90 dias sem respostas

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Três meses e ainda não houve quem respondesse quem matou a vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes na noite de 14 de março. O silêncio das autoridades públicas do Rio de Janeiro se opõe ao grito de amigos e parentes das vítimas que cobram incessantemente pela decifração do crime. Até agora, ninguém foi responsabilizado pelos 13 tiros que atingiram o carro onde estavam Marielle e Anderson. O mandante do crime é desconhecido.

Ontem, parentes de Marielle e Anderson se reuniram com o advogado João Tancredo, que representam as famílias no caso. Tancredo atuou também no caso Amarildo de Souza - ajudante de pedreiro levado morto por policiais militares em 2013. Ele critica a falta de respostas das autoridades públicas e acusa o governo do Rio de Janeiro de omissão. "Nada de concreto se tem até agora. O que existe são especulações. Temos de certeza é que o crime tem um alto nível profissional e foi muito eficiente. Estamos com dúvida sobre o sucesso da investigação", reclama.

Os desdobramentos da investigação têm preocupado as famílias. "Tem esforço pessoal de agentes, mas não vejo esforço do estado do Rio de Janeiro para concluir a investigação. Falta responsabilidade do Estado." Para ele, o leque das investigações deve ser ampliado. "É uma angústia por esperança. A família precisa saber a autoria e a motivação do crime."

O hiato nas respostas sobre quem matou e por que matou Marielle coincidiu com a semana do Dia dos Namorados. A viúva da vereadora, a arquiteta Monica Benício, gravou um vídeo em que fala do relacionamento de 14 anos entre as duas. A arquiteta cobrou celeridade nas investigações. "O apoio tem sido muito grande, e é isso que ajuda a manter a luta e faz com que eu levante de manhã e que dá algum sentido, é saber que existe toda essa rede de afeto", diz trecho do vídeo.

A Anistia Internacional quer que o Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública (Gaesp) e do Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público do Rio de Janeiro participem das investigações. Uma petição conta com mais de 55 mil assinaturas de pessoas do Brasil, Argentina, Portugal, Espanha e Suécia. "Para garantir a competência e independência na apuração do caso, o Ministério Público deve exercer o poder de investigação e cumprir seu papel de controle externo das atividades policiais através de seus grupos especializados", defende Jurema Werneck, diretora-executiva da entidade.

O Correio enviou nove questionamentos ao Gabinete Federal de Intervenção, Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro e para as polícias Civil e Militar do estado, mas nenhum dos órgãos respondeu. Todos informaram que o crime continua em investigação pela Divisão de Homicídios, "sob sigilo". Entre segunda-feira e a madrugada de ontem os investigadores fizeram uma reconstituição do crime. Eles dispararam seis rajadas de armas diferentes. Um laudo com as conclusões do caso deve ficar pronto em até 30 dias.

Repercussão

O deputado federal Jean Wyllys (PSOL) também divulgou uma carta em que critica a fragilidade das investigações e disseminação de fake news (notícias falsas) sobre Marielle. "Quem a matou? Quem ordenou a sua morte? E quais eram as suas razões? Não sabemos. Há 90 dias aguardamos uma resposta", escreveu. Ele conclui. "Marielle e Anderson foram assassinados em meio a uma intervenção militar na segurança do estado do Rio de Janeiro que até agora não apresentou qualquer resultado", pondera.

Como Marielle denunciava a violência policial contra os moradores de favelas, a atuação da parlamentar atrapalharia os negócios da milícia na Zona Oeste do Rio de Janeiro. O ex-PM Orlando Oliveira de Araújo, conhecido como Orlando Curucica, e Thiago Bruno Mendonça, conhecido como Thiago Macaco, são investigados suspeitos de participação na execução. Eles teriam ligação com a milícia. Orlando e Thiago estão presos por envolvimento em outros assassinatos e negam participação no crime.

"Causa preocupação que um crime de repercussão internacional tenha uma investigação sem respostas. Desde o primeiro momento, defendo a tese de que o nome do Orlando é ventilado como suspeito para dar uma resposta, mas na verdade, são 90 dias sem nenhum fato concreto apresentado pela investigação. O Orlando é citado por uma testemunha, mas até o momento nada foi comprovado", critica o advogado de defesa de Orlando, Renato Darlan.

Quebra-cabeças

O que se sabe do assassinato de Marielle e Anderson

» Marielle participa por volta das 19h, na Lapa, Rio, de um debate com jovens negras em 14 de março

» Por volta das 21h, Marielle deixa o local. Um veículo emparelha com o carro de Marielle e faz 13 disparos

» A munição pertencia a lote vendido para a PF de Brasília em 2006. A polícia recuperou nove cápsulas

» Parte das balas também foi utilizada numa chacina em São Paulo, em 2015

» Cinco das 11 câmeras de trânsito da prefeitura que estavam no trajeto de Marielle estavam desligadas

» O ex-PM Orlando Oliveira de Araújo, o Orlando Curucica, e Thiago Bruno Mendonça, o Thiago Macaco, são investigados suspeitos de participação na execução. Eles teriam ligação com o vereador Marcello Siciliano (PHS). Todos negam.

» Entre segunda-feira e a madrugada de ontem os investigadores fizeram uma reconstituição do crime. Um laudo deve ficar pronto em 30 dias.

Fonte: CORREIO BRAZILIENSE - DF

Autor: OTÁVIO AUGUSTO