Dia de pavor no Leme

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O Leme viveu um dia de pânico por causa da guerra entre facções rivais nos morros da Babilônia e do Chapéu Mangueira, que deixou dois mortos. Os tiros começaram por volta de 5h da manhã, quando traficantes armados com fuzis chegaram pela Avenida Princesa Isabel e invadiram o Morro da Babilônia. O Bope subiu a favela, e as ruas do bairro ficaram desertas. No fim da tarde, houve novo tiroteio, desta vez no Chapéu Mangueira. Segundo a PM, os mortos eram bandidos que estavam armados com um fuzil e uma pistola. O bairro vem sofrendo com tiroteios desde março.

 

Os moradores do Leme passaram todo o dia de ontem em pânico com intensos tiroteios provocados por uma guerra entre facções rivais nos morros da Babilônia e do Chapéu Mangueira. Os confrontos começaram no fim da madrugada, quando traficantes fortemente armados com fuzis, alguns encapuzados, chegaram correndo pela Avenida Princesa Isabel e invadiram o Morro da Babilônia. Horas depois, o Batalhão de Operações Especiais (Bope), da PM, subiu a favela em busca dos criminosos, enquanto os moradores se trancavam em casa ou corriam para buscar seus filhos mais cedo na escola. As ruas logo ficaram desertas.

No fim da tarde, novo tiroteio irrompeu, desta vez no Morro Chapéu Mangueira, bem próximo ao da Babilônia. Professores e alunos se refugiaram numa escola pública da região, e muitos moradores adiaram a volta para casa após o trabalho. Dois homens foram retirados da Babilônia gravemente feridos, e morreram antes de chegar ao Hospital Miguel Couto. Segundo a PM, eles eram traficantes e estavam armados com um fuzil e uma pistola 9mm. Policiais cercaram os acessos aos dois morros e revistaram todos que entravam e saíam, enquanto o Bope e equipes da UPP vasculhavam a mata à procura dos bandidos.

 "VIROU UMA GUERRA"
O jornalista Antônio Kämpffe, que mora há 55 anos no Leme, disse que nunca viu uma situação de violência tão grande no bairro: - Foi tiro o dia inteiro. Acordei às 5h da manhã com meu cachorro latindo por causa dos tiros. E não parou mais. Virou uma guerra.

Segundo moradores, há cerca de dois meses, o Terceiro Comando, que controlava o Morro Chapéu Mangueira, expulsou o Comando Vermelho da vizinha Babilônia. Ontem, integrantes do CV dos morros Pavão-Pavãozinho e Cantagalo, em Copacabana, e o grupo expulso da Babilônia voltaram para retomar as duas comunidades do Leme. A guerra já provocou este ano intensos tiroteios na região: foram quatro em abril, quatro em maio, um em março e dois neste início de junho.

- É inadmissível a polícia, que conhece todas as rotas de fuga, pela mata, nada fazer. E a prefeitura também não atua com seus guardas e nem pede que o estado aja com rigor. Pagamos impostos altos ao município. Sabemos que a segurança é com o governo do estado. Mas a prefeitura também poderia intervir. Os moradores do Leme estão ao Deus-dará - disse Kämpffe.

Segundo uma moradora do bairro, o primeiro confronto durou cerca de uma hora. Além dos disparos de vários tipos de armas, houve relato de explosões de bombas e rojões. Às 5h30m, os barulhos de tiros diminuíram, mas não pararam. - Foi um dos piores tiroteios que já ouvi desde que moro aqui - contou ela, que vive no bairro há cerca de quatro anos.

Enquanto policiais do Bope faziam a incursão na mata nos fundos de Babilônia e Chapéu Mangueira, traficantes fugiam para tentar se esconder. Um deles foi flagrado pelo GLOBO ao deixar uma casa no Chapéu Mangueira e correr por cima de telhados até uma pequena construção de alvenaria inacabada. Lá, o homem, que estava de meias, de calça camuflada e sem camisa, pegou uma mochila e um fuzil, e correu de volta para seu esconderijo usando novamente os telhados de residências. Pouco depois, outro homem, armado com uma pistola, apareceu próximo à construção de alvenaria.

