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Revolução de 1932

Antecedentes
 
A revolução de 1932 teve suas origens nos mesmos conflitos políticos que geraram a de 1930. Esse movimento do povo paulista foi muito significativo no conjunto das revoluções republicanas brasileiras pelo que representou de mobilização de esforços, de dedicação à causa comum e de resistência.
 
Concorreram para sua eclosão as forças políticas alijadas do poder pela Revolução de 1930, as que não alcançaram o poder com o movimento e o anseio do povo paulista e de boa parte do brasileiro de ver legitimado por uma Constituição o governo recém-instaurado. Fora-se a República Velha e agora se apresentava outro quadro sócio-econômico e político, mas faltava-lhe autenticidade.
 
A República contara, em sua implantação, com uma elite de bacharéis e militares idealistas, com razoável uniformidade de propósitos. Todavia, a Revolução de 1930 foi um amontoado de tendências divergentes, não possuindo, de início, para guiar-lhe a ação reconstrutora, princípios orientadores e postulados ideológicos definidos que sintetizassem as aspirações dos que a tinham preconizado.
 
O fato de que se prolongasse além do necessário a vigência de um regime com poderes discricionários preocupava os adeptos da ordem jurídica. Por outro lado, os revolucionários veteranos das lutas de 1922 – 1930, os tenentes, não queriam vê-las desperdiçadas com a volta prematura das normas político-administrativas expurgadas pela revolução. Batiam-se pela continuação do governo discricionário até que realizasse integralmente seus fins, permitindo a transformação radical do ambiente brasileiro. No campo militar reivindicava-se, entre outras providências, a extinção das polícias militares estaduais.
 
Sobrepondo-se aos partidos e às novas correntes que se preparavam para substituí-los, o chamado movimento de outubro, expresso no Clube 3 de Outubro, englobou o tenentismo e os intransigentes. O General Goes Monteiro promoveu a sua criação em fevereiro de 1931 e foi o seu primeiro presidente. É possível que a sua intenção fosse o controle político dos tenentes.
 
No mesmo ano de 1931, em 26 de fevereiro, nasceu em Minas Gerais a Legião de Outubro, dirigida por Francisco Campos, Gustavo Capanema e Amaro Lanari. A Legião "não será uma Liga de carbonários, nem uma casta de agitadores..., mas se propõe uma dupla finalidade, a de defender a vitória da revolução brasileira e a realizar os seus ideais". Vargas submeteu-se, não se sabe se de bom grado, durante os primeiros meses pós-revolucionários, a essa imposição que o colocou sob a tutela do outubrismo.
 
A desejada reconstitucionalização que estava sendo adiada contava com a ajuda das próprias inclinações de Vargas. Em 4 de março de 1932, discursando aos outubristas, Getúlio insistia na necessidade de proceder à reconstrução moral e material da Pátria. "Sobre o terreno limpo das ervas daninhas, que o esterilizavam, a futura Constituinte, eleita pelo povo, delineará os rumos novos de uma organização política adaptada às condições da comunhão brasileira". E advertiu: "O regresso ao regime constitucional não pode ser, nem será, contudo, uma volta ao passado, sob a batuta das carpideiras da situação deposta".
 
Paulista e civil
 
Acentuava-se a luta entre os tenentes e os políticos da velha guarda, desejando uns, através de pactos e da ação do Clube 3 de Outubro, a permanência da ditadura, e outros, apelidados de carcomidos, a imediata realização de eleições, a instalação da Constituinte e a reabertura do Congresso.
 
O predomínio de militares nas interventorias originaria uma crise justamente em São Paulo, reduto do velho Partido Republicano Paulista (PRP), que lutava agora pela sobrevivência, apreensivo com as vitórias de seu rival, o Partido Democrático. A designação do pernambucano e líder tenentista João Alberto Lins de Barros, de início, como Delegado Militar da Revolução e depois como Interventor Federal em São Paulo, acendeu o estopim da luta, primeiro surdamente, a seguir declaradamente, através da reivindicação da governança para um paulista e civil. A aspiração dos democráticos de São Paulo a governar o seu Estado foram desprezadas com a escolha do tenente que derrotara não só o seu correligionário Miguel Costa, como alijara o grande líder civil, Professor Francisco Morato, do Partido Democrático.
 
