BC não pode baixar a guarda no câmbio, dizem analistas

Fonte:




Em dois dias, BC vende US$ 5,5 bilhões, mas dólar fica estável

O endurecimento de tom do Banco Central em relação à espiral de alta do dólar parece ter surtido efeito, já que a moeda americana se afastou da máxima perto de R$ 4, alcançada na semana passada, e tem se estabilizado em torno de R$ 3,70. Porém, apesar de ter obtido algum sucesso no esforço para domar a volatilidade do mercado, analistas destacam a importância de o BC manter a porta aberta para ofertas de mais liquidez, especialmente com o mundo caminhando para reduzir mais a disponibilidade de dinheiro barato, movimento que pega o Brasil em meio à instabilidade pré-eleição.

Os pregões desta semana deram uma boa ideia de como o mercado de câmbio segue sensível. Na segunda-feira, o dólar fechou em alta de 0,45% mesmo depois de o BC ter feito uma venda de US$ 2,5 bilhões em swaps cambiais. Em seu formato original, os swaps são contratos cuja colocação equivale a uma venda de dólares no mercado futuro.

Ontem, o BC ensaiou reduzir os lotes desse derivativo, mas acabou vendo o dólar caminhar para a segunda alta consecutiva. Depois de ter vendido "apenas" US$ 1,5 bilhão em swaps num primeiro leilão, a autoridade monetária decidiu realizar uma segunda operação no fim da manhã, colocando também US$ 1,5 bilhão. Com US$ 3 bilhões a mais no sistema, o dólar finalmente cedeu, indo às mínimas em duas semanas, na casa de R$ 3,67 (1,44%). Mas, ainda assim, a moeda teve fôlego para recuperar porção relevante da queda até o fim do pregão. No fechamento, reduziu a baixa para somente 0,31%, a R$ 3,7128.

A leitura é que o BC pode estar "guardando munição" para esta quarta-feira, quando o Federal Reserve (Fed, o BC americano) provavelmente subirá, de novo, a taxa de juros. A expectativa é que o Fed também trace um quadro positivo para a economia americana - o que seria entendido como sinal de mais altas de juros nos próximos meses. E tal indicação daria ainda mais força ao dólar em todo o mundo.

"O BC não pode baixar a guarda. Tentou [ontem], mas viu que não funcionou", diz Jaime Ferreira, diretor de câmbio da Intercam. Para ele, o BC agiu "corretamente" ao deixar claro para o mercado que não utilizaria taxa de juros para reverter a pressão sobre o câmbio. "Mas, se é assim, então o BC tem que atuar sem constrangimento com os instrumentos para o câmbio. E hoje esse instrumento é o swap", completa.

Nos últimos dias, o presidente da instituição, Ilan Goldfajn, tem afirmado e reiterado que a autarquia poderá se utilizar de todas as ferramentas de que dispõe para intervir no câmbio. Além dos swaps, Ilan citou operações de oferta de liquidez via linhas e também de venda direta de moeda no mercado - esta última não ocorre desde 2009.

Rafael Biral, diretor da mesa de clientes do Standard Chartered Bank no Brasil, diz que, se o BC não tivesse dado um recado mais forte na semana passada, o dólar poderia ter se aproximado de R$ 4,20. Na máxima da semana passada, a cotação foi a R$ 3,9674.

"Foi uma pressão descabida no câmbio. E exigiu que o BC desse uma mensagem mais forte. [...] Mas também não acho que o BC deveria ter entrado antes. Ele entrou quando o mercado começou a perder parâmetro", afirma o executivo do Standard Chartered.

Desde que retomou as vendas líquidas de swap, em 14 de maio, o BC já colocou no mercado cambial um total de US$ 23,367 bilhões. Com isso, o estoque desses contratos já praticamente dobrou, saindo de US$ 23,798 bilhões para US$ 47,164 bilhões - maior valor desde 12 de agosto de 2016 (US$ 47,850 bilhões).

E caso venda até sexta-feira todos os swaps prometidos ao mercado na semana passada, o BC terminará o período de 24 dias úteis colocando quase US$ 39 bilhões no sistema, um recorde.

Mas um ponto que começa a despertar dúvidas é se o BC fará toda a oferta de liquidez prometida. Entre sexta-feira da semana passada e o próximo dia 15, também sexta, o BC havia se comprometido a vender um total de US$ 24,5 bilhões em swaps. Contudo, tem feito colocações abaixo da média diária necessária para alcançar esse montante até o fim desta semana.

"Acho que o BC deveria pelo menos fazer as ofertas, deixar o mercado decidir se quer ou não os swaps", afirma Joaquim Kokudai, gestor da JPP Capital.

Já Rafael Biral, do Standard Chartered, acredita que, ainda que o BC não oferte toda a quantia anunciada, é mais provável que o mercado "não vá para cima" da autoridade monetária, uma vez que a instituição já indicou que não permitirá movimentos excessivos no câmbio. "O BC mostrou a que veio", diz.

Se o BC tem atuado no câmbio, na renda fixa o Tesouro Nacional tem liderado as intervenções. Ontem, o Tesouro realizou operações de recompra pela 11 sessão consecutiva, o que caracteriza a atuação atual como a mais duradoura desde 2015. Os juros futuros, no entanto, seguem ariscos. O DI para janeiro de 2021 subiu 14 pontos-base, a 9,77%. De São Paulo

Fonte: VALOR ECONÔMICO -SP

Autor: José de Castro, Lucas Hirata e Daniela Meibak