Patronos

A mais autêntica homenagem que se pode prestar aos grandes vultos da Pátria é manter viva a lembrança de seus feitos, interpretar os acontecimentos de que participaram e recolher os dignos exemplos que nos legaram.
As magistrais lições que emanam de suas incomuns existências constituem a imortal seiva que robustece crenças, revigora forças para a travessia do presente e inspira a busca do futuro.

Patrono. {Do lat. patronu] S.m. 5. Bras. Chefe militar ou personalidade civil escolhida com figura tutelar de uma força armada, de uma arma, de uma unidade, etc., cujo nome mantém vivas tradições militares e o culto cívico dos Heróis.
Extraído do Novo Dicionário da Língua Portuguesa, Ed Nova Fronteira, 1ª Edição

patrono do exército brasileiro

Campanha da Tríplice Aliança

Campanha da Tríplice Aliança

Irrompe em princípio de 1865 a guerra contra o ditador do Paraguai, Solano Lopez, provocada principalmente pela invasão paraguaia do território brasileiro. O governo imperial, tomado de surpresa, executa as primeiras providências políticas e militares, tentando impedir o aumento da invasão.

A política interna do império brasileiro, refletida na luta partidária entre conservadores e liberais, entravava a necessária rapidez das decisões, com prejuízo de vidas brasileiras onde o conflito se instalara.

Cabe ressaltar que Caxias era um conservador e o governo estava nas mãos de um Gabinete liberal.

No momento em que irrompera guerra, era Ministro da Guerra do Império o conservador Beaurepaire Rohan, que consultou Caxias acerca dos planos de organização do Exército,  de concentração e de campanha a serem adotados.  

Mesmo tendo aceitado as sugestões de Caxias, Beaurepaire não pode colocá-los em ação, visto que, sendo também conservador, foi logo substituido por um político liberal.

Os acontecimentos se precipitam e as forças aliadas do Brasil, Argentina e Uruguai continuam sendo derrotadas pelas tropas paraguaias.

O desastre das tropas aliadas na Batalha de Curupaity desencadeia no Gabinete liberal a reação de que somente Caxias poderia reverter a situação da guerra.

Assim, quase dois anos depois de iniciado o conflito, Caxias é convidado pelo Gabinete para assumir o comando das tropas brasileiras, conforme a crônica marca na seguinte passagem:

"Coube ao Conselheiro Zacharias de Goes e Vasconcellos fazer o convite, por escrito (como exigia Caxias) ao marquês para que assumisse o dito comando. Caxias, de posse do documento, dirige-se à reunião do gabinete. Esse fato é assim narrado:

"Ali chegando, de novo lhe foi transmitido em presença de todo o Ministerio, o convite já referido. E como lhe dissesse o Conselheiro Zacharias que o Ministerio se retiraria, caso ele, Caxias, que era conservador, se recusasse a aceitar o convite, para não ter de servir sob um Gabinete liberal (..), replicou promptamente o grande soldado: " aceito o convite, Conselheiro, a minha espada não tem política" (O DUQUE DE CAXIAS, Esboço de Sua Gloriosa Vida, de autoria do Capitão Raymundo Pinto Seidl, 1930).

O marquês de Caxias se apresentou, em Tuiuti, em novembro de 1866, e desde logo foi fazendo o que lhe permitia sua situação de subordinado ao comando em chefe do General argentino Mitre – fruto do Tratado da Tríplice Aliança.

A situação do Exército em Tuiuti, onde o cólera devastava as tropas, era desoladora. Ali empreende a grande obra da organização das Forças e dos meios materiais, da restauração do moral, da instrução, da disciplina e da higiene do Exército.

Em 9 de fevereiro de 1867, quando o General Mitre é chamado à pátria pela morte do Vice-Presidente, Caxias recebe o Comando-Chefe dos Exércitos Aliados.

Mais uma vez, sua visão de estrategista vem à tona e Caxias emprega, pela primeira vez na América do Sul, balões a gás cativos para executar reconhecimentos aéreos.

Em 21 de fevereiro de 1867, o marquês inicia as operações ofensivas com a marcha de flanco por Tuiu-Cuê, esmagando, uma por uma, as resistências com que o general paraguaio pontilhava seu itinerário.

