Resenha

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Imaturidade diplomática
18 set 2013

Visão do Correio

 

O governo brasileiro acaba de dar mais um passo para ampliar a coleção de equívocos com que tem conduzido sua política externa. O cancelamento e, principalmente, o alarde com que se cercou a decisão de não cumprir o compromisso de uma visita de Estado a Washington, em outubro, significou mais uma perda de oportunidade de obter vantagens para o país, objetivo claramente ultrapassado pela busca de efeito no público interno.

Nem de longe se trata de minimizar o malfeito patrocinado pelo governo de Barack Obama. Ninguém de mediano bom senso pode aceitar a prática de espionagem por país estrangeiro de atos, decisões e conversações da chefe do governo do Brasil e de informações, estratégicas ou não, de organizações públicas e privadas brasileiras, muito menos da Petrobras, estatal envolvida na pesquisa e exploração de importantes jazidas de petróleo.

É, portanto, natural que as informações divulgadas no Brasil, com base em documentos vazados por Edward Snowden, ex-analista de inteligência da NSA (agência de segurança dos EUA), ao jornalista Glenn Greenwald, tenham causado indignação no comando do Planalto e a imediata reprovação da sociedade brasileira. Não importa a mando de quem se fez a espionagem, ela tem de ser repelida.

Mas ninguém é ingênuo o suficiente para esperar que os Estados Unidos, maior potência militar e tecnológica do planeta, país assediado pelo terrorismo dos inimigos que vem colecionando desde o fim da Segunda Guerra Mundial, vão parar de usar os recursos avançados de que dispõem em favor do que ele mesmo classifica como "defesa nacional". Tampouco é seguro esperar que a ONU tenha forças para impedir essas práticas, que, a propósito, ninguém garante serem exclusividade dos norte-americanos.

Posto o problema, o mais produtivo teria sido tirar partido do constrangimento que o Brasil vinha conseguindo criar em Washington. O mundo, como se sabe, está na antessala de um novo período de aceleração da economia, quadro que já começa a ser visível no horizonte dos próximos dois ou três anos. Também se sabe que será um período de grande disputa entre blocos poderosos que estão se formando em torno dos EUA e da Europa, de um lado, e da China e países do Pacífico, do outro.

Novos modelos de protecionismo deverão prevalecer, incluindo os parceiros e excluindo os "de fora". O Brasil, líder do subcontinente sul-americano, tem interesses próprios e de seu grupo a defender e não pode perder tempo nem oportunidades. É hora de marcar posições e exigir aberturas comerciais, antes que as portas se fechem e tornem tudo mais difícil.

As visitas de Estado só são promovidas pelo governo dos Estados Unidos duas vezes por ano. Em nada lembram as secas recepções de rotina dadas a chefes de Estado. São cercadas de pompa, cerimônia e, principalmente, compromissos. Do Brasil, somente foi dada essa oportunidade ao presidente Fernando Henrique Cardoso, em 1995.

Acima das irritações pessoais e certo de não haver nada relevante ou comprometedor a ser revelado por eventuais novos vazamentos de Snowden, o governo brasileiro ainda pode rever o comportamento parecido com o de vizinhos como Bolívia e Argentina, de quem, aliás, tem aceitado desaforos de toda ordem, cometidos contra o "imperialismo brasileiro" para ganhar aplausos da torcida local. É hora de retomar a maturidade e objetividade com que o Brasil sempre tratou suas relações exteriores.