Resenha

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São Francisco, nova fronteira da tecnologia
16 Mar 2014

 

Cidade aproveita saturação do vale do silício, atrai empresas e recebe 40% dos novos investimentos

Flávia Barbosa

Enviada especial

 

Palo Alto é a pedra fundamental do Vale do Silício. Desenvolvida em torno da Universidade de Stanford, fundada em 1891, é sede de Hewlett-Packard, Skype e Tesla. É também celeiro de Apple, Google, Facebook, Cisco, Sun Systems e outros ícones, que começaram a ser gestados nos bancos da principal faculdade pontocom do planeta e mantêm seus QGs nas cidades ao redor, num corredor que começa em San Jose e Cupertino, ao sul, e se estende até San Mateo, ao norte. Ou se estendia. Atraindo quase 40% do capital de risco que alimenta a indústria de tecnologia da região nos últimos três anos, São Francisco estreou no Vale. E já como protagonista.

- Queremos ser incontestáveis número 1 e transformar o Vale do Silício numa parte de São Francisco - provoca Jay Nath, diretor de inovação da prefeitura da cidade. - Brincadeiras à parte, esta é uma região pequena e interdependente, então trabalhamos em parceria. A competição é amigável.

Tecnologia não é tema novo em São Francisco. É terra de Twitter, Instagram, Yelp, OpenTable e do maior Cluster de biotecnologia dos EUA. Mas, com uma economia diversificada, onde sempre despontaram o turismo de lazer e negócios, a construção civil, o sistema financeiro e o setor de saúde, a cidade não respirava inovação como as irmãs da região da Baía de São Francisco. A crise de 2008 ajudou a reajustar o foco. E o próprio crescimento do Vale "original" acabou por expandir suas fronteiras ao norte.

de lazer e negócios, a construção civil, o sistema financeiro e o setor de saúde, a cidade não respirava inovação como as irmãs da região da Baía de São Francisco. A crise de 2008 ajudou a reajustar o foco. E o próprio crescimento do Vale "original" acabou por expandir suas fronteiras ao norte.

Depois da primeira onda pontocom, Palo Alto e adjacências ficaram caras - especialmente em termos de aluguel de espaços - e as start-ups começaram a procurar alternativas fora do Vale. A opção foi facilitada pela tendência aos escritórios compartilhados na fase inicial dos projetos e pelo próprio avanço tecnológico, uma vez que as empresas podem armazenar seus dados em nuvens, dispensando grandes instalações para centro de gerenciamento de informações.

- Era mais barato ficar na cidade e muito mais produtivo para quem, como nós, está focado no consumidor. Na atual era da internet, o importante para criar um negócio bem-sucedido é a capacidade de montar um bom time e não o lastro acadêmico como no período de 1960 a 1990, quando Stanford foi o centro gravitacional do Vale do Silício - afirma Jeremy Stoppelman, pioneiro na escolha de São Francisco, há 9 anos, como sede do Yelp, guia on-line de serviços, atrações e produtos por ele fundado, que cobre 110 cidades do mundo.

 

MÃO DE OBRA ESPECIALIZADA

Este movimento criou um ambiente vibrante, com 1.826 empresas, troca de experiências e estabelecimento de uma rede própria de contatos, e aumentou a atratividade de São Francisco. Especialmente para a nova geração de empreendedores, que vem de outras cidades americanas e países e prefere trabalhar em um lugar cosmopolita, com diversificada oferta cultural e de lazer, ampla comunidade de imigrantes e tradição de negócios com o exterior.

São Francisco também sempre foi o principal fornecedor de mão de obra para o Vale do Silício, obrigando os trabalhadores ao deslocamento diário, de carro e em ônibus fretados. O trânsito ficou impossível, com jornadas que podem durar uma hora. O custo das empresas subiu e a retenção de talentos no corredor entre San Jose e San Mateo ficou mais difícil.

A solução tem sido abrir filiais de porte em São Francisco, caminho anunciado recentemente por empresas do quilate de Yahoo, Google, Spotify, eBay e Visa. Quem está chegando à Califórnia agora para produzir tecnologia e investir em inovação, conhecendo esta realidade, já opta pela cidade.

- São Francisco é uma opção óbvia. Queríamos estar na cidade, não no interior. Há talento de sobra aqui, especialmente com menos de 30 anos, então é mais fácil montar uma boa equipe de pessoas com a cabeça fresca, sem roteiro pré-estabelecido. E a economia é gigante, as melhores empresas estão aqui, o que abre o leque de parceiros e clientes - diz Michael Buckwald, que deixou a Costa Leste há três anos para se aventurar no Vale com a start-up LeapMotion.

Nesta onda, a oferta de empregos na indústria de alta tecnologia cresceu 61% em quatro anos, num total de 35 mil vagas. O mercado de trabalho de São Francisco é o que mais se expande nos EUA e os salários, estagnados no resto do país, tiveram aumento de 5% no biênio 2011-2012.

Vale com a start-up LeapMotion.

Nesta onda, a oferta de empregos na indústria de alta tecnologia cresceu 61% em quatro anos, num total de 35 mil vagas. O mercado de trabalho de São Francisco é o que mais se expande nos EUA e os salários, estagnados no resto do país, tiveram aumento de 5% no biênio 2011-2012.

Só em 2012, 557 mil metros quadrados de escritórios foram alugados para companhias de tecnologia. Mission Bay - lar de 130 companhias e laboratórios de biotecnologia - e SoMa são os bairros que concentram o universo high tech.

A prefeitura de São Francisco opera ativamente para consolidar o status da cidade. Nos últimos quatro anos, concedeu incentivos fiscais (incluindo sobre a folha de pagamento) para atrair e manter as sedes de empresas de alta tecnologia. Também usou o corte de impostos para incentivar setores nos quais tem vantagem comparativa, como, por exemplo, na energia limpa - é a capital americana de sustentabilidade, com mais de 40 firmas só de energia solar.