O Exército

Na II Guerra Mundial

Capelão John Sorey, ministro da 1ª Igreja Batista, ora por um morto em Monte Castelo.

Na II Guerra Mundial

 

A extensão geográfica de nosso território (quinto maior do mundo) e sua posição geopolítica debruçada sobre o Oceano Atlântico, com uma costa de quase 8.000 km, não nos permitiram manter ilesa nossa soberania e nos conservarmos ausentes de participação nos dois últimos grandes conflitos bélicos que abalaram o mundo.

Na 1ª Grande Guerra (1914-1918) após o afundamento de três navios mercantes brasileiros pelos submarinos alemães, decidiu o governo de Wenceslau Brás transformar nossa declaração de neutralidade em estado de guerra.

Preparou-se a Nação para honrar a posição drástica assumida, para a qual em espírito estava estimulada graças, principalmente, à pregação veemente que vinha fazendo Ruy Barbosa em defesa da causa aliada. Uma divisão naval, uma missão médica e um grupo de oficiais do Exército e da Aviação Militar, esta recém-criada, partiram para o front a fim de marcar a nossa presença no teatro de operações. Pequena contribuição bélica mas bela afirmação de adesão às democracias aliadas e de repudio às agressões sofridas.

Por ocasião da 2ª Guerra Mundial o Brasil foi atingido mais profundamente pela violência bélica dos submarinos dos poderes nazi-facistas. Nossa participação no conflito bélico foi precedida da tomada pelo Governo brasileiro de medidas no campo diplomático visando a honrar o compromisso assumido por ocasião da III Reunião de Consulta dos Ministros de Relações Exteriores das Repúblicas Americanas, realizada no Rio de Janeiro e encerrada a 28 de janeiro de 1942. Nessa oportunidade, cumprindo o acordo firmado com as nações do Continente, o Brasil rompeu relações diplomáticas com as potências do Eixo: Alemanha, Itália e Japão.

A bordo do Gen. Mann, os pracinhas a caminho da Itália..

Esta atitude diplomática do Governo brasileiro, assumida em nome da solidariedade do Continente Americano ante à ameaça nazinipo-fascista provocou uma reação violenta do Governo de Berlim. Em 15 de junho de 1942, Adolph Hitler, em reunião com o Almirante Reader, decidiu desencadear uma ofensiva submarina contra a navegação marítima nas costas brasileiras. Para esta missão foi destacada uma flotilha de submarinos sendo 8 de 500 toneladas e 2 de 700 toneladas. Partindo da costa da França ocupada, essa fIotilha foi reabastecida já próximo à nossa costa pelo submarino-tanque U-460.

 Em seguida, começou a ação corsária dos submarinos alemães e, possivelmente, alguns italianos do governo fascista de Benito Mussolini. Em dois dias, de 15 a 17 de agosto de 1942, cinco navios mercantes brasileiros foram torpedeados e afundados, a poucas milhas de nossa costa. Seguiram-se outros ataques que afundaram 31 barcos mercantes brasileiros. Era a guerra não declarada, era a violência, a pretexto de responder a um ato diplomático de rompimento de relações.

Era o Brasil, em 1942, um país já mais expressivo na balança do poder do que o Brasil de 1917. Nossa resposta teria que ser mais forte, como foi. Reagindo às agressões militares sofridas o Governo brasileiro, a 22 de agosto de 1942 declarou guerra à Alemanha e Itália. A Nota Ministerial comunicando a Declaração de Guerra aos governos de Berlim e Roma foi firmada pelo Embaixador Oswaldo Aranha, Ministro de Relações Exteriores.

Em seguida, o governo de Getúlio Vargas decretou estado de guerra em todo o território nacional e foi determinada a mobilização geral do país.

Vamos apresentar um resumo do que significou o esforço de guerra realizado pelo nosso país por ocasião da 2ª Guerra Mundial, particularmente no tocante à participação de nossas Forças Armadas nas operações militares.

Participação das Forças Armadas Brasileiras nas Operações de Guerra, Defesa e patrulhamento do litoral e proteção de comboios.