Tuiu-Cuê, Paré-Cuê, Tataíba, Passo de Curupaiti, Pedro Gonzalez, São Solano, Nembucu, Pilar, Potrero Obela, Taii; Humaitá, objetivo das operações em curso, cai a 25 de julho de 1868, após prolongada resistência e ao peso do terceiro ataque das Forças terrestres e navais aliadas.

Termina uma fase das operações.

Com o prosseguir da Campanha, Solano Lopez se concentra com seu grosso a coberto da linha do Tebicuari, que a seguir evacua, rompendo o contato com os aliados.

Ganha tempo e se instala fortemente em Vileta e Angustura, sobre o rio Paraguai, coberto pela posição fortificada de Piquisiri, ao sul, e pelas linhas sucessivas dos riachos de Itororó e Avaí, ao norte, fortemente defendidas.

Caxias estabelece contato com a posição de Pisiquiri. Lança sobre ela numerosos reconhecimentos ofensivos e emite a seguinte Ordem do Dia, em 14 de janeiro de 1869:

" Desde que me convenci, pelos reconhecimentos a que mandei proceder, e a alguns dos quais pessoalmente assisti, de que o inimigo nas suas trincheiras da extensa linha do Piquisiri, onde se colocara, não podia ser atacado de frente e pelo flanco direito, em conseqüência das dificuldades invencíveis que se opunham à marcha do exército, provenientes de um banhado a transpor de légua e meia de extensão e cujas águas eram abastecidas pela lagoa Ipoá, tratei de levar a efeito o plano que concebera de contorná-lo pelo flanco esquerdo, sendo a base das operações ulteriores o Grão-Chaco."

Dessa Ordem do Dia resulta uma das mais brilhantes manobras militares do continente. Para atacar Angustura e Vileta pela retaguarda, Caxias:

  • faz construir a estrada do Chaco, ao longo da pantanosa margem direita do rio Paraguai;
  • transpõe, com 19.000 homens das três Armas, cavalhada e material pesado, o grande rio, em Santa Teresa;
  • marcha com seu exército para o norte, por terra e por água, utilizando, com maestria, todas as possibilidades da esquadra;
  • transpõe, novamente, o rio Paraguai, desembarcando na margem esquerda, em Santo Antônio. 

Após isso, então, organiza as suas forças para a operação em vista e marcha na direção geral do sul.

Principais Campanhas da Guerra da Tríplice Aliança

  • Itororó

Leiamos as palavras do próprio heroi:

"Quando resolvi o movimento que levou o exército a Santo Antônio, ordenei ao general Argolo, depois Visconde de Itaparica, logo que pusesse pé em terra, mandasse ocupar a ponte de Itororó. S Excia, seguiu, embarcado, às 2 horas da noite, com a sua vanguarda, do ponto em que nos achávamos no Chaco, em direção a Santo Antônio, e eu com o Sr General, perguntei-lhe imediatamente: "Já está ocupada a ponte de Itororó?" Respondeu-me: "Não". "Por quê?". Repliquei. Soube então que não era possível ocupar a ponte sem se fazer um reconhecimento, mas que não se tinha desembarcado cavalaria suficiente para empreender essa operação. Mandei marchar a pouca cavalaria que havia em terra, adicionando-lhe dois batalhões de infantaria. Quando essa força chegou a seu destino, já achou a ponte ocupada pelo inimigo.

A posição era terrível, ninguém conhecia o terreno, eram 4 para 5 horas da tarde, por isso julguei conveniente não atacar logo. Tinha de atravessar espêssa mata, onde o inimigo podia estar oculto, e ignorava-se até de que força dispunha além da mata. Mandei retroceder essa vanguarda e ordenei o ataque para o dia seguinte:"

Guardava a ponte o General Cabalero, com seis Batalhões de Infantaria, cinco Regimentos de Cavalaria e doze peças de Artilharia.

Alvoreceu o 6 de dezembro de 1868. O Exército iniciou o movimento para Sul.

"A estrada era estreita, bordada de capoeirões e pequenos campestres, e ligeiramente acidentada. Levava a uma ponte sobre Itororó".

