Aos 6 meses, já na estatística

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Um olho vigiava o caçula, grudado ao colo. O outro, o filho do meio, que jogava futebol com os amigos, logo depois da aula, numa das quadras da escola, pertinho de casa. De repente, sem que qualquer barulho de disparo antecipasse a tragédia que estava por vir numa segunda-feira que parecia com tantas outras, a mãe viu seu bebê de 6 meses sangrar. Tinha sido atingido por um tiro dentro do Colégio São Vicente de Paulo, um dos mais tradicionais da cidade, no Cosme Velho. Ontem, poucas horas antes de o menino ser operado em uma clínica na Lagoa para retirar a bala, que entrou pelo ombro e se alojou perto da medula, o pai postou um desabafo numa rede social, demonstrando perplexidade. "Não existe lugar seguro no Rio de Janeiro... Nem na escola nem no aconchegante colo da mãe nossos filhos estão livres do perigo".

A revolta do pai tem sido também a de muitas outras famílias. Um levantamento do site Fogo Cruzado mostra que, do início do ano até as 22h de ontem, 522 pessoas foram baleadas na cidade. Isso significa que, a cada seis horas, em média, um pessoa é ferida por disparo de arma de fogo no Rio. A violência não distingue endereço nem horário, tampouco poupa os indefesos. Na capital do estado, sete tinham menos que 11 anos. Na Região Metropolitana, o número é ainda mais dramático: 15 crianças entraram para a estatística.

ADOLESCENTE É MORTA NA ILHA

No fim da noite de ontem, uma adolescente de 17 anos, inicialmente identificada por PMs como Soraia Macedo, acabou se tornando a mais recente vítima da violência carioca. Ela levou um tiro na cabeça ao reagir a uma tentativa de assalto em frente ao Colégio Estadual Professora Maria de Lurdes de Oliveira Tia Lavor, no Jardim Carioca, na Ilha do Governador. Testemunhas disseram que a jovem se recusou a entregar um celular a dois bandidos que estavam numa moto. Ela chegou a ser levada ao Hospital Municipal Evandro Freire, mas não resistiu ao ferimento.

Mais cedo, na porta do Colégio São Vicente de Paulo, o clima era de medo entre pais, funcionários e estudantes.

- Hoje foi um dia de muita tensão, as crianças só falam sobre o bebê baleado, estão impressionadas. É uma tragédia, a bala poderia ter parado na cabeça de qualquer um - afirmou Priscila Vital, mãe de um aluno.

Segundo a polícia, não havia confrontos em comunidades próximas da escola na hora em que o menino foi atingido. O comandante do 2º BPM (Botafogo), tenente-coronel Carlos Henrique Martins Gonçalves, disse que o tiro pode ter sido disparado a esmo do Morro do Fallet, em Santa Teresa, ou de algum imóvel vizinho ao colégio.

- O São Vicente fica próximo à Rua Marechal Pires Ferreira. A escadaria que tem no local dá para o Túnel Velho, que sai no Fallet. Eu acredito que o disparo pode ter partido de lá - disse o comandante, para, em seguida, acenar com outras possibilidades. - Como pegou no ombro, veio do alto. Pode ter sido um idoso no Cosme Velho limpando a arma, que deu um disparo para o alto? Pode.

Para tentar identificar a trajetória da bala, policiais civis estiveram no São Vicente para realizar uma perícia preliminar na quadra, que permanece aberta aos alunos. Como não encontraram vestígios suficientes para o exame, resolveram que farão uma reprodução assistida, em data a ser definida.

Em comunicado enviado aos pais, o colégio se disse "abruptamente inserido no mapa da violência que assola o Estado do Rio de Janeiro", e frisou ser necessário não se deixar levar pelo "desespero e falta de esperança". À noite, a direção médica do grupo Prontobaby, do qual faz parte o hospital onde o bebê foi operado, informou que o bebê baleado no Cosme Velho passou por uma cirurgia de duas horas. Médicos retiraram um projétil inteiro, que entrou pelo ombro e estava alojado perto da medula. Segundo a equipe, a criança não deverá ter sequelas.