Podemos resumir a participação de nossas Forças Armadas nas operações bélicas do 2º conflito mundial nas seguintes ações principais:

• Exército, envio de uma Força Expedicionária ao Teatro de Operações do Mediterrâneo e ocupação de áreas estratégicas, particularmente no Nordeste, para a defesa do litoral;
• Marinha, patrulhamento do litoral e escolta de comboios marítimos;
• Força Aérea, envio de um Grupo de Aviação de Caça e de uma Esquadrilha de Ligação e Observação ao Teatro de Operação do Mediterrâneo e ações de patrulhamento do litoral e proteção aérea à navegação.

Nossa participação militar, na parte referente às operações extracontinentais e reequipamento das forças foi coordenada por duas Comissões Mistas de Defesa Brasil-Estados Unidos, funcionando uma no Rio de Janeiro e outra em Washington. Estas Comissões baseadas no Acordo Bilateral firmado pelos dois países a 23 de maio de 1942 tiveram como representantes do Brasil em Washington o General de Divisão Estevão Leitão de Carvalho e dos Estados Unidos no Rio de Janeiro o Major General J. Gareshe Ord.

O trabalho de duas Comissões Mistas, de Washington e do Rio de Janeiro resultou num clima de entendimento militar estreito entre os dois países, firmado no campo da ideologia comum, no terreno da conjugação de interesses econômicos, no hábito do trabalho comum e no sentimento da necessidade de eliminar do mundo a praga do nazi-fascismo.

Estas razões resultaram na proposta da Comissão Mista de Washington, aceita pelo Governo brasileiro, visando à ampliação do alcance do Acordo Militar de 23 de maio de 1942, tendo em vista estender a cooperação militar para fora do Continente Americano. (Recomendação nº 16 de 21 de agosto de 1943).

Aceita pelo Governo brasileiro essa nova linha de cooperação, ficou assentado, inicialmente a participação do Brasil com uma Força Expedicionária do Exército constituindo um Corpo de Exército de três divisões de infantaria e uma divisão blindada que atuaria na África e Europa. A Força Aérea participaria das operações no Teatro do Mediterrâneo, inicialmente com um Grupo de Caça e uma Esquadrilha de Observação e Ligação e posteriormente com um Grupo de Bombardeiros Médios. A Marinha de Guerra teria estendida a águas exteriores a área marítima de patrulhamento e proteção de comboios.

Em troca da participação externa acima prevista as autoridades brasileiras negociaram o fornecimento de material de guerra para as três forças, tendo em vista o fortalecimento da defesa de nosso território.

Os atrasos no fornecimento do equipamento bélico necessário e a invasão da Europa pelas Forças Aliadas, antevendo a aproximação do fim do conflito, foram as causas que reduziram a participação mais numerosa do Brasil no Teatro do Mediterrâneo, limitando-a apenas ao envio de Força Expedicionária Brasileira composta de uma divisão de infantaria e do 1º Grupo de Caças da Força Aérea Brasileira.

A mobilização militar e a defesa do litoral brasileiro visaram, particularmente, o fortalecimento do Nordeste, por duas razões essenciais:

1) sua posição geográfica, um saliente do Atlântico formando com a costa do Senegal o estreito do Atlântico; o Presidente Roosevelt em discurso referiu-se à importância da ponte estratégica Natal-Dacar;
2) as evidentes intenções do governo alemão, após o armistício com a França (governo Pétain) de ocupar as colônias francesas da costa atlântica da África, defronte ao litoral brasileiro.

As três Forças reforçaram seu dispositivo e seus efetivos no Nordeste. A Marinha de Guerra fortaleceu as bases de Recife e Salvador e criou os novos comandos navais de Natal e Belém.

Em Livorno, o desembarque dos pracinhas do segundo escalão.
A Aeronáutica ampliou as bases de Recife e Salvador e instalou as bases aéreas de Natal, Fortaleza e Belém. O Exército, que, ao começo do conflito bélico na Europa mantinha escassos efetivos no Nordeste (cerca de 6.000 homens), elevou seus efetivos para 50.000 homens, ocupando a ilha de Fernando de Noronha e vários pontos do litoral propícios ao desembarque. Foi criado o Teatro de Operações do Nordeste.