A compressão política aplicada ao Estado, com claros intuitos de destruir a sua incontrastável hegemonia na direção econômica do pais, mantida desde os primórdios republicanos, não seria tolerada passivamente. A paz tornara-se, de novo, quase um sonho impossível. A Revolução Constitucionalista explodiu em 1932, com o ímpeto e as características de verdadeira guerra civil, onde não faltaram até pruridos separatistas, desde logo sufocados pelo indiscutível sentimento nacionalista dos militares que a chefiaram e dos paulistas que os seguiram.
 
Causas da revolução
 
As causas da Revolução de 1932 situam-se nos campos político, econômico, psicossocial e militar.
 
No campo político ressaltam as divergências existentes entre os próprios revolucionários e entre os tenentes e outubristas e o Partido Democrático. De fato, todos davam apoio à Revolução de 1930, comungavam de seus ideais, mas divergiam na execução da política e na administração; havia ainda uma luta declarada pelos postos de mando. As diferenças culminaram com a interventoria do Tenente João Alberto, com o rompimento declarado, público e definitivo do Partido Democrático com o interventor e posteriormente, com Getúlio, que apoiava a autoridade estadual.
Em pouco tempo, face à crescente hostilização dos radicais, os democratas, a princípio timidamente e depois aberta e claramente, desenvolviam gestões para se aliarem aos perrepistas.
 
A bandeira desfraldada englobava os princípios da constitucionalização do país e da escolha pelo povo paulista de seus próprios governantes. O primeiro princípio era natural, já que, implantado o novo sistema, consolidadas as posições e eliminadas as resistências, não havia motivo para adiar a restauração da prática democrática; o governo devia realizar eleições, outorgar à nova Assembléia de representantes o poder para colocar em vigência uma nova Constituição que legitimasse o movimento e possibilitasse o retorno da vida pública ao império da lei.
 
Quanto ao segundo princípio, justificava-se diante da insistência do poder revolucionário em nomear sucessivos interventores vindos de fora para conduzir a administração, esquecido de que notável parcela de paulistas não só apoiara o movimento de 1930 como se arregimentara em um partido que dava sustentação política ao governo federal.
 
Apanhados desprevenidos e vulneráveis, os outubristas procuraram hostilizar francamente a colisão de democráticos e perrepistas. Mas receberam em resposta a aglutinação compacta da frente, com a adesão de todos os paulistas, irmanados pela mesma causa. O chefe do governo provisório tentou contemporizar, mas conduziu mal as gestões, provocando mais hostilidade e estimulando os conchavos para o movimento armado.
 
Na verdade, em nenhum momento tentou o poder central conciliação, em particular por estar o chefe do governo provisório mal informado por seus assessores. Passou assim a oportunidade para soluções pacíficas.
 
No setor econômico as causas eram resultantes da profunda crise em que se debatia o mundo. A baixa dos preços do café abalou não só a situação econômica de São Paulo, mas de toda a Nação.
 
No campo psicossocial, em decorrência da crise econômica, o êxodo rural, o desemprego, a má remuneração salarial e a falta de melhores oportunidades tornaram as pessoas presas fáceis das paixões, quer do radicalismo outubrista, quer do constitucionalismo.
 
Na área militar, além do tenentismo, a conspiração do General Isidoro Dias Lopes, antigo revolucionário, introduziu uma cunha na coesão entre as unidades das Forças Armadas sediadas no Estado de São Paulo.
 
A ação do General Bertholdo Klinger, por sua vez, abrindo campanha contra chefes militares e finalmente contra o próprio Ministro da Guerra, General reformado Augusto Inácio do Espírito Santo Cardoso, abalou o campo militar, resultando em sua transferência para a reserva e na perda do comando da Circunscrição de Mato Grosso, o que o privava de meios precisos para a revolução que se avizinhava.
 
A motivação direta do movimento veio de pequenas ocorrências nos diversos setores, que por si só não se tornariam motivo de maiores cuidados, mas, somadas, contribuíram decisivamente para a cisão e para o conflito.
 
