Ao viajar ao exterior, Bolsonaro segue tradição que vai de Jânio a Lula

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No início do mês, Jair Bolsonaro fez uma turnê por Japão, Coréia do Sul e Taiwan.

Oficialmente, o giro teve como propósito conhecer políticas bem-sucedidas de educação e tecnologia.

Entretanto, a viagem faz parte de uma estratégia que começou a se construir há pelo menos dois anos.

Bolsonaro não é o primeiro candidato que se dedica ao corpo a corpo internacional. Trata-se de prática relativamente corriqueira em alguns países latino-americanos, como Peru, Haiti e Guatemala.

A razão é comum: a busca de votos, ou de apoio político, entre as diásporas nacionais.

Mais recentemente, presidenciáveis norte-americanos também passaram a viajar, mas com outro propósito: demonstrar credenciais de política externa. Foi o caso da turnê de John Mc Cain por Colômbia e México e da viagem de Barack Obama a Berlim, considerada um de seus marcos de campanha.

No Brasil, a prática é antiga. Aqui, por uma terceira motivação: a construção de identidades políticas. Em tempos de crise e esgotamento das alternativas caseiras, candidatos saem para o mundo em busca de referenciais externos e de sua validação interna.

A estratégia, se bem sucedida, pode ser capaz de reorganizar o conflito político a partir de categorias importadas. Foi o caso de Jânio Quadros, quando visitou Cuba, no primeiro aniversário da revolução, para relativizar seu udenismo. Com sua aura de não-alinhado, conseguiu romper a polarização entre varguistas e lacerdistas.

Em 1989, os três principais concorrentes ao Planalto internacionalizaram suas campanhas, motivados pelas incertezas da redemocratização e pela iminência do fim da Guerra Fria.

Collor foi buscar suas referências na social-democracia de Felipe González e no neo-liberalismo de Margaret Thatcher. Lula viajou aos EUA para conhecer o novo sindicalismo norte-americano. Na Suécia, Brizola elegeu-se vice-presidente da Internacional Socialista de Willy Brandt e Mário Soares.

Após quase três décadas, Bolsonaro recupera a prática, buscando moldar sua identidade diante de um país em rápida transformação.

Em 2016, foi a Israel. Há alguns meses, viajou aos EUA e converteu-se liberal. Tudo devidamente registrado em vídeo e disseminado pelas redes sociais, onde reside a maior força do candidato.

A tumê asiática de Bolsonaro acrescenta novas camadas a essa estratégia. Voltando às diásporas, não se pode ignorar o potencial eleitoral dos quase 200 mil de casséguis no Japão -e que mantêm ligações com o Brasil.

Em Taiwan, o pré-candidato também aproveitou para lançar sua plataforma de política externa: "Nossas viagens pelo mundo -por Israel, EUA, Japão, Coreia e agora Taiwan- bem demonstram de quem nós queremos nos aproximar".

Sem considerar as possíveis implicações políticas e comerciais destas escolhas, que têm potencial de irritar parceiros importantes no mundo árabe, além da China, nosso principal sócio comercial, Bolsonaro tenta vender uma imagem de estadista. Apesar de superficial, basta para grande parte do eleitorado.

Mesmo sendo difícil aferir o valor de uma campanha no exterior, as experiências mostram que a estratégia pode render frutos. Por instinto ou cálculo deliberado, Bolsonaro sai na dianteira numa corrida em terreno movediço, em que os adversários permanecem indefinidos e as regras ainda não estão claras. Lá fora, as eleições já começaram.

Fonte: FOLHA DE S. PAULO - SP

Autor: GUILHERME CASARÕES