O então General João Baptista Mascarenhas de Moraes, que mais tarde se destacaria no comando da Força Expedicionária Brasileira, fora designado em 1941 para Comandante da 7ª Região Militar, em Recife, e teve a seu cargo a mobilização e o aprestamento do Nordeste para a situação de guerra. Para comandante do Teatro de Operações do Nordeste fora designado o General de Divisão Estevão Leitão de Carvalho que, mais tarde, teve a seu cargo a representação do Brasil junto à Comissão Militar Mista em Washington. A Força Naval do Nordeste, nessa fase de mobilização, esteve sob o comando do Almirante Soares Dutra e, em seguida, do Almirante Dodsworth Martins. A Zona Aérea sediada em Recife e com jurisdição sobre as bases do Nordeste era comandada pelo Brigadeiro Eduardo Gomes. Embora nunca fosse efetivado o comando conjunto para o Teatro de Operações do Nordeste, houve um perfeito entendimento e harmonia de procedimentos entre esses altos chefes militares que exerceram comando na área.

Em decorrência do Acordo Militar de 23 de maio de 1942, a 3ª Força Tarefa, pertencente à 4ª Esquadra norte-americana, do Atlântico Sul, sob o comando do Almirante Jonas Ingram, foi autorizada a instalar o seu Quartel-General em Recife. A Força Aérea dos Estados Unidos, igualmente, instalou bases em Natal e Belém.

No cumprimento das missões de defesa do litoral brasileiro, de patrulhamento aero-naval, escolta e proteção de comboios, as forças da Marinha e da FAB em operação conjunta com as forças norte-americanas desempenharam árdua e infatigável tarefa bélica.

Estendendo-se a zona de ação da 4ª Esquadra do Atlântico Sul a espaços marítimos que iam muito além de nossos limites territoriais, nossas belonaves e nossos aviões, em sua missão diária de patrulhamento e proteção da navegação, atuaram constantemente singrando e sobrevoando águas internacionais.


Antes do embarque, o 1º Escalão desfila no Rio.

Além das missões de proteção dos espaços aéreo e naval, a Defesa Ativa da costa do Nordeste foi estabelecida visando a repelir qualquer ataque aéreo, naval ou terrestre do inimigo. O plano para este fim foi coordenado entre os Comandantes do Nordeste - da Marinha, do Exército e Força Aérea. As informações que nos chegavam através dos governos de Londres e Washington levantavam a hipótese dos alemães e italianos, além das ações de guerra submarina, virem a tentar desembarques isolados na costa brasileira em operações tipo comando, muito utilizadas na época. Para a defesa ativa do litoral foram estabelecidos planos combinados (Marinha, Exército e Aeronáutica), particularmente nos pontos mais estratégicos como Recife, Salvador, Natal, Vitória e ilhas oceânicas (Fernando de Noronha e Trindade).

Estas missões de defesa do litoral e de guerra anti-submarina exigiram de nossas Forças Armadas pesados encargos e sacrifícios. Representaram dois anos, 1942 e 1943, de esforços inauditos e sangrentos sacrifícios. Inúmeros submarinos inimigos foram atingidos, afundados ou avariados, e, do nosso lado, milhares de vidas sacrificadas e 31 navios mercantes afundados. Vale que, também, merecida referência à nossa Marinha Mercante, pesadamente vitimada mas que, com destemor e espírito de missão, procurou manter a comunicação e o indispensável intercâmbio entre os portos brasileiros e a liberdade de nosso comércio exterior.

Veremos em seguida a participação das nossas Forças Armadas no exterior, no Teatro de Operações do Mediterrâneo.
 

A Força Expedicionária Brasileira (FEB)

Com um efetivo de 25.334 homens, a FEB participou ativamente das operações de guerra no Teatro do Mediterrâneo de julho de 1944 a maio de 1945, na Campanha da Itália.

