Guerra mata 50% a mais de crianças sírias em 2017; número de feridos cai

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O número de crianças mortas no conflito sírio chegou a 910 no ano passado, um crescimento de 50% em relação a 2016. Neste período, a quantidade de feridos da mesma faixa etária caiu, o que indica bombardeios mais pesados sobre áreas civis. Outra explicação para o crescimento é o alistamento de soldados cada vez mais novos. A Unicef, que divulgou os dados ontem, considera como crianças os menores de 17 anos.

A organização da ONU que atua na área infantil usou dados do Observatório Sírio de Direitos Humanos (OSDH), ONG com sede em Londres. Segundo a ONG, o número de mortes em geral caiu no período, de 49,7 mil, em 2016, para 33,4 mil, no ano passado.

A previsão para 2018 é mais sombria para os mais jovens. Segundo a Unicef, há uma tendência de os conflitos serem "cada vez mais urbanos e em zonas com alta densidade de habitantes".

Apenas nos dois primeiros meses do ano, mil crianças foram mortas ou feridas na Síria.

O conflito também já se transformou no principal motivo de mortes entre adolescentes no país.

O OSDH destaca também que, em fevereiro, mais de 200 crianças morreram nos bombardeios do regime sírio e das forças aliadas na região de Ghouta Oriental, nos arredores de Damasco, que é controlada por rebeldes - 20% das vítimas no local seriam crianças.

A mesma entidade afirmou ontem que 511 mil pessoas morreram, desde 2011, na guerra civil da Síria - 350 mil vítimas já foram identificadas. De acordo com a ONG, 85% das mortes foram cometidas pelo regime de Bashar Assad e seus aliados. O governo sírio não se manifestou sobre os dados.

Risco total. No total, a Unicef acredita que 3,3 milhões de crianças estejam expostas a dispositivos explosivos por todo o país, o que representa um risco até para que elas saiam de casa.

Dos 6,1 milhões de sírios obrigados a deixar suas casas, 2,8 milhões são menores de 17 anos.

Só em 2017, 244 crianças foram presas e 961 recrutadas para lutar na guerra civil, um número três vezes superior ao de 2015. Um a cada quatro menores usados em combates na Síria tem menos de 15 anos.

"Saí para brincar na neve com meus primos. Caiu uma bomba. Vi as mãos do meu primo voarem diante de mim. Perdi minhas pernas. Dois de meus primos morreram e outro perdeu suas pernas", disse à Unicef o garoto Sami, uma das crianças em um campo de refugiados.

Segundo o diretor regional da Unicef, Geert Cappelaere, 360 crianças foram feridas no ano passado. Muitas perderam pernas ou braços. De acordo com ele, esses são os números que a ONU conseguiu confirmar.

A Unicef ainda cita como uma tendência cada vez mais clara dos grupos armados em focar seus ataques contra instalações civis. Apenas no ano passado, 175 escolas foram atacadas, "dizimando o sistema educacional da Síria".

A entidade da ONU menciona as conclusões da Comissão de Inquérito sobre a Síria, que apontam que, entre outubro e novembro de 2017, um "numero alarmante de escolas e creches" foi bombardeado, causando a morte de várias crianças.

Apenas no dia 8 de novembro, três escolas foram alvo de ataques aéreos.

Outra estratégia identificada pela comissão da ONU tem sido a destruição de hospitais, impossibilitando que feridos e crianças sejam socorridos. Em alguns locais de Ghouta Oriental, os médicos passaram a usar apenas o porão do hospital para fazer cirurgias e atender a pacientes, na esperança de evitar o impacto das bombas.

Retaliações. Médicos entrevistados pelos investigadores apontam que os ataques são represálias ao fato de eles estarem atendendo a população sob ataque. "Entre 14 e 17 de novembro, 84 pessoas morreram e outras 659 foram feridas. Na tarde do dia 20 de novembro, quando hospitais estavam lotados de feridos, bombas foram lançadas por forças do governo a partir de Al-Maliha", destaca o relatório.

Em um desses ataques, uma mulher e seus quatro filhos foram mortos. "Os bombardeios representam um crime de guerra, porque colocam como alvo intencional pessoas que deveriam estar protegidas", afirma o relatório da Unicef.

Perigo

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Fonte: O ESTADO DE S. PAULO - SP

Autor: Jamil Chade