Enquanto a família do bebê comemorava seu "renascimento", em outro lado da cidade Fábio Antônio da Silva era a imagem do sofrimento. Ele é pai de Benjamin, o menino de 1 ano e 7 meses que morreu ao ser atingido por um tiro na cabeça numa das entradas da Favela Nova Brasília, quando a mãe comprava algodão doce- crime que ontem completou dois meses.

- De que vale a polícia atirar contra criminosos num lugar cheio de gente, imaginando que vai solucionar o problema da violência no Rio? O que eu mais queria não posso ter de volta, que é o meu filho. Mas eu quero justiça - disse Fábio, que esteve no Ministério Público para tentar obter notícias sobre a investigação.

A violência também deixou órfão um menino de 12 anos que era criado pelo avô, o vendedor de legumes Francisco Nunes de França, morto na segunda-feira por uma bala perdida na Rocinha. "Você sempre foi mais do que um avô para mim, foi o pai que eu nunca tive", escreveu numa rede social.

BALA PERDIDA EM CENÁRIO DE CARTÃO-POSTAL

Sem fazer vítimas, uma bala perdida atingiu um apartamento em Botafogo, na segunda-feira. O projétil, segundo um especialista, é de fuzil e teria sido disparado do Morro da Babilônia, no Leme, e atravessado toda a Enseada de Botafogo, beirando um dos principais cartões-postais do Rio, o Pão de Açúcar, até perfurar uma vidraça do imóvel.

- Jamais imaginei que um tiro pudesse atingir o meu apartamento. Achei que fosse assistir apenas na televisão este tipo de coisa - disse o dono do imóvel, o advogado Carlos Augusto Thomaz, um gaúcho que mora no Rio há sete anos. - Cheguei aqui quando os cariocas tinham uma sensação de segurança bem alta com as UPPs. Agora, a situação mudou a ponto de ter uma bala aqui dentro.

'A RESPONSABILIDADE PELA SEGURANÇA É DE TODOS'
 
O pai do bebê atingido por um tiro no Cosme Velho fez ontem um desabafo numa rede social. A seguir, a íntegra do texto:

"Tristeza é o sentimento que me assola nesse momento, tristeza pelo que nossa sociedade está passando, tristeza por não ter nenhuma perspectiva que as coisas melhorem no curto, médio e longo prazo, tristeza por acreditar que não existe lugar seguro no Rio de Janeiro. Nem na escola nem no aconchegante colo da mãe nossos filhos estão livres do perigo. Realmente é um momento de muita tristeza, incerteza e reflexão... Passei a minha vida inteira ignorando a violência, como uma boa parte da sociedade faz, passei a minha vida inteira não me privando de ir aos lugares, mas, infelizmente, e de uma maneira atordoante, minha família virou mais um dado estatístico para o momento que assola o Rio de Janeiro.

A responsabilidade pela segurança é de todos, não só dos governantes, mas de cada um de nós que escolheu essa cidade como lar.

Ainda estamos sem acreditar que isso está acontecendo com a gente, principalmente com nosso bebê de 6 meses.

Agradeço as inúmeras manifestações de solidariedade, mensagens carinhosas e amorosas de todos os amigos, amigos dos amigos, conhecidos, colegas de trabalho e desconhecidos, enfrentar isso com o apoio de vocês está sendo menos traumático para minha família.

Agradeço para o anjinho da guarda dele que o protegeu dessa violência sem precedentes, Ele está bem e não corre risco.

Continuem mandando muitas vibrações e energia positiva, pois ele veio ao mundo para desafiar as estatísticas. Ele é muito amado e logo logo voltará ao convívio de todos nós."

ABSURDO
 
UM BEBÊ ferido por uma bala perdida dentro do Colégio São Vicente de Paulo, no Cosme Velho, na noite de segunda-feira, é mais um caso que se soma ao prontuário de horror do Rio.

A CRIANÇA foi atingida quando estava no colo da mãe, que aguardava um outro filho terminar as atividades na quadra do colégio. A polícia ainda não sabe de onde partiu o tiro.

AINDA QUE se descubra a autoria do disparo, não há explicação que atenue o absurdo do fato.

Fonte: O GLOBO - RJ

Autor: GISELLE OUCHANA, GUSTAVO GOULART, RAYANDERSON GUERRA E RENAN RODRIGUES