Explicações não aceitas

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Mesmo tendo desmentido ontem que se referira a Haiti, El Salvador e nações africanas como "países de merda" numa reunião com parlamentares na noite de quinta-feira, Donald Trump gerou uma nova onda de protestos, que correram o mundo. O embaixador americano no Panamá, John Feeley, decidiu renunciar após o episódio, e a ONU classificou os termos de Trump, reiterados por deputados que participaram da reunião com o presidente, como um ato racista.

Para especialistas, a polêmica isola ainda mais os EUA, com grandes danos de imagem que podem reduzir sua influência. Mas o rechaço global não será suficiente para que Trump mude de postura:

- A renúncia do embaixador no Panamá mostra que há limites para as pessoas que atuam no governo Trump. O ele falou é uma barbaridade, amplia a desconfiança dos EUA nas relações internacionais e deteriora parcerias. Mas como vimos no caso da saída americana do acordo climático, a pressão internacional pouco importa: o que tem poder de influenciar o presidente é a pressão interna e de seu partido - disse Michael Shifter, presidente do Inter-American Dialogue.

CONGRESSISTAS PRESENTES CONFIRMAM OFENSA

Os correligionários de Trump não o perdoaram e parecem não ter acreditado no desmentido do presidente. Quebrando o silêncio, Paul Ryan, presidente da Câmara de Representantes, disse que a fala de Trump foi "muito infeliz" e "inútil".

- Sabe no que pensei imediatamente? Na minha própria família, que, como um monte de gente, veio da Irlanda no que eles chamavam de "navios-caixão" e trabalhou nas ferrovias - disse Ryan num evento em Milwaukee. - Mas eles construíram o país. Esta é uma bela história americana.

A deputada republicana Mia Love, de Utah, de origem haitiana, foi ainda mais contundente:

- Trump tem que pedir desculpas por comentários que são indecentes, divisivos, elitistas e ferem os valores da nossa nação.

Michael Steele, primeiro presidente negro do Comitê Nacional Republicano, disse que a evidência é "incontestável" e que Trump é um racista. A democrata Hillary Clinton, que perdeu a eleição para Trump em novembro de 2016, também atacou o presidente, afirmando que ele é um "ignorante" e "racista" em sua conta de Twitter.

Mais cedo, numa série de tuítes, Trump reafirmou a defesa de uma imigração com base num sistema de mérito e negou que tenha usado a expressão "países de merda" para se referir a Haiti, El Salvador e a países africanos. Toda a polêmica ocorreu numa reunião para salvar o Daca - programa que protege 800 mil imigrantes ilegais chegados aos EUA ainda crianças ou adolescentes, revogado pelo presidente. Há um prazo até março para encontrar uma solução para estas pessoas, dentro de um acordo que prevê a construção do muro na fronteira com o México e regras ainda mais duras de imigração. Mas Trump rejeitou o plano bipartidário proposto por senadores, dizendo que o projeto não financiava adequadamente o muro.

"A expressão usada por mim na reunião sobre o Daca foi dura, mas essa não foi a expressão usada. O que foi realmente duro foi a estranha proposta feita - um grande passo para trás para o Daca!", afirmou Trump na rede social.

Entretanto, diversos congressistas presentes à reunião confirmaram que Trump insultou os países, sugerindo ainda que os EUA deveriam trazer mais imigrantes de nações como a Noruega.

- Por que estamos com todas essas pessoas destes países de merda vindo aqui? - teria questionado Trump (usando a palavra shithole). - Por que queremos pessoas do Haiti aqui? A reação global foi imediata: - Se for confirmado, são comentários chocantes e vergonhosos por parte do presidente dos Estados Unidos. Perdão, mas não existe outra palavra além de "racistas" - declarou o porta-voz do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, Rupert Colville, em entrevista coletiva em Genebra.

Em Adis Abeba, na Etiópia, a União Africana condenou as declarações do mandatário, classificando-as de "perturbadoras". Ebba Kalondo, porta-voz da entidade, foi enérgica:

- Essas declarações são ainda mais ofensivas dado o número de africanos que chegaram aos Estados Unidos como escravos.

O Haiti considerou, em comunicado, inaceitáveis as declarações:

"O governo haitiano condena com a maior firmeza essas declarações desagradáveis e abjetas que, se provadas, serão inaceitáveis em todos os sentidos porque refletem uma visão simplista e racista completamente equivocada", disse.

O incidente ocorreu dois dias após o presidente anunciar o fim do programa que permite a permanência de 200 mil salvadorenhos afetados por terremotos em 2001. Agora, eles precisarão deixar o país até setembro de 2019, ou ajustar suas condições legais. Antes de El Salvador, Haiti e Nicarágua já haviam perdido os mesmos direitos. Em dezembro, o "New York Times" afirmou que Trump é acusado de insinuar que os imigrantes haitianos "todos têm Aids" e que os nigerianos "deveriam voltar para suas cabanas".


Fonte: O GLOBO - RJ