Este riacho:

"verdadeira torrente, deslizava por entre muros de rochedos e teria nesse passo de 3 a 4 metros de largura por 4 ½ de profundidade. A ponte tosca, de madeira forte, apresentava uma largura de três metros. Ao alcançarmos o alto, o inimigo, cuja artilharia dominava a ponte do arroio Itotoró, rompeu fogo sobre a vanguarda. Travou-se o combate".

A violência revela-se extraordinária. Num corpo a corpo que durou horas, sucedem-se ataques e contra-ataques consecutivos, sem intervalos, um após outro, de lado a lado, num fluxo e refluxo de imprevisíveis consequências.

Morre o Coronel Fernando Machado. As margens e a ponte estão cobertas de cadáveres. O General Argolo, comandando um contra-ataque, cai gravemente ferido em plena ponte. É quando os paraguaios lançam violento contra-ataque.

"Caxias vislumbra rapidamente a influência deste lance sobre o resultado final da jornada"

Comandando pessoalmente a Reserva, o Marechal desembainha a espada, galopa para a ponte, numa atitude que arrebata, e grita às suas tropas:

"– Sigam-me os que forem brasileiros!"

Conta Dionísio Cerqueira, que participou da ação:

"Passou pela nossa frente, animado, erecto no cavalo, o boné de capa branca com tapanuca, de pala levantada e presa ao queixo pelo jugular, a espada curva, desembainhada, empunhada com vigor e presa pelo fiador de ouro, o velho general em chefe, que parecia ter recuperado a energia e o fogo dos cinte anos. Estava realmente belo. Perfilâmo-nos como se uma centelha elétrica tivesse passado por todos nós. Apertavámos o punho das espadas, ouvia-se um murmúrio de bravos ao grande marechal. O batalhão mexia-se agitado e atraído pelo nobre figura, que abaixou a espada em ligeira saudação a seus soldados. O comandante deu a voz firme. Daí há pouco, o maior dos nossos generais arrojava-se impávido sobre a ponte, acompanhado dos batalhões galvanizados pela irradiação da sua glória. Houve quem visse moribundos, quando ele passou, erguerem-se brandindo espadas ou carabinas, para caírem mortos adiante"

Passada a ponte, Caxias comanda pessoalmente a carga final e se apodera da posição.

Escrevera mais uma página – com as suas virtudes de chefe e com a sua bravura pessoal – da História Militar do Brasil.

  • Avaí

Era preciso tomar Angustura e Vileta e realizar a ligação com a esquadra, para receber abastecimentos. Ao alvorecer de 11 de dezembro, o Exército prossegue no seu avanço para o Sul.

"O general em chefe, convencido da importância do combate do dia 6, pela resistência que o inimigo lhe tinha apresentado na ponte, resolveu, para não perder a iniciativa de o perseguir vigorosamente em sua retirada. Tendo dormido em a noite de 6 para 7, no campo de batalha, levantou-se antes do romper do dia para ordenar disposições de marcha".

Teria que transpor o arroio Avaí: mas sobre essa linha d’água, aproveitando habilmente as vantagens do terreno, lá estava novamente o General Caballero, com 7.000 homens e 18 peças de Artilharia, repetindo o dispositivo da ponte de Itororó.

"Interfere-se dessa rápida descrição que os brasileiros tinha primeiro ao descer ao arroio, depois transpô-lo e por fim subir a colina oposta para desalojar os inimigos. Estes deviam encontrar-se em excelentes condições de os repelir, quer durante a marcha de aproximação, quer na fase de ataque"

É assinalada e rapidamente reconhecida a posição de Caballero.

Caxias decide, sem demora, passar-se ao ataque, iniciado por Osorio, no centro.

Os paraguaios – com sua tradicional bravura – resistem.

No momento mais difícil, desaba sobre o campo da luta violenta borrasca: alaga-se o terreno, cresce o volume do arroio, molha-se a munição da Força atacante, e os brasileiros tiveram que recorrer às armas brancas.

Luta-se em cada canto, com indiscritível ardor e homérica bravura!

