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A Balaiada no Maranhão 1838 – 1840

A Balaiada no Maranhão 1838 – 1840

Generalidades

O Ato Adicional de 21 de agosto de 1834, que proporcionou maior autonomia às províncias, provocou intensa disputa política local, conduzindo a lutas violentas pelo poder entre os partidos provinciais.

No Maranhão, destacavam-se dois partidos. De um lado, os conservadores, integrados por portugueses chamados bem-te-vis, contrários à situação em poder do partido liberal, ou "cabano", que os bem-te-vis comparavam aos cabanos do Pará, Pernambuco e Alagoas.

O nome bem-te-vi derivava do jornal da oposição, o Bem-te-vi.

A revolução no Maranhão tomou o nome de Balaiada, derivando do apelido 'Balaio' de um de seus maiores líderes, Francisco dos Anjos Ferreira. Este, fabricante de balaios, tipo bem acabado de sertanejo nordestino típico, alto, robusto, fora vítima de violência de parte de autoridade policial, que violentou duas filhas suas. Violência impune. O absolutismo das autoridades do Maranhão e a ausência de justiça tornou-o um vingador sanguinário e feroz, que encheu de terror as cidades do interior maranhense, matando, violentando e devastando. A ele se juntaram homens do mesmo padrão.

Segundo Paulo Matos Peixoto, em Caxias nume tutelar, no Maranhão o grupo dominante no poder assim atuava:

"Os desmandos do poder eram a norma de todos os dias. Prisões sem justificativa, humillhação aos bentevis de destaque social, que eram forçados a realizar trabalho braçal em público, violências de toda a ordem, abuso do poder, homicídios, extorsões através do fisco, recrutamento militar dirigido, como arma de coação, arbitrariedades, tudo era usado contra os adversários liberais – os bentevis."

Desenvolvimento da Balaiada

Em dezembro 1838, em Vila Manga, distante 10 léguas de São Luiz, ocorreram desordens sem grandes repercussões. Mas, exploradas politicamente pelos bem-te-vis em seu jornal, serviriam de estopim à eclosão da Balaiada, iniciada por sertanejos ligados à causa bem-te-vi.

Raimundo Gomes, empregado de fazendeiro bem-te-vi, ao passar por Vila Manga, teve companheiros seus presos injustamente, entre eles um irmão seu acusado de homicídio, pelo Subprefeito José do Egito, do partido "cabano" local. Tentou em vão Raimundo Gomes libertar seus amigos e irmão. E retirou-se!

Em 13 dezembro de 1838, retornou à Vila Manga com nove outros cabras. Arrombou a prisão e conseguiu aliciar para seu grupo, reforçado com os prisioneiros soltos, além dos 22 soldados encarregados da segurança policial da Vila. Como este feito repercutisse nos meios maranhenses, revoltados com as arbitrariedades dos donos do poder, Raimundo foi recebendo adesões crescentes, inclusive de outros líderes inescrupulosos como Lívio Pedro Moura, Mulungueta e Manuel Francisco - o Balaio, que daria o nome de Balaiada a essa revolta.

Raimundo Gomes, líder dos revoltosos, sem lei e sem rei, sem outros objetivos agora que não o saque e as vantagens pessoais, tornou-se, com seu bando, uma ameaça à segurança, à ordem e à tranqüilidade públicas no interior maranhense .

Reunidos, decidiram investir a cidade de Caxias. Foram precedidos pela má fama de que, em ações isoladas, vinham destruindo e saqueando fazendas e vilas que encontravam no caminho.

Em Caxias, sob a liderança civil de João Paulo Dias, líder naquela comarca e a militar do Capitão Ricardo Leão Sabino – que participara da Guerra na Península Ibérica para libertar Portugal do jugo napoleônico, foi organizada uma força denominada Corpo de Exército; força essa que atingiu um efetivo de cerca de 1000 homens, mobilizado na população caxiense. Foi constituído de oito companhias, dispondo cada uma delas de um capitão, dezesseis tenentes e trinta e dois alferes, nomeados por João Paulo, líder civil da resistência.

