Corte de Trump na diplomacia é contestado

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O bordão "América em primeiro lugar" apareceu com força no Orçamento dos EUA.

O presidente Donald Trump pretende cortar em 28,5% a verba para o Departamento de Estado para o ano fiscal de 2019, segundo a proposta apresentada nesta segunda (12) ao Congresso.

Braço da diplomacia e da ação americana no exterior, o departamento tem perdido prestígio e influência sob a administração do republicano, que adotou a "América em primeiro lugar" como bandeira. Por outro lado, aumentou os recursos do Departamento de Defesa, que concentra investimentos militares, e de Segurança Interna.

No Departamento de Estado, nenhuma área foi poupada: os cortes nos programas variam entre 15% e 30%, na comparação com o ano passado. A maior parte deles está na ajuda humanitária e de desenvolvimento a outros países, das quais foram cortados US$ 11,4 bilhões.

Alguns exemplos: são US$ 500 milhões a menos para assistência a desastres internacionais. Outros US$ 2 bilhões cortados em programas de apoio à saúde global. A verba para o financiamento de projetos de infraestrutura na América Latina foi extinta, e os recursos para a diplomacia, reduzidos em quase US$ 5 bilhões, ou 28,5%.

O Departamento de Estado justificou a medida dizendo que a dotação anterior, de US$ 55 bilhões anuais, não era sustentável a longo prazo, e que é preciso "priorizar o uso eficiente dos recursos dos contribuintes", segundo o secretário Rex Tillerson.

Mas o anúncio provocou a crítica de especialistas, inclusive das Forças Armadas.

Um grupo de reservistas que pediu ao Congresso a continuidade dos investimentos em diplomacia afirma que as despesas com ajuda humanitária e desenvolvimento são fundamentais para manter a segurança e a liderança dos EUA, no mundo e devem seguir lado a lado do investimento em defesa.

América Latina

A leitura é compartilhada por outros especialistas, que veem no Departamento de Estado uma possibilidade de conter problemas regionais.

"No caso da América Latina, temos a migração, o tráfico de drogas, as gangues", afirma a colombiana Andrea Saldarriaga Jiménez, diretora para a América Latina do Atlantic Council, sediado em Washington.

"É preciso enfrentar essas raízes. E isso não se faz por meio de um relacionamento estritamente militar."

A retirada americana, por outro lado, abriria caminho para a influência de outras potências mundiais, como a China --que tem aumentado os investimentos no exterior, em especial na América Latina. "É uma mexida no xadrez geopolítico", afirma Jiménez.

A proposta orçamentária de Trump é vista como uma "mudança de rumos" pelo pesquisador Thomas Hill, que trabalhou no Departamento de Estado por quase dez anos, durante os governos do republicano George W. Bush e do democrata Barack Obama.

"É uma mensagem de que a defesa pode resolver qualquer problema; um reflexo da política da América em primeiro lugar --que, para mim, é uma forma muito estreita de ver o mundo", diz Hill, especialista em relações internacionais da Brookings Institution.

Em outras palavras, a proposta de Trump joga por terra a ideia de "soft power", o poder de influência e persuasão exercido por um país e jpa abalado desde a chegada de Trump ao poder, em detrimento do "hard power", o poder "duro", ou militar.

Questões como crescimento econômico regional, infraestrutura, comércio, desafios à democracia e relacionamentos bilaterais não seriam adequadamente enfrentadas com uma leitura militar ou com a simples omissão americana, afirma ele.

A proposta de Trump, porém, não necessariamente será acatada pelo Congresso, ao qual cabe o voto final sobre o orçamento.

No ano passado, o presidente já impusera um corte semelhante ao Departamento de Estado, que foi ignorado pelos deputados.

Neste ano, a reação dos deputados --inclusive de republicanos --indica que a situação deve se repetir.

O Departamento de Estado argumenta que os valores sugeridos pelo presidente são "suficientes para promover a paz e a segurança e responder às crises globais".

Fonte: FOLHA DE S. PAULO - SP