O acordo político entre as lideranças de São Paulo e do governo provisório, do qual tinha sido fiador o General Goes Monteiro quando comandante da 2ª Região Militar, teria dado a São Paulo o direito de resolver problemas paulistas. Em 13 de julho de 1938, João Alberto foi demitido da interventoria paulista. A vacância do cargo de interventor permaneceu e não foi bem aceita.
 
Depois de entendimentos e concessões, veio a nomeação do Juiz Laudo Ferreira de Camargo para a interventoria em 23 de julho. Homem íntegro e pouco flexível, não se adaptou às pressões políticas. A sua presença fez, é certo, baixar o nível das agitações. Uma onda de boa fé acalmou temporariamente os ânimos.
 
Sua saída, em 13 de novembro de 1931, foi uma conseqüência da trama urdida pelos alijados da interventoria, principalmente dos legionários outubristas que não se conformaram com o acordo entre a revolução e os vencidos, esquecidos de que o Partido Democrático fora o suporte político do movimento revolucionário e agora se afastava mais pelos desmandos das interventorias e assessores do que por desacordos com o governo provisório.
 
Eclosão
 
A última crise política paulista levou à escolha do Embaixador Pedro de Toledo, que a 7 de março de 1932 assumiu a interventoria de São Paulo.
 
Com a presença do Ministro Oswaldo Aranha, na segunda quinzena de maio, para impor ao interventor um secretariado afinado com o governo, a irritação do povo tomou corpo e se materializou nas ruas com discursos inflamados e radicais que culminaram com a investida (23 de maio) contra a sede da Legião Revolucionária Getulista, fundada por Miguel Costa. No choque, em que os sitiados reagiram com fogo de metralhadora e com granadas de mão, feriram-se diversas pessoas, morrendo quatro jovens estudantes. As letras iniciais dos nomes como eram conhecidos os falecidos (Miragaia, Martins, Dráusio e Camargo) formaram a sigla do movimento cívico que congregou os paulistas – MMDC. Muitos situam o início da Revolução Constitucionalista nesses dias trágicos de maio de 1932.
 
Organização civil do movimento no interior
 
A estrutura do movimento no interior do Estado foi organizada em distritos e municípios.
 
O plano como foi concebido e posteriormente posto em execução apresentou defeitos que concorreram para o fracasso do levante. Era eminentemente defensivo, não explorava a vantagem da surpresa inicial, deixava de definir o objetivo e não ia buscar a decisão no Rio de Janeiro, como seria de esperar. Não prevendo ligação com outros Estados, não os induzia a uma definição ou a outra forma de comprometimento, permitindo que unidades quase engajadas no movimento viessem a combatê-lo na segunda fase da campanha, comandadas pelos governistas.
 
Cabe também citar a ausência de um sistema de mobilização industrial, o que dentro da concepção do plano de operações seria obrigatório. Na prática, o que aconteceu foram improvisações e iniciativas pessoais, bem aquém das necessidades de apoio logístico que o combate exigia. Apesar de esforços feitos posteriormente para justificar as decisões de 1932, é certo que o planejamento da revolta foi de concepção militar, objetivando um conflito maior e não apenas uma rebelião armada sem muito apoio das forças militares, mesmo nos locais das decisões político-administrativas.
 
Depois de vários entendimentos, estourou a revolução em 9 de julho. Pedro de Toledo renunciou ao cargo que exercia.
 
Desencadeado o levante, assumiu o comando da 2ª Região Militar o Coronel Euclides de Oliviera Figueiredo em 10 de julho; no entanto, o comando político da revolução entendeu que se deveria convocar para conduzir as operações o General Bertholdo Klinger, que, reformado administrativamente, aguardava o chamado de São Paulo. Desta forma, a revolta paulista contava com dois excelentes e renomados militares; ambos auferiram ensinamentos no Exército alemão e, pertencentes ao grupo dos Jovens Turcos, participaram da fundação da Revista A Defesa Nacional.
 
