Barbárie diante do cartão-postal

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Bombeiros resgataram ontem sete corpos nas proximidades da Praia Vermelha, na Urca: segundo a polícia, eles são de traficantes que participaram, nos últimos dias, de confrontos nos morros da Babilônia e do Chapéu Mangueira, no Leme. Os mortos foram localizados por um grupo de parentes que percorreu duas horas de trilha até chegar a uma área de mata conhecida como Pedra do Anel. Eles acusam a PM de execução. A Polícia Civil abriu investigação.

O céu estava azul e o mar, cristalino. Mas o ensolarado domingo de outono no Rio foi mais um dia assustador para muitos cariocas e turistas, devido à violência. Seis corpos foram encontrados ontem pela manhã nos arredores do Pão de Açúcar, na área conhecida como Pedra do Anel, na Praia Vermelha, na Urca; e bombeiros recolheram um sétimo perto do Forte Duque de Caxias, no Leme. São, de acordo com a polícia, de traficantes que estavam desaparecidos desde sexta-feira, quando confrontos entre bandidos e PMs nos morros da Babilônia e do Chapéu Mangueira espalharam medo em parte da Zona Sul.

Parentes disseram que os seis mortos encontrados na Pedra do Anel foram jogados encosta abaixo após serem executados por policiais militares que participaram dos confrontos. Os corpos foram identificados por um grupo que saiu a pé do Chapéu Mangueira e chegou ao local após duas horas de trilha. Eles indicaram a bombeiros onde estavam os cadáveres.

Um traficante que conseguiu fugir disse que os policiais do Batalhão de Choque entraram pela mata da Vila Militar, na sexta-feira, por volta das 15h, e surpreenderam os rapazes, relatou uma parente de Ernâni de Souza Francisco, o Boldinho, de 22 anos, um dos encontrados nas pedras.  Houve uma intensa troca de tiros, e eles se renderam. Os PMs botaram todos de joelhos e atiraram.

Questionada sobre a acusação, a PM informou que a investigação do caso está a cargo da Polícia Civil.

Além de Boldinho, foram resgatados da Pedra do Anel os corpos de Natã Isaque Souza Santos; Ângelo Martins dos Santos Nogueira, o Foca; e de traficantes identificados apenas como Da Coreia, HB e Tipac. Ainda está desaparecido um criminoso conhecido como Da Missão. Numa mata perto do Forte Duque de Caxias, foi encontrado o corpo de Franklin Miranda, o Tinaia.

Os corpos foram levados para o Instituto Médico-Legal, no Centro. Parentes dos mortos prestaram depoimentos na Delegacia de Homicídios da capital, na Barra, responsável pela investigação.

Segundo agentes que apuram o caso, os homens encontrados mortos haviam saído da Vila dos Pinheiros, no Complexo da Maré, dominada pelo Terceiro Comendo Puro (TCP), e estavam nas favelas do Leme para tentar conter uma invasão do Comando Vermelho (CV). Como não conheciam bem a região, eles teriam se perdido enquanto fugiam de policiais pela área de mata.

VÍTIMAS USAVAM ROUPAS CAMUFLADAS

Os agentes da DH fizeram a perícia nos corpos e constataram que cinco deles estavam vestidos com roupas camufladas, próprias para serem usadas na mata, e usavam capas de coletes à prova de bala.

Apesar de a Pedra do Anel ficar perto do Forte do Leme e de outras instalações das Forças Armadas, o Comando Militar do Leste (CML) ressaltou que o lugar não é de jurisdição do Exército e, por isso, não se manifestaria sobre o assunto.

A Praia Vermelha é pública, e a mata não está sob nossa jurisdição, afirmou o porta-voz do CML, coronel Carlos Cinelli.

Para a socióloga Maria Isabel Couto, da Fundação Getulio Vargas, independentemente de quem tenha cometido o crime ou morrido, o caso demonstra a gravidade da situação do Rio. Ela teme como as investigações serão realizadas.

No Brasil, falta investigação na maior parte dos casos de militares envolvidos em suspeitas de execução. Com a intervenção no Rio, quem investiga casos com suposta participação deles? questiona a socióloga. O discurso de "bandido bom é bandido morto" deve ser combatido.

Já o especialista em segurança Vinícius Cavalcante faz uma ressalva sobre a atuação da polícia:

Nós estamos vivendo o enfrentamento de uma guerrilha, e bandidos a fazem de uma forma intuitiva, talvez mais letal à sociedade. Eles estão criando para as forças de segurança um verdadeiro pesadelo. Precisamos de uma legislação criminal mais dura.

Segundo um morador do Leme, os traficantes que participam da guerra nos morros do bairro têm entrado e saído das comunidades pelos escombros do Teatro Villa-Lobos, na Avenida Princesa Isabel.


Fonte: O GLOBO - RJ