O Capitão Sabino organizou, sob seu comando direto, uma bateria de Artilharia e um esquadrão de Cavalaria.

Com esta organização popular, protegida por trincheiras então construídas, e contando com o concurso de mulheres, preparando munições de boca e de guerra, os caxienses resistiram 46 dias ao sítio do bando de Raimundo Gomes.

Quando a defesa de Caxias tornou-se crítica, o experimentado Capitão Sabino usou um ardil. Este consistiu em simular haver aderido à revolta, pedindo que os rebeldes se aproximassem: com ele, Capitão Sabino, tocando numa flauta o Hino Nacional. Após haver provocado a aproximação balaia, fez disparar um canhão, cujo estrondo enorme provocou pânico e desordem entre os rebeldes, que, correndo, deixaram o local na certeza de que outros disparos seriam feitos.

Essa confusão foi a oportunidade para a evacuação de Caxias. A vitória animou o partido Bem-te-vi. Os balaios chegaram a enviar a São Luiz emissários propondo rendição sem resistência ao presidente do Maranhão.

O líderes balaios não possuíam unidade de comando, esta impossível, face às vaidades e ambições de cada líder. O própio Balaio, numa incursão em fazenda, foi atingido por projetil disparado por um integrante de seu bando e veio a falecer de gangrena.

Depois que esgotaram e saquearam os recursos de sua sustentação em Caxias, os balaios a evacuaram e partiram à procura de outras vilas e cidades mais rentáveis para pilharem. Espalharam-se os bandos pelo Maranhão, levando o medo, a insegurança e a desordem por onde passavam, chegando mais uma vez a ameaçar São Luiz.

E foi nesta altura que a Regência decidiu enviar ao Maranhão, como seu Presidente e Comandante das Armas, o Coronel Luiz Alves de Lima e Silva - o futuro Duque de Caxias, para pacificar a Província.

Seu talento, aliado à boa estrela militar que havia revelado na Guerra da Independência da Bahia, na Guerra da Cisplatina, em 1825 – 1828, no subcomando do Batalhão Sagrado, na organização e no comando por cerca de 9 anos do que se constitui hoje a Policia Militar do Rio de Janeiro, com a qual superou ameaças ao Poder Central e a população carioca, por certo influíram na sua escolha pela Regência.

Ao futuro Caxias foi dada a missão de pacificar o Maranhão, ficando a ele subordinadas todas as tropas em operações do Maranhão e mais as do Piauí e do Ceará .

Em 7 de fevereiro de 1840, Caxias assumiu suas funções e dirigiu sua primeira proclamação aos maranhenses, dizendo-lhes a que vinha:

"(...) Maranhenses, venho partilhar de vossas fadigas e concorrer quanto em mim couber para a inteira e completa pacificação desta bela parte do Império.
Um punhado de facciosos, ávidos de pilhagem, conseguiu encher de consternação, de luto e de sangue, vossas cidades e vilas!
O terror que necessariamente deviam infundir-vos esses bandidos, concorreu para que eles tivessem engrossadas suas hordas.
Contudo, graças à Providência, as vitórias até hoje por eles alcançadas, começam a diminuir diante de vossas armas.
Mais um esforço e a desejada paz virá curar os males da guerra civil (...) Maranhenses, mais militar do que político, quero até ignorar os nomes dos partidos que por desgraça entre vós existam. Deveis conhecer a necessidade e as vantagens da riqueza e da prosperidade dos povos.
E confiando na Divina Providência que por tantas vezes nos tem salvado, espero encontrar em vós maranhenses, tudo o que for necessário para o triunfo de nossa causa (...)"

Esta proclamação, espalhada e meditada em todos os recantos do Maranhão, terminou resultando na aceitação de Caxias pelos partidos e pelo povo maranhense.

Como era de seu feitio, Caxias passou a organizar suas forças sem descurar da estrutura de apoio logístico. Colocou o pagamento da tropa em dia e a instruiu.