Compôs-se a FEB de um Comando, uma divisão de Infantaria, um Depósito de Pessoal e pequenas organizações com Serviço de Justiça e Serviço de Saúde ao qual estiveram integrados cerca de 100 médicos, enfermeiros e 111 enfermeiras, Serviço Religioso e contigentes de ligação, de intendência. A força combatente da FEB foi a 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária, comandada pelo General de Divisão João Baptista Mascarenhas de Moraes, um conjunto tático-operacional constituído por infantaria, artilharia, cavalaria-motorizada, engenharia, aviação de ligação e observação e serviços de apoio e combate.

O General de Divisão Mascarenhas de Moraes acumulou o comando da Divisão com as demais forças não divisionárias estacionadas na Itália. Além do General-Comandante integraram a Divisão Brasileira 3 outros oficiais-generais: General de Brigada Zenóbio da Costa como Comandante da Artilharia Divisionária; como Comandate da Infantaria Divisionária o General de Brigada Oswaldo Cordeiro de Farias e o General de Brigada Olympio Falconieri da Cunha como Comandante dos elementos não divisionários, inclusive o Depósito de Pessoal, um conjunto de cerca de 5.000 homens destinados a garantir a substituição imediata dos mortos e feridos em ação.

O efetivo da FEB deslocou-se para o Teatro de Operações em navios de transporte de tropa da Marinha norte-americana, em cinco escalões sucessivos; todos eles cruzaram o oceano Atlântico e penetraram no mar Mediterrâneo protegidos por poderosas escoltas aeronavais em vista dos perigos da ativa guerra submarina desenvolvida pelos alemães e italianos. Somente as 111 enfermeiras foram transportadas por via aérea.

Ao chegar, recruta em lides guerreira, foi a tropa brasileira incorporada ao V Exército norte-americano comandado pelo General Mark Clark e incluída nos quadros do IV Corpo de Exército, comandado pelo General Willis Crittenberger. Lado a lado com o V Exército norte-americano combatia no Teatro do Mediterrâneo o famoso VIII Exército inglês comandado pelo Marechal Montgomery, laureado pelas vitórias sobre os alemães e italianos obtidas na Campanha do Norte da África e Sicília, depois chamado à Inglaterra a fim de preparar a invasão da Europa, substituído na Itália pelo General Lease. O Comandante Supremo do Teatro do Mediterrâneo era o Marechal Sir Alexander, do Exército inglês. Nesse quadro de estrelas fulgurantes da guerra, veteranos famosos, entrou a nossa FEB.

Suportaram as forças brasileiras a inclêmencia do inverno europeu de 1944 combatendo os alemães nos contrafortes e altos picos da cordilheira dos Apeninos. Jamais lhes preocupou o fato de serem novatas entre tropas veteranas e já famosas. Nunca esmoreceram em sua vontade de regressar ao Brasil com a vitória de suas armas.

Um resumo do desempenho operacional da FEB na Itália nós o encontramos na proclamação do seu Comandante, o General de Divisão João Baptista Mascarenhas de Moraes, anunciando a vitória das Forças Aliadas na Europa. Ei-Ia:


O Marechal Alexander visita a frente acompanhado dos generais Crittenberger e Mascarenhas.
"A Força Expedicionária que representou o Brasil nesta sanguinolenta guerra cumpriu galhardamente a missão que lhe foi confiada, mercê de Deus e a despeito de condições e circunstâncias adversas. Num terreno montanhoso, a cujos píncaros o homem chega com dificuldade; num inverno rigoroso que a totalidade da tropa veio enfrentar pela primeira vez e contra um inimigo audacioso, combativo e muito bem instruído, podemos dizer assim mesmo, e por isso mesmo, que os nossos bravos soldados não desmereceram a confiança que neles depositavam os seus chefes e a própria nação brasileira.

