Direita em vantagem

Fonte:





A vitória da direita nas eleições legislativas da Colômbia, no domingo, fortaleceu o discurso contra o acordo de paz entre o governo e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), celebrado em 2016, e traz incertezas sobre o futuro do processo que desarmou a mais poderosa guerrilha da América Latina, encerrando meio século de conflito. Os ex-combatentes, agora como membros do partido político Força Alternativa Revolucionária do Comum (Farc), anunciaram que seus cinco senadores e cinco deputados se dedicarão às fases seguintes de implementação do acordo, que incluem a aplicação do sistema de Justiça de transição - guerrilheiros e militares acusados de crimes graves poderão receber penas alternativas à prisão, caso confessem os delitos, indenizem as vítimas e se comprometam a nunca mais cometer atos violentos.

"O nosso grupo de cinco senadores e cinco deputados concentrará a ação parlamentar sobre as reformas pendentes do processo de implementação dos acordos, bem como sobre a apresentação e o processamento de projetos legislativos que contribuam para gerar melhores condições de vida e de existência para a grande maioria", diz a nota divulgada ontem pelo partido. Ao agradecer o apoio dos eleitores, a legenda anunciou que espera "continuar com determinação o novo estágio da luta que realizamos, com a assinatura do acordo final, e realizar os propósitos programáticos que orientam nossa ação política". O comunicado informa ainda sobre a intenção do partido de "contribuir na formação de um bloco parlamentar de ampla convergência que responda aos requisitos do momento que o país atravessa".  Antes da estreia eleitoral, a antiga guerrilha tinha garantidos, pelo acordo, 10 assentos entre os  280 do parlamento. Ao tentar ampliar o número de cadeiras, não obteve nem os votos que, sob outras condições, seriam necessários para conseguir a bancada previamente assegurada. A Farc teve apenas 85 mil votos, correspondentes a 0,5% do eleitorado, como previam as pesquisas.

Campeão de votos
A coalizão de direita Centro Democrático, liderada pelo ex-presidente Álvaro Uribe, elegeu 19 dos 102 senadores e 32 deputados - tinha 19. Embora sem maioria nas duas casas, tornou-se a primeira força no Senado e a segunda na Câmara. Uribe, um dos críticos mais severos do acordo de paz, foi o senador mais votado do país, com mais de 866 mil votos.

As eleições de domingo serviram também para a definição dos candidatos às eleições presidenciais de maio. O Centro Democrático será representado pelo senador Iván Duque, e o escolhido pela frente de esquerda Polo Democrático Alternativo foi Gustavo Petro, ex-guerrilheiro do grupo rebelde M-19, favorável ao acordo de paz. A Farc desistiu da campanha presidencial depois que seu candidato, Rodrigo Lodoño, passou por uma cirurgia cardíaca.

Para Juliano da Silva Cortinhas, do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), a direita colombiana terá dificuldades em eventuais tentativas de prejudicar a implementação do acordo de paz. "Eles podem até tentar alguma manobra, algum retrocesso, uma desaceleração, mas a questão é que as diretrizes da implementação foram aprovadas pelo parlamento, inclusive com algumas alterações em relação ao texto original. Além disso, a direita terá de negociar, já que não conta com maioria em nenhuma das duas casas do parlamento", observa. O professor destaca que, nas pesquisas sobre a disputa presidencial, Gustavo Petro  aparece como favorito. Na sua opinião, caso vença o pleito, ele poderá contribuir fortemente para a preservação dos termos do processo de implementação do acordo.

"Eles (a direita) podem até tentar alguma manobra, mas as diretrizes da implementação (do acordo de paz) foram aprovadas pelo parlamento"
Juliano da Silva Cortinhas, professor de relações internacionais da UnB

Negociação de paz retomada
Depois de dois meses de intervalo, o presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, anunciou ontem a retomada dos diálogos de paz com o Exército da Libertação Nacional (ELN), a última guerrilha ativa no país. As conversas foram suspensas em 10 de janeiro por causa de uma intensificação do conflito. Santos renovou a aposta nas negociações apesar da derrota que sofreu nas eleições legislativas de domingo para a direita, que rejeita a sua política de paz. "Dei instruções ao chefe da equipe negociadora, Gustavo Bell, para que viaje a Quito e reative a mesa de diálogo. Minha esperança é fazer o maior progresso possível na agenda", assinalou o chefe de Estado, em um comunicado.

Fonte: CORREIO BRAZILIENSE - DF

Autor: JORGE VASCONCELLOS