Os revolucionários previam que o movimento alcançaria outros Estados. Mas este plano falhou. Flores da Cunha, no Rio Grande do Sul, colocou-se ao lado de Vargas. Em Minas Gerais, Artur Bernardes não conseguiu provocar um pretendido levante da Polícia Militar. João Alberto, nomeado Chefe de Polícia do Distrito Federal, reprimiu as ações de adesão aos paulistas.
 
Tropas constitucionalistas
 
No vale do Paraíba, e a cavaleiro do eixo rodo-ferroviário que liga Rio de Janeiro e São Paulo, atuariam destacamentos sob o comando do Coronel Euclides Figueiredo, que passaram a chamar-se de 2ª DIO, Divisão de Infantaria em Operações. O grupo compreendia os destacamentos do Coronel Andrade (principal), do Major Agnelo Souza, do Coronel Abílio de Resende e do Coronel Paiva de Sampaio; em segundo escalão estava o do Coronel Mário da Veiga Abreu.
 
Dominando a Ferrovia Sul-Mineira atuaria o Destacamento Sampaio, com o posto de comando em Cruzeiro e uma linha de postos avançados no maciço da Mantiqueira, em território mineiro; sua missão consistia em cobrir o flanco esquerdo do destacamento Agnelo. Na mesma região e a cavaleiro da rodovia Piquete-Itajubá, atuaria o Destacamento Abílio de Resende, com o posto de comando em Piquete.
 
No restante da frente de Minas até o Paraná os constitucionalistas eram representados por fracos elementos da Força Pública, com alguns reforços decorrentes da mobilização, e mantinham uma tênue vigilância no arco constituído pelas localidades de Bragança Paulista, Campinas, Ribeirão Preto, Uberaba, São José do Rio Pardo e Guaxupé. A coluna mais importante era do Capitão Romão Gomes.
 
A junção das forças de São Paulo e de Mato Grosso materializou-se com o deslocamento de um esquadrão de cavalaria, de uma bateria de artilharia, de uma companhia de um batalhão da Força Pública e de um batalhão de caçadores voluntários (Batalhão Taunay).
 
Verificou-se que a situação em Mato Grosso não era inteiramente satisfatória. A aliança entre os dois Estados ocorria apenas no plano teórico, pois não havia ligação efetiva e permanente entre as forças em operações, o que constituía uma vulnerabilidade.
 
Na frente paranaense foram considerados prioritários o baixo Paranapanema, sob o comando do Coronel Pedro Dias, e Itararé, confiada ao Coronel Brasílio Taborda.
 
Em Santos, os constitucionalistas contavam com o Forte de Itaipu, o 6º Batalhão de Caçadores Paulistas e mais duas companhias de fuzileiros, uma do 5º e outra do 6º Regimento de Infantaria.
 
Objetivando conseguir armamentos, o comando revolucionário enviou aos Estados Unidos Manoel José Ferreira. Nesse país comprou o iate Ruth e algum material bélico, tudo apreendido pelos legalistas quando efetuava o desembarque no litoral paulista. O mesmo ocorreu com a carga de 50 canhões antiaéreos que se encontravam no navio Jaboatão.
 
Forças governistas
 
No vale do Paraíba atuava o destacamento do Exército do Leste, comandado pelo General Pedro Aurélio de Goes Monteiro, que tinha sob sua responsabilidade todos os setores que convergiam para o vale pelo eixo Rio – São Paulo, ou pelo litoral, provenientes de desembarques em Angra dos Reis e Parati. Seu chefe de estado-maior era o Coronel Pantaleão Pessoa. O posto de comando ficou instalado em Resende. Contavam com aviões Waco, apelidados de vermelhinhos.
 
