Bombardeio de coalizão na Síria matou russos, afirma imprensa



Kremlin e Casa Branca evitam comentar mortes de possíveis agentes privados -

MOSCOU- Cidadãos russos, possivelmente mercenários (funcionários de empresas privadas de segurança), teriam sido mortos em um bombardeio da coalizão liderada pelos EUA na Síria, segundo meios de comunicação da Rússia e o "New York Times". O número de mortos mencionado pela imprensa iria de quatro a "dezenas".

O episódio pode inflamar ainda mais as relações entre Moscou e Washington, mas ontem os dois lados evitaram dar declarações mais intensas sobre o ataque, realizado na quarta-feira da semana passada. Na ocasião, foi divulgado que cem milicianos ligados ao governo sírio haviam morrido no bombardeio, lançado em represália a um ataque a posições das Forças Democráticas da Síria (FDS).

As FDS, lideradas por milicianos curdos, têm apoio dos EUA e combatem o Estado Islâmico (EI) nas áreas próximas às fronteiras da Síria com a Turquia e o Iraque. O confronto com forças ligadas ao presidente sírio, Bashar al-Assad, no início do mês envolveria uma disputa pelo controle dos campos de petróleo da província de Deir ez-Zor, retomados do EI no ano passado.

O porta-voz do presidente Vladimir Putin, Dmitry Peskov, não comentou as informações e negou que o assunto tenha sido abordado em um telefonema na segunda-feira entre o líder russo e o presidente dos EUA, Donald Trump.

Segundo a imprensa russa, os mercenários integravam as forças aliadas ao governo de Assad que avançavam sobre os campos de petróleo em Deir ez-Zor, no Leste do país. Os jornais de Moscou citaram ativistas que teriam confirmado a morte de pelo menos quatro cidadãos russos.

- Só lidamos com informações que dizem respeito a integrantes das forças russas - disse Peskov. - Não temos dados sobre outros russos que possam estar na Síria. 

MOSCOU NÃO RECONHECE PRESENÇA DE MERCENÁRIOS

 O uso de funcionários de segurança privados é usual nas guerras travadas pelas principais potências. Os EUA usam mercenários no Iraque e no Afeganistão e, segundo o "New York Times", a Rússia teria centenas ou até milhares de mercenários na Síria, embora nunca o tenha admitido publicamente. O uso de mercenários evita o desgaste político da morte de soldados, e haverá eleições presidenciais na Rússia em 18 de março, nas quais Putin é o favorito para conquistar mais um mandato.

Os militares russos e americanos têm mantido contato para evitar confrontos diretos no caótico campo de batalha sírio, no qual potências globais e regionais - como a Turquia, o Irã, o Qatar e Israel - intervieram direta ou indiretamente. A relação entre Rússia e EUA está deteriorada por causa do conflito na Ucrânia, da anexação da Crimeia por Moscou em 2014, e da suposta interferência russa na campanha presidencial dos EUA em 2016.

Sem mencionar o bombardeio americano, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, afirmou ontem que "os americanos tomaram medidas unilaterais perigosas" que ameaçam a integridade territorial da Síria.

- Essas medidas parecem ser parte de esforços para criar um quase-Estado numa grande porção do território sírio, da margem oriental do Rio Eufrates até a fronteira com o Iraque - disse, referindo-se à região controlada pelas FDS.

O político liberal Grigory Yavlinsky, que será candidato à eleição presidencial de 18 de março na Rússia, pediu a Putin que fale abertamente sobre as mortes de russos na Síria, definindo o silêncio oficial como "inaceitável".

- Se muitos cidadãos russos foram mortos, as autoridades, incluindo o comandante em chefe, devem informar a nação sobre isso e determinar quem é o responsável - ressaltou.

A Rússia engajou-se na campanha militar na Síria em setembro de 2015 e contribuiu para que Assad retomasse grande parte do território perdido durante o conflito iniciado em 2011, mas ainda há diferentes grupos, como forças fundamentalistas ligadas à al-Qaeda, que controlam áreas do país.

Fonte: O GLOBO - RJ