E assim, Caxias encontrou as tropas postas a sua disposição, segundo Vilhena de Moraes:

"As companhias inteiras vinham só com calças rotas ou de camisas e com o correame de couro cru sobre a pele. Uns só com espadas e outros com armas de caça. E a disciplina que apresentavam condizia com o grotesco de seus uniformes."

Criou então a Divisão Pacificadora, dividida em três colunas operacionais:

A 1ª coluna ocupou as comarcas de Caxias e Pastos Bons, ao comando do Tenente-Coronel Sérgio de Oliveira. A 2ª coluna, sob comando do Tenente-Coronel João Thomaz Henrique, atuaria nas regiões de Vargem Grande e Brejo e, a 3ª coluna, a comando do Coronel Souza Pinto Magalhães, atuou ocupando a Vila Icatu e as margens do rio Mearim.

Os revoltosos maranhenses ligados aos bem-te-vis eram estimados em 2000, na comarca de Brejo, e cerca de igual efetivo, na comarca de Pastos Bons, além de grupos esparsos em torno da cidade de Caxias.

Os revoltosos não possuíam bases fixas. Sua estratégia era de guerrilha rural. Atacavam só os pontos fracos das defesas do governo. A resposta a esta estratégia foi manter suficientemente guarnecidas as vilas e cidades mais importantes para os revoltosos. Foi a partir desses pontos fortes criados, que Caxias passou a combater a Balaiada, usando com frequência o cerco de contigentes rebeldes localizados.

Colocando o governo do Maranhão para funcionar a contento, com frequência Caxias deixou São Luis para dirigir pessoalmente as operações.

Usou como Posto de Comando o edificio da Câmara e Cadeia e a Casa da Pólvora. Prédios até hoje existentes e tombados pelo Patrimônio Histórico .

Com esta estratégia de sempre ser mais forte em todas as partes estratégicas para os balaios, aos poucos ele foi minando as forças dos revoltosos.

Engrossaram as hordas balaias escravos que, às centenas, fugiram de fazendas do vale do Itapicurú. Estes inicialmente se aquilombaram e depois passaram a atuar sob a liderança do negro Cosme Bento das Chagas, em número estimado de 3000 escravos.

Caxias, com apoio do futuro Almirante Tamandaré, chefe das Forças Navais, reprimiram em Itapicuru-Mirim um levante da guarnição local por atraso de soldos. Foi um confronto sangrento, mas terminou por restaurar a disciplina e punir e afastar os responsáveis.

Em 23 de agosto de 1840, ao ser conhecida no Maranhão a maioridade de D. Pedro II, Caxias achou o momento ideal para espalhar na Província a seguinte proclamação antológica, de que aqui se reproduz  o seu cerne:

"Maranhenses! Uma nova época abriu-se aos destinos da grande família brasileira. Sua majestade o Imperador empunhou o cetro da governança e assumiu os direitos que pela Constituição do Estado do Brasil lhe competem.

Declarado maior, ei-lo enfim como símbolo da paz, de união e de justiça colocado à frente da nação que o reclamava.

No interior da Província no meio dos bravos que defendem vossos bens e vidas, encontrou-me tão lisonjeira novidade. E se deixei aqueles bravos, pois por eles daqui me havia ausentado, é para confirmar o que sabeis, para participar do geral regozijo geral e aumentá-lo, se for possível, com a notícia da quase extinção da guerra civil. Restando apenas da terrível tempestade uma nuvem negra, que apesar de carrancuda breve será dissipada.

Maranhenses! Um sublime pensamento deve agora inflamar o coração brasileiro. Aspérrima foi a longa experiência. Aproveitai-a. Amor ao Imperador, respeito às leis e esquecimento das vergonhosas intrigas que só tem servido para enfraquecer. Um só partido enfim, o do Imperador. E no vosso entusiasmo repitam mil vezes. Viva sua Majestade o Senhor D. Pedro II, Imperador constitucional e defensor perpétuo do Brasil. Viva a nossa Santa Religião. Viva a Constituição do Governo.