No restante da frente, de Minas Gerais até o rio Paraná, existia um destacamento de valor brigada, sob o comando do Coronel Francisco Jorge Pinheiro, que assim se desdobrou:
  • um destacamento orientado sobre Ribeirão Preto, ao comando do Coronel Manuel Rabelo e cuja missão principal era cobrir o acesso de Mato Grosso, via Santana do Paranaíba – Porto do Tabuado;
  • destacamentos nas regiões de Guaxupé, de Ouro Fino, de Pouso Alegre, de Itajubá e no eixo Passa-Quatro – Cruzeiro, ao comando do Coronel Cristóvão Barcelos.
Na frente mato-grossense:
  • parte do destacamento do Coronel Manuel Rabelo:
  • destacamentos na região de Foz do Iguaçu (sobre Campanário), na direção geral de Ponta-Porã; em Porto Murtinho e em Cuiabá.
Na frente paranaense (a do Exército do Sul), sob a responsabilidade do General Waldomiro Castilho de Lima, estavam:
  • um destacamento central, a cavaleiro da ferrovia Parana – São Paulo;
  • destacamento sobre Ribeira – Apiaí e Ribeirão Branco – Guapiara, na região de Jacarezinho, formado por voluntários ao comando do Coronel João Francisco, da Brigada Militar, conhecido como "a hiena do Cati".
Na frente costeira:
  • uma divisão naval de bloqueio, com aviação própria, nas proximidades de Santos;
  • um destacamento com predominância de fuzileiros navais, entre Cunha e Parati.
As forças terrestres governistas receberam apoio da Aviação do Exército.
 
A organização revolucionária apoiava-se nas lideranças políticas locais, quer do Partido Democrático, quer do Partido Republicano Paulista, os quais dividiam o poder em razão do acordo da Frente Única.
 
Desenrolar dos acontecimentos
 
Na frente do vale do Paraíba os destacamentos Agnelo e Andrade progrediram, atingindo Salto e Formoso, mas não puderam prosseguir, pois encontraram forças oponentes na região do Clube dos Duzentos, em Itatiaia. O primeiro destacamento ocupou e manteve até o fim do mês de julho a região de Engenheiro Passos. Esta posição das forças constitucionalistas ameaçava o posto de comando do destacamento do Exército do Leste, situado em Resende. As tropas do governo reagiram e os revolucionários recuaram para Queluz, em agosto. As forças de Goes Monteiro bombardeavam Cruzeiro com aviação e artilharia. Canhões de longo alcance da Marinha, montados em vagões ferroviários, atiravam sobre a estação de Vila Queimada.
 
Surgiu então a oportunidade de o canhão 155 de Itaipu, montado também em vagões ferroviários, revidar aos ataques governistas. No decorrer de agosto, agravou-se a situação e uma nova posição, preparada por sapadores civis na linha Vila Queimada – Lavrinhas, foi efetivamente ocupada na noite de 2 de setembro.
 
Na frente de Silveiras, as forças constitucionalistas esboçaram ainda uma reação, infligindo revés ao 19º Batalhão de Caçadores, mas o adversário contra-atacou e houve alternância de vantagens. A 12 de setembro, os constitucionalistas refluíram para Jataí.
 
No setor do túnel da Mantiqueira, em Cruzeiro, os picos da Gomeira, do Cristal, do Itaguaré e da Gomeirinha materializavam a linha de resistência dos constitucionalistas. Trocaram-se aí os primeiros tiros (16 de julho); o combate recrudesceu a 22 e prosseguiu até 27 com baixas para ambos os lados, quando então a frente se estabilizou. A 8 de setembro, as tropas governistas tornaram a investir, provocando retraimentos do adversário. Ameaçado na retaguarda pelo destacamento do Exército de Leste que progredia sobre Cruzeiro, não teve alternativa senão abandonar todo o setor do túnel.
 
Na área de Piquete, a preocupação da tropa constitucionalista era a segurança da fábrica de pólvora do Exército. Manteve-se a situação nesta frente. Em meados de setembro, a linha mais avançada no vale do Paraíba estava delineada por Piquete, Túnel, Fazenda Boa Vista, Pinheiros, Lavrinhas e Jataí. A 11, começou a retirada do material pesado e de parte da população civil. A queda de Cachoeirinha determinou um recuo em toda a frente do vale. As forças do governo bombardearam as posições adversárias com aviões e artilharia de todos os calibres. O retraimento na frente do Paraíba para Guaratinguetá ocasionou o inevitável reflexo na do litoral, obrigando ao recuo dos destacamentos em frente a Cunha e Parati para nova posição nas alturas da serra de Quebra Cangalha.
 