Após oito meses de combates constantes, em que, como todos os exércitos, sofremos pesados reveses e obtivemos brilhantes vitórias, o balanço de uns e outras é ainda favorável às nossas armas. Desde o dia 16 de setembro de 1944, a FEB percorreu, conquistando ao inimigo, às vezes palmo a palmo, cerca de 400 quilômetros, de Lucca a Alessandria, pelos vales dos rios Sercchio, Reno e Panaro e pela planície do Pó; libertou quase meia centena de vilas e cidades; sofreu mais de 2.000 baixas, entre mortos, feridos e desaparecidos; fez o considerável número de mais de 20.000 prisioneiros, vencendo pelas armas e impondo a rendição incondicional a duas Divisões inimigas. É um registro deveras honroso e de vulto para uma Divisão de Infantaria. Um dia se reconhecerá que o seu esforço foi superior às suas possibilidades materiais, porém plenamente consentâneo com a noção de dever e amor à responsabilidade, revelados pelos nossos homens em todos os degraus e escalões da hierarquia, e em todas as crises e circunstâncias da Campanha que neste instante acabamos de encerrar.

Regressamos com feridos ainda sangrando dos últimos encontros, mas nunca, pela nossa atuação, o prestígio e nome do Brasil periclitaram ou foram comprometidos.

Abatido e aprisionado pelos alemães, o segundo-tenente Marcos Magalhães, da FAB, conseguiu escapar.
É bem verdade, e vale a pena afirmar, que preço bem alto pagamos por esse resultado.O sangue dos nossos bravos camaradas tingiu de vermelho essas belas verde-escuras montanhas dos Apeninos e algumas centenas dos nossos companheiros já não retomarão à Pátria, conosco, porque dormem o sono eterno, sob as terras úmidas e verdejantes das planícies da Toscana.

Não foram muitos os meses que aqui passamos: muitos foram, entretanto, os triunfos que incorporamos ao rico patrimônio e às nossas tradições militares. Camaiore, Monte Prano, Barga - no vale do Sercchio; Monte Castelo, La Serra, Castelnuovo - no vale do rio Reno; Montese, Zocca, Marano su Panaro - no vale do rio Panaro; Collechio e Fornovo di Taro - na rica planície do Pó.

Esses nomes se inscreverão, por certo, dentre aqueles que recebem o culto de gerações patrícias, porque na Itáliá, como nos campos de batalha sul-americanas, o Exército brasileiro mostrou-se digno do seu passado e à altura do conceito que os seus chefes e soldados de outrora firmaram com a espada e selaram com sangue dos seus legítimos e sempre venerados Heróis".

O admirável resumo que acima transcrevemos, de autoria do grande Comandante da FEB que foi o General Mascarenhas de Moraes, sintetiza com fidelidade o que foi a atuação desse segmento do nosso Exército de Caxias na Campanha da Itália. Gostaríamos, entretanto, de dizer algo do conceito que a FEB deixou no espírito dos aguerridos chefes militares norte-americanos que a tiveram sob seu comando.

Do General Mark Clark, que era, quando chegamos à Itália, Comandante do V Exército e depois foi elevado a Comandante do XV Grupo de Exército, recebeu o nosso Comandante da FEB a seguinte mensagem ao finalizar o conflito:

"Mostrou-se essa Força sob seu Comando (do General Mascarenhas de Moraes) ser capaz de enfrentar problemass novos, treinar e disciplinarse para o combate no qual desempenhou parte relevante. A FEB refletiu as altas qualidades da nação brasileira, que enviou seus melhores filhos para lutar em solo estrangeiro, longe da pátria, pela implantação dos princípios de justiça e de liberdade".
 

O 1º Grupo de Aviação de Caça e a 1ª Esquadrilha de Ligação e Observação

A FAB também participou da 2ª Guerra Mundial no Teatro de Operações do Mediterrâneo com de duas de suas unidades - o 1º Grupo de Aviação de Caça, o "Senta a Pua", comandado pelo major Nero Moura e a 1ª Esquadrilha de Ligação e Observação "Olho nele", comandada pelo Capitão João Afonso Fabrício Belloc, esta última unidade adida à FEB e integrada operacionalmente à Artilharia Divisionária.

O 1º Grupo de Aviação de Caça foi equipado com os aviões Thunderbolt, conhecidos como P-47, o moderno avião caçador lançado pela indústria norte-americana, e foi integrado para fins de operações aéreas ao 350 Fighter Group. As aeronaves da 1º Esquadrilha de Ligação e Observação foram do tipo L4-H Piper Cub.