Moradores disseram que, ao todo, 40 bandidos seguiram pela Avenida Princesa Isabel até o acesso ao Babilônia pelo Túnel Novo. O alvoroço acordou a comunidade e quem vive em ruas próximas. - Eles gritavam que eram o bonde e que todo mundo ia morrer. Estava saindo para o trabalho, mas voltei atrás e fiquei esperando quietinha em casa - comentou uma moradora.

Muitos vizinhos dela, mesmo já tendo tido experiências com tiroteios, se apavoraram. - Meu sentimento foi de pânico. Meu filho de 11anos não queria ir para a escola. Com medo das balas perdidas, tivemos de mudar a rota da van escolar. Ela passa em frente ao prédio onde eu moro, na Rua Gustavo Sampaio, mas combinei com as mães de embarcarmos nossos filhos na Praia do Leme. Foi a logística da insegurança - relatou uma arquiteta, contando que, no edifício onde ela mora, quatro apartamentos já foram atingidos por balas perdidas.

- Quando os tiroteios começam, todo mundo se joga no chão ou vai para um quarto nos fundos do apartamento. É apavorante, mas faz parte da rotina - comentou outro morador. À noite, o clima ainda era de terror para quem mora no Morro da Babilônia. As ruas estavam vazias no interior da favela, e o comércio estava fechado. Segundo policiais do Bope, traficantes de duas facções rivais continuavam escondidos em lados opostos da mata.

Num dos principais acessos à Babilônia, pela Rua General Ribeiro da Costa, havia apenas a movimentação de quem chegava do trabalho: - É o pior momento que a gente vive aqui nas últimas décadas. Infelizmente, deixaram chegar a essa situação. Estou chegando do trabalho e já tenho uma noção de como vai ser a noite. Infelizmente, não tenho para onde ir - disse um motorista, que vive no morro há 26 anos.

A comerciante espanhola Raquel Martins, de 29 anos, que mora na comunidade desde 2010, deixou seus dois filhos, um bebê de 7 meses e uma criança de 3 anos, dentro de casa com uma vizinha, para trabalhar. - A gente aqui meio que se acostuma com essa violência, mas não posso expor meus filhos ao perigo. Meu filho não foi à aula e eu ainda não consegui vaga numa creche para o bebê. Mesmo assim, a Creche Dona Marcela, que fica no Chapéu Mangueira, não abriu as portas hoje - contou Raquel. 

IMÓVEIS DESVALORIZADOS
No asfalto, o corretor de imóveis Fredy Dodelis aguardava uma cliente para visitar um apartamento na Rua General Ribeiro da Costa, mas ressaltou a dificuldade de vender imóveis na região. - Em Copacabana e no Leme, as pessoas não querem mais comprar imóveis em ruas próximas a comunidades. Os imóveis estão desvalorizados, e nem assim encontramos clientes.

A presidente da Associação Viva Leme, Déa Maria de Faro Orlando, falou sobre o clima entre os moradores do bairro: - Quem não tinha que trabalhar ou ir a um compromisso mais sério preferiu não ir à rua. As pessoas estão muito assustadas com a violência. Eu, que moro na Avenida Atlântica, escutei tiros e bombas como se estivessem muito perto. Para ela, o governo precisa resolver a guerra: - Estamos em contato com a polícia e acredito que vá haver uma solução.

Já a Associação de Moradores do Leme (AmaLeme) não quis se posicionar. Segundo um ex-diretor, toda a diretoria renunciou há algum tempo. - Somos muito visados. Nossa sede fica no pé das duas comunidades. Não podemos nos pronunciar. Caso contrário, é morte na certa. A única coisa que posso dizer é que há um descontrole total - disse, sem se identificar.


Fonte: O GLOBO - RJ

Autor: GUSTAVO GOULART, GISELLE OUCHANA E SELMA SCHMIDT