No restante da frente mineira as tropas constitucionalistas estavam nucleadas em Bragança, Campinas, Mogi-Mirim, São José do Rio Pardo e Ribeirão Preto.
 
No setor Campinas – Mogi-Mirim, a partir de 17 de julho, houve uma ofensiva sobre Guaxupé, Pouso Alegre e Itajubá, com avanço simultâneo de São João da Boa Vista, Espírito Santo do Pinhal, Itapira, Mogi-Mirim, Socorro e Bandeirante. Foram conquistados Ouro Fino e Guaxupé; um entendimento entre os contendores resultou no Convênio de Guaxupé, que resguardava o respeito mútuo aos territórios estaduais. Em conseqüência, a tropa constitucionalista retraiu para São José do Rio Pardo, Eleutério, Espírito Santo do Pinhal, Barão de Ataliba e Socorro. O convênio foi mais tarde desrespeitado.
 
As tropas do governo atacaram São Roque, Fartura, Recreio e Eleutério, mas foram detidas. Passados três dias, renovou-se a investida, com vantagens e reveses alternativos, não se definindo a situação até que a 26, por escassez de munição e grande inferioridade numérica, os constitucionalistas cederam Eleutério e Ataliba e voltaram para a linha do rio do Peixe. A 30, foram forçados a novo retraimento, desta feita para Mogi-Mirim. A situação deteriorava-se rapidamente graças à ação fulminante dos governistas. A 31 de agosto, o Alto Comando Militar da revolução pensou em estabelecer uma forte resistência na região de Campinas.
 
Destacou-se, nesta frente de operações, o trabalho do Capitão Romão Gomes, promovido a major pelos seus feitos em campanha. À frente de seus voluntários, tão inexperientes no combate como ele mesmo, passou à contra-ofensiva com a técnica do fustigamento e fuga, inquietando as colunas governistas.
 
 
Em meados de setembro a linha de contato era balizada pelas seguintes localidades:
  • no setor da Mogiana: Barretos, Orlândia, Batatais, Cajuru, Caconde, Mococa, São José do Rio Pardo, Casa Branca, Vargem Grande, São João da Boa Vista e Cascavel;
  • no setor da Estrada de Ferro Paulista: Baldeação, Palmeiras, Pirassununga, Leme, Araras, Cordeiro.
Estabelecera-se contato nas localidades de Limeira, Campinas e Bragança. Nessa frente era grande a economia de forças pelo emprego de pequenos efetivos sobre os eixos, lançando mão os constitucionalistas de minagem do terreno, como em Barretos.
 
Na frente paranaense, a atividade, de início, restringiu-se a patrulhamento e contatos com pequenos efetivos. A hesitação das forças constitucionalistas em executar a ofensiva, em vista de diversos problemas, entre eles o de comando, permitiu que as tropas governistas, constituídas na maioria por elementos da Brigada Militar e corpos provisórios gaúchos, cerrassem sobre São Paulo, conseguindo reforçar o efetivo na passagem pelo Paraná com as forças do Exército ainda não engajadas.
 
A força governamental passou à ofensiva, que teve curta duração, pois houve um levante de Borges de Medeiros no Rio Grande do Sul contra o interventor Flores da Cunha. Ocorreu então uma rápida e fulminante reação das tropas governistas e a prisão de Borges de Medeiros com todo seu comando revolucionário. Esta ação determinou o retorno de elementos gaúchos àquele Estado, diminuindo os efetivos necessários à operação em curso. Com isto o avanço governista perdeu a impulsão e a frente estabilizou-se em julho.
 
No lado paulista ocorreram novas modificações com a chegada do Coronel Brasílio Taborda, que tratou de dar um certo ordenamento à frente e aos destacamentos.
 
Um aspecto importante desta fase foi a luta por Buri, onde ao desejo de reconquista dos paulistas opôs-se a denodada resistência dos ocupantes.
 