O valor da contribuição dessas unidades da FAB à vitória aliada no Teatro de Operações do Mediterrâneo não pode ser avaliado por sua participação quantitativa no conjunto da força aérea operando nesse Teatro, que foi realmente pequena, mas, e principalmente, pelos resultados obtidos no âmbito de seu limitado efetivo, comparando-os com o de unidades de outras nacionalidades também integradas no poder aéreo de Mediterrâneo.

Iniciou o 1º Grupo de Caça sua missão de combate nos céus do Teatro do Mediterrâneo, cumprindo missões em território italiano e alemão. Comentado a contribuição do 1º Grupo de Aviação de Caças, o "Senta a Pua", diz o Brigadeiro Nelson Freire Lavanére-Wanderley no seu livro História da Força Aérea Brasileira:

"O resultado impressionante da ação do Grupo de Caça Brasileiro, no último mês da guerra, pode ser avaliado pelo seguinte trecho do relatório oficial do 350 Figther Group: 'Durante o perído de 6 a 29 de abril de 1945, o Grupo de Caça Brasileiro voou 5 % das saídas executadas pelo XXII Comando Aerotático e, no entanto, dos resultados obtidos por esse Comando, foram oficialmente atribuídos aos brasileiros 15% dos veículos inimigos destruídos, 28% das pontes destruídas, 36% dos depósitos de combustíveis danificados e 85 % dos depósitos de munição danificados'."

Não foi sem onerosos sacrifícios que o 1º Grupo de Caças alcançou tão expressivos resultados como unidade combatente. Pesadas foram as perdas em vida do Grupo de Caça Brasileiro.

Em todas as missões os aviões de caça enfrentaram forte ressistência da defesa antiaérea inimiga, quando não de sua aviação de caça. Sendo a maioria das missões de caça realizadas a média e baixa altitudes, ficavam nossos aviões submentidos ao fogo dos canhões antiaéreos de 20 e 40 milímetros. Diz o Brigadeiro Wanderley no seu livro História da Força Aérea Brasileira:

"As estatísticas mostraram que, nos quatro primeiros meses de 1945, os aviões do Grupo de Caça Brasileiro fizeram 1. 728 saídas e foram atingidos pela artilharia antiaérea 103 vezes,o que dá uma média de um avião atingido para cada 17 saídas; a média do número de saídas diárias, nos dias em que havia vôo, era da ordem de 20; naturalmente, na maioria das vezes, os aviões, mesmo atingidos, conseguiam regressar à sua base; e nisso o avião P-47 "Thunderbolt" ficou famoso, pela sua extrema robustez e capacidade de trazer os pilotos de volta, mesmo quando avariado.

Entre os 48 oficiais do Grupo de Caça Brasileiro que realizaram missões de guerra, como pilotos, houve um total de 22 baixas, sendo que 5 foram mortos, abatidos pela artilharia antiaérea, 8 tiveram seus aviões abatidos pela artilharia antiaérea e saltaram de paraquedas sobre território inimigo, 6 foram afastados do vôo por prescrição médica e 3 faleceram em acidentes de aviação.

Os restos mortais dos bravos brasileiros mortos na Itália foram enterrados no Cemitério Brasileiro de Pistóia; posteriormente foram trasladados para o Brasil e atualmente se encontram na cripta do Monumento aos Mortos na II Guerra Mundial, na Avenida Beira-Mar, no Rio de Janeiro.

O elevado número de baixas, entre os pilotos do Grupo de Caça Brasileiro, exprime os riscos que eles enfrentavam, diariamente; e, no entanto, todos os que tiveram a oportunidade de privar com os pilotos brasileiros na Itália são unânimes em atestar o elevado moral e entusiasmo reinante entre eles; ficou demonstrado que, de fato, a Força Aérea Brasileira tinha mandado para a Itália um grupo de oficiais que correspondeu à mais alta expectativa que se pudesse ter sobre a sua bravura, noção de cumprimento do dever, espiríto de sacrifício e valor profissional.

Não pode deixar de ser reconhecida a alta qualidade e eficiência demonstradas por todo o pessoal de terra do Grupo de Caça Brasileiro o qual, em situações de grande desconforto e sob condições climáticas rigorosas, soube sempre desempenhar a contento a sua missão, concorrendo grandemente para o sucesso obtido nas operações aéreas e para o ótimo conceito que o Grupo de Caças sempre gozou no meio das demais forças aliadas.

