Ausência de Lula estimula projeto de Temer em tentar a reeleição



Temer: presidente pensa que baixíssima aprovação se deve a suspeitas de corrupção, que quer combater em campanha
Num cenário em que ninguém mais se destaca quando o nome do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é retirado das pesquisas, o Palácio do Planalto voltou a jogar suas fichas na reeleição. "Todo mundo é índio", diz um assessor presidencial referindo-se às pesquisas posteriores à condenação de Lula em segunda instância, o que praticamente o retira da disputa eleitoral de 2018. À exceção do deputado Jair Bolsonaro, provável candidato pelo PSL, os demais pré-candidatos trafegam na faixa constrangedora de um dígito.

Nos arredores do Jaburu ninguém duvida de que o presidente Michel Temer é "candidatíssimo". O presidente incentiva o ministro Henrique Meirelles [Fazenda] para demonstrar que o governo tem condições de apresentar um candidato. No mínimo, Temer espera influir nas eleições. Mas um aliado importante, daqueles que chamam o presidente de Michel, não tem nenhuma dificuldade para afirmar: "A candidatura de Michel não existe. Ele é candidatíssimo".

O diagnóstico sobre a fragilidade de uma candidatura governista é divergente. No Planalto afirma-se que Temer foi vítima de uma "campanha de destruição moral sem precedentes na política brasileira", e que essa seria a razão principal da popularidade rés do chão do presidente. A prioridade do presidente, a partir de agora, é tentar reduzir o imenso passivo ético do governo.

No MDB há diagnósticos diferentes. Emedebistas históricos registram que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva está há três anos no noticiário acusado de corrupção, responde a sete outros processos na Justiça, além daquele no qual foi condenado, e no entanto lidera com folgas as pesquisas de opinião.

Lula, no entanto, é um líder popular, carismático, que dispõe de uma base social sólida construída ao longo de anos - é a resposta queremista. E Temer talvez seja o único dos nomes até agora pesquisados que está construindo uma narrativa capaz de sustentar um projeto presidencial. O que ele precisa, no momento, é apagar ou pelo menos atenuar a mancha da corrupção.

Esse é o objetivo da atual ofensiva presidencial para tentar reverter a imagem de que Temer é o chefe de um governo essencialmente corrupto. O presidente tem um bom portfólio para mostrar na economia, mas segundos seus conselheiros os juros e a inflação em baixa ainda não foram o bastante para melhorar a popularidade do presidente, porque a questão moral puxa para baixo seus índices nas pesquisas.

Além disso, os bons resultados econômicos ainda não foram efetivamente sentidos pelas classes C, D e E. Não foi por acaso que o governo pediu para o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) investigar a formação de cartel no varejo da gasolina, diesel e gás de cozinha. Os preços que atingem mais diretamente a população já estão na agenda eleitoral.

Também pré-candidato a presidente pelo Democratas (DEM), o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (RJ), foi um dos que chamou a atenção para o preço da gasolina na bomba. "A decisão correta de caminhar para o preço internacional [do petróleo] gerou impacto na vida das pessoas", disse Maia numa reunião recente com aliados. "Mas o botijão de gás é importante no orçamento da vida da maior parte das pessoas no país". Não se trata de mudar a fórmula, no entendimento de Maia. "Em algum corte da sociedade, que seja o bolsa-família, tem que se compensar os mais carentes".

O plano de voo de Temer rumo à reeleição é conhecido de seu partido, mas o PMDB voltou a ser MDB e manteve antigos hábitos: está na canoa de Temer, mas considera outras opções. No limite, pode até ter um candidato próprio e liberar as seções locais para apoiar quem for mais conveniente para cada diretório. Em 2002, por exemplo, o PMDB fez coligação com o PSDB, mas os favoritos nos Estados acabaram mesmo nos braços de Lula. Inclusive o ex-presidente José Sarney, hoje um dos principais conselheiros do presidente.

Sarney embala o sonho continuísta com uma reflexão que traz de seus tempos de presidente (1985-1990): qualquer governo no Brasil, mesmo mal avaliado, tem condições de dar entre 17% e 20% dos votos ao candidato que apoiar. Precisa de empenho e destreza na execução do projeto. Mesmo os mais críticos do governo afirmam que habilidade na articulação é o que não falta aos profissionais da política que cercam Temer.

Atualmente o presidente conta com 7% de aprovação, mas 47% dos pesquisados, quando perguntados, dizem que querem que ele vá até o fim do governo. Outro dado que anima o Palácio: não há ninguém na rua nem batendo panela, nem pedindo a saída do presidente. Se conseguir vencer as restrições éticas, o entendimento do círculo mais próximo do é que ele passará também a se beneficiar das boas notícias proporcionadas pela economia.

Um candidato a presidente com 16%, 17% pode ir para o segundo turno, se for grande o número de candidaturas, a exemplo de 1989. Não é muito para quem tem em mãos a Presidência. E se Sarney estiver certo em seus prognósticos.

Se o plano fracassar, o MDB [inclusive Temer] considera um leque de alternativas. Se o governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSDB) fizer o dever de casa e "compreender o que o Lula compreendeu do que é o MDB, que são as realidades locais", pode ser que haja alguma possibilidade de entendimento, diz um cacique regional com experiência na igreja emedebista. Mas Alckmin precisa se mexer nas pesquisas Ou será abandonado como foi José Serra em 2002.

Fora disto ou o PMDB vai para uma candidatura que ainda não está no radar, podendo ser o ministro Henrique Meirelles, o governador do Espírito Santo, Paulo Hartung, ou eventualmente um empresário. Ou ainda agregar-se ao movimento do Centrão da Câmara para eleger presidente o deputado Rodrigo Maia. O deputado só não quer ser confundido com a naftalina que exala do Planalto, mas aceitará de bom grado um empurrão da máquina governamental.

O apresentador de televisão Luciano Huck seria um contrassenso no MDB - um candidato do novo num partido continuísta. Emedebistas entendem que o prefeito João Doria queimou na largada e ficou mal ao passar uma imagem de deslealdade com Geraldo Alckmin, seu padrinho político. Além disso, demonstrou um certo menosprezo com o governo de uma das maiores cidades do mundo. Mas "voltou para casa [a Prefeitura de São Paulo]" e voltou a ser visto sim como uma opção dentro do MDB.

Fonte: VALOR ECONÔMICO -SP

Autor: Raymundo Costa