha local, que tentava impedir uma invasão do Comando Vermelho. Os três presos serão acusados de associação para o tráfico e porte ilegal de armas de uso restrito.

Para Marcus Amim, foi uma surpresa para a polícia encontrar esse tipo de armamento com os bandidos. Segundo ele, a Baía é uma rota para o tráfico de drogas e armas e é usada ainda por bandidos em fuga:

- O Rio é margeado pelo mar e tem muitas favelas. A Baía é grande e relativamente calma. Não precisa ser um exímio navegador para cruzá-la.

O delegado disse que a operação só foi bemsucedida porque a 27ª DP já investigava uma das facções que entrou em confronto no Leme.

- Com a coleta de dados de inteligência, ficou evidente que tal fato seria realizado na noite de ontem e que a rota escolhida seria a marítima - disse o delegado. - Já estávamos monitorando esses bandidos.

Para chegar à Urca, os policiais tiveram que improvisar.

- Estávamos em operação em Niterói, e fomos a um cais, onde requisitamos administrativamente uma embarcação e determinamos ao responsável por ela que a pilotasse - contou Amim.

Fonte: O GLOBO - RJ

Autor: GISELLE OUCHANA, GUSTAVO GOULART E LETÍCIA GASPARINI