Nos primeiros dias de agosto, era evidente a pressão dos governistas. Seus reflexos fizeram-se sentir no deslocamento do Coronel Taborda; ele optou por uma retirada com ação retardadora, defendendo o terreno primeiramente na linha do Apiaí-Mirim e depois na do Paranapanema-Alves. Na primeira ação impunha-se a posse de uma cabeça-de-ponte em Buri. Com esse fim, montou-se um ataque previsto para 13 de agosto, com três colunas avançando simultaneamente e convergindo sobre a localidade. A manobra exigiu muita coordenação e controle. A inadvertência de uma das colunas, abrindo fogo antes do tempo, prejudicou a operação que tivera algum êxito inicial.
 
A 15 e 16 de agosto, deu-se o embate decisivo no setor do Coronel Taborda, que agora enfrentava um destacamento do Exército do Sul sob o comando de Vitorino Carmilo. O confronto ficou conhecido como Segunda Batalha do Buri.
 
A iniciativa das ações coube às forças governamentais que, combinando fogo e movimento, pressionaram os constitucionalistas contra as barrancas do rio Paranapanema. O mês de agosto chegou ao seu ocaso oferecendo aos paulistas perspectiva bem diferente da vislumbrada em julho. Os retraimentos sucessivos levaram a linha de contato para o corte dos rios Paranapanema e das Almas. Somente 20 quilômetros separavam Buri desta linha. Embora os constitucionalistas tenham sofrido seguidos reveses, transformara-se uma bem sucedida ofensiva do destacamento do Exército do Sul numa ação defensiva vitoriosa dos adversários. O Coronel Taborda trocara espaço por tempo, mas o tempo não lhe traria a recompensa prometida. Em meados de setembro, ele desencadeou uma ofensiva geral que obteve poucos resultados.
 
Na frente de Mato Grosso, no setor de Bela Vista, as primeiras ações foram desenvolvidas pelo 10º Regimento de Cavalaria, que ocupou parte da cidade. Forças constitucionalistas vindas de Campo Grande enfrentaram parte do regimento e tentaram o aliciamento dos quadros da unidade fiéis ao governo. Um grupo de militares decidiu-se pelo internamento no Paraguai e a resistência cessou.
 
O próximo objetivo seria Porto Murtinho, já que apresentava alto interesse para a causa de São Paulo, quer para dar continuidade à exportação de café e conseqüente obtenção de fundos para o prosseguimento da luta, quer para liberar as forças empenhadas nas operações. O combate em torno da cidade permaneceu indefinido, dado o equilíbrio de forças, e somente a 12 de setembro os governistas puderam aliviar a situação desvantajosa em que se encontravam, recalcando os adversários. No mês de setembro, a situação em Porto Esperança era favorável aos revolucionários, uma vez que ali os governistas possuíam efetivos pequenos, dado tratar-se de setor secundário.
 
No eixo Campo Grande – Cuiabá os constitucionalistas estabeleceram-se defensivamente em Coxim, visando a impedir qualquer ação ofensiva por parte da tropa adversária sediada em Cuiabá, caso buscasse junção com as forças provenientes de Minas, isolando Mato Grosso e São Paulo.
 
A frente de Três Lagoas mereceu desde cedo atenção especial de parte do alto comando rebelde, pois previa-se a invasão de Mato Grosso por tropas vindas de Minas. A 21 de agosto, a posição no rio Quitéria foi abandonada, sendo ocupada a linha do rio Sucuriú.
 
Na frente costeira, em razão do conflito inicial de autoridade, motivado por questão hierárquica, o comando do setor do Forte de Itaipu tornara-se independente do de Santos. A unificação deles só se efetivou mais tarde, ocasionando problemas. A frente permaneceu passiva, desde o início das hostilidades até a rendição dos revolucionários, não havendo troca de fogos entre as unidades de Artilharia de Costa e a esquadra governista que atuava como força de bloqueio no porto de Santos.
 
Desde os primeiros embates, a Aviação do Exército e a da Marinha, fiéis ao governo, conseguiram a supremacia aérea. O Tenente Francisco de Assis Correa de Melo destacou-se pelos vôos de audácia e perícia. Não conseguiram impedir no entanto as incursões aéreas dos oito aviões "Waco" constitucionalistas. As missões de bombardeio quase nenhum efeito prático tiveram, mas as de reconhecimento foram de grande valia para se conhecer as posições e a localização das tropas em deslocamento, assim também como para o lançamento de panfletos, em operações de guerra psicológica.
 
Ao final de setembro, a situação ia-se tornando insustentável devido ao problema econômico do Estado e à falta de suprimento, em especial de munição, e, especialmente, pelo abatimento moral do comando político da revolução.
 
Nesta época ocorreu a primeira tentativa de negociar a cessação das hostilidades por iniciativa do General Klinger, em carta enviada ao General Mena Barreto a 14 de setembro.
 
Mais organizados, bem supridos, comandados e enquadrados, os governistas prepararam para a primeira quinzena de setembro a grande ofensiva sobre os últimos redutos defensivos constitucionalistas. As tropas do setor de Minas ocuparam Jundiaí e Itu, em ações rápidas, apertando o cerco em Campinas. O eixo da São Paulo Railway e o da Estrada de Ferro Sorocabana receberam novas forças.
 
Pequenos destacamentos apossaram-se dos principais centros de comunicação. No vale do Paraíba, as forças sob o comando do General Daltro Filho e do General Newton Cavalcante avançaram sobre São Paulo, a cavaleiro da Estrada de Ferro Central do Brasil e da rodovia entre as duas cidades. Ia-se fechando o arco sobre Guaratinguetá, após a perda das posições do Túnel da Mantiqueira e de Cunha.
 
Em setembro, a ofensiva geral estava prestes a desencadear-se, quando o General Goes Monteiro recebeu telegrama de Getúlio Vargas determinando reduzir as operações de combate e insinuando mesmo uma trégua, já que estavam em curso negociações para a rendição. Getúlio delegava também ao general poderes para, em nome do governo, estabelecer as cláusulas de um acordo militar a ser negociado pelo comando das forças beligerantes.
 
A Convenção foi um exemplo de correção, de humanidade e de espírito democrático, emprestando grandeza ao Governo no momento da vitória. Constava do documento o seguinte:
 
"Reconhecendo a extraordinária resistência e bravura com que se bateram as tropas paulistas, de modo geral, prestando uma homenagem aos nobres sentimentos daqueles que daqui por diante quiserem contribuir para a união dos brasileiros e trabalhar para que se extingam, o mais cedo possível, os efeitos da luta armada como as dissensões e ressentimentos políticos; considerando a necessidade de restabelecer a coesão e a disciplina das Forças Armadas, a bem dos interesses superiores da Nação, uma vez terminada a luta pelas armas e reconhecida a autoridade do Governo da União com a submissão completa das FC (Forças Constitucionalistas), os comandantes dos dois destacamentos de Exército se empenharão junto ao governo provisório:
 
"a) para limitar a proporções as mais reduzidas a apuração das responsabilidades pelos acontecimentos transcorridos em São Paulo e noutros pontos do país, de modo a que incida apenas sobre as garantias de ordem político-militar e jurídico-criminal, necessárias para evitar a reprodução de acontecimentos idênticos, obtenha-se a restauração do organismo nacional e a satisfação das aspirações de todo povo brasileiro ao qual pertence, como um dos mais fecundos, o glorioso povo paulista.
 
b) para entregar os oficiais das tropas irregulares paulistas que se acham prisioneiros (...)"
 
Capitulação e exílio
 
O acordo militar não foi assinado por todos os chefes militares constitucionalistas, uma vez que a intenção de suspender as hostilidades não fora previamente discutida e aprovada. Fora iniciativa do General Klinger, que enviara seus representantes ao General Goes Monteiro. Os representantes do comando da Força Pública, contudo, aceitaram as imposições após reunião em separado com o chefe do estado-maior do Destacamento do Exército do Leste, Coronel Pantaleão Pessoa.
 
Ao término do movimento revolucionário, ressurgiram os problemas de comando entre os altos chefes constitucionalistas. Divergiam o General Klinger, comandante-em-chefe das forças, e o Coronel Euclides Figueiredo, comandante da 2ª