A atuação do Grupo de Caça Brasileiro na Itália é a página mais gloriosa da História da Força Aérea Brasileira e o brilho imorredouro dos feitos lá praticados, pelos seus pilotos, servirá, sempre, de estímulo às gerações futuras da Força Aérea Brasileira".

Se o destaque maior cabe ao 1º Grupo de Caça, unidade de primeira linha no combate aéreo, não podemos, no entanto, deixar de destacar a atuação eficiente da 1ª Esquadrilha de Ligação e Observação, que, cumprindo a missão de ser os "olhos abertos e afastados" da artilharia da FEB, soube com suas 1282 horas voadas em missão de observação sobre as linhas inimigas contribuir para que os tiros certeiros de nossos canhões ajudassem os valiosos combatentes da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária a realizar sua extraordinária performance guerreira.
 

Conclusões

Diz o emérito historiador patrício Pedro Calmon: "Não tomamos espontaneamente a decisão de ir à guerra. Como os Estados Unidos, o Brasil foi compelido a intervir na guerra porque foi agredido e provocado". Isto nos aconteceu por ocasião da 1ª Grande Guerra (1914-1918) e da 2ª Guerra Mundial (1939-1945). O mesmo não sucedeu com a maioria dos países deste Continente. Por quê? Seria o caso de perguntarmos.

Voltamos aqui à tese de nossa expressão geopolítica, determinada pelo território imenso, subcontinental, nossa posição geográfica ocupando vastas costas debruçadas sobre o oceano Atlântico, nossa população e nossos recursos naturais. Geopoliticamente pesamos e ocupamos espaço na estratégia mundial. Foram esses fundamentos geopolíticos a razão física de nosso envolvimento nos dois maiores conflitos bélicos mundiais e nos arrastarão a tomar posição num terceiro conflito se esta infelicidade vier a acontecer à humanidade. Mas, levaram-nos, também, à participação nas duas guerras mundiais razões psicológicas - a índole e a vocação democrática de nosso povo, que o aproxima, em termos de concepção existencial da cultura cristã - ocidental e como conseqüência das nações que, neste século, têm representado o baluarte desses valores, - os Estados Unidos, a França, a Inglaterra, nossos aliados nessas duas conflagrações bélicas.

"Agredidos e provocados", quando procurávamos manter nossas relações e o intercâmbio comercial com os países deste Continente e as nações amigas da Europa, dentro do princípio da neutralidade, não vacilamos em nos empenharmos nas ações bélicas da 2ª Guerra Mundial, preparando-nos para defender nossa costa marítima, protegendo pelo patrulhamento naval e aéreo a nossa liberdade de navegação, aliando-nos às nações que como os Estados Unidos, a Inglaterra e a França lutavam já contra a ameaça bélica da nova ordem nazi-fascista.

Nossos soldados, marinheiros e pilotos morreram em nosso litoral e nas missões no Atlântico. Nossa Marinha Mercante sofreu pesadas perdas em vidas preciosas e material. Nosso Exército e Força Aérea compareceram ao Teatro do Mediterrâneo, nosso combatente mostrou-se tão bravo e profissionalmente tão capaz como qualquer combatente das forças aliadas e as vitórias alcançadas consagraram sua superioridade sobre os famosos alemães.

Terminarei repetindo as últimas palavras da Mensagem do General Willis Crittenberger, então Comandante IV Corpo do Exército a que esteve integrada nossa Força Expedicionária, dirigida ao nosso valoroso Comandante da FEB, General Mascarenhas de Moraes:

"Combatestes brava e valentemente e contribuístes substancialmente para a conquista da vitória das Nações Unidas. Podeis estar orgulhoso, com a certeza de terdes cumprido integralmente a missão para a qual o povo brasileiro vos enviou ao solo estrangeiro".

(Texto "O Brasil na II Guerra Mundial" do General Carlos de Meira Mattos, extraído da Revista O Globo Expedicionário - Agência Globo)