Numa carga, cai morto, a ferro frio, o Tenente-Coronel Francisco de Lima e Silva; a seguir, o Tenente-Coronel Antônio Pedro de Oliveira e o Coronel Niederauer; o chão está juncado de herois.

Caxias, do seu observatório, a cavalo, bem junto à frente de combate, acompanha todos os lances e comanda o combate.

Ele próprio, num momento, comanda pessoalmente uma intervenção violenta do 2º Corpo sobre o flanco direito da posição.

Osorio é ferido no rosto por bala de fuzil. José Luiz Mena Barreto é um aríete, abrindo brechas. O Coronel Câmara – à frente de sua Cavalaria – parece uma figura de lenda, em entreveros consecutivos, envolto por esquadrões que se digladiam. Ao passar pelo Marechal, com os seus cavaleiros indóceis, Caxias o promove:

"- General, louvo-o pelas suas brilhantes cargas!..."

Andrade Neves e João Manuel Mena Barreto, executando a fase final da manobra – cada um sobre um dos flancos da posição – chegam no momento justo e desferem os seus golpes mortais. A resistência fraqueja e a posição é arrebatada. O combate durara cinco horas.

Caxias atinge um por um os seus objetivos, numa marcha vitoriosa que levará seu nome glorioso à imortalidade dos herois.

  • Piquisiri 

A posição fortificada de Piquisiri era o objetivo final da grande manobra.

O General abate as armas em funeral aos mortos, hospitaliza os feridos, reorganiza o Exército e prossegue no cumprimento da missão.

A posição de Piquisiri apoiava-se por Leste, em lagoas pantanosas e, por Oeste, na Loma Ita-Ibaté, "Uma das colinas cujo conjunto denomina-se Lomas Valentinas" na qual o ditador paraguaio instalara o seu quartel-general. "Ali está, pois, o marechal Lopes com o seu quartel-general. Pela primeira vez ele vai comandar em chefe o seu valente exército".

O Exército Brasileiro marcha para o Sul, em busca de contato com a posição fortificada de Piquisiri. Caxias se adianta pessoalmente, "para examinar, bem de perto, a posição inimiga e selecionar melhor os pontos de ataque". Como medida preliminar, isolou a praça forte de Angustura. Além de todas as circunstâncias adversas, "o terreno, infelizmente, era-lhe completamente desfavorável".

"As 2 horas da tarde de 21, o generalíssimo desencadeia o seu ataque". A posição é defendida com ardor e bravura: os atacantes têm contra si o meio, a distância das bases, o terreno... e são dizimados pelo fogo e a arma branca.

As Forças brasileiras fluem e refluem, como uma caudal impetuosa que se tentasse inutilmernte represar, em arremetidas sucessivas. Caxias comanda, atento, a batalha, fazendo face aos imprevistos, empregando as suas reservas.

A noite veio interromper o ataque. Caxias deu ordem para manter as posições conquistadas e "todo o exército brasileiro bivacou no própio campo da peleja" (General Tasso Fragoso).

"A noite foi toda de alerta. No decurso dela fez o inimigo nada menos de quatro contra-ataques, mas forma todos repelidos" (Manuscrito de 1869).

À alvorada, Caxias fez o seu reconhecimento pessoal à posição e reajusta as suas Forças para o ataque final: chama a Infantaria brasileira, que deixara em Palmas; traz para a frente as tropas de reserva, deixadas em Humaitá; convida os contingentes aliados a se aproximarem, para partilharem da ação.

Antes de reiniciar a ação, lança uma intimação ao ditador, que se recusa a aceitá-la. E "na manhã de 27 de dezembro estava tudo predisposto para o ataque à posição de Lopes em Ita-Ibaté" (General Tasso Fragoso).

Finalmente, ao fim de um ataque montado e executado com todos os requintes da época, a posição é conquistada, depois de seis jornadas de luta.

Caxias, planejando ações, organizando exércitos, coordenando esforços, participando pessoalmente dos combates, foi o grande heroi dessa campanha.

Com a saúde desgastada pelos combates e sabendo que o término da guerra é apenas uma questão de dias, Caxias considerou que já havia cumprido a sua missão; passa o comando das tropas aliadas e retorna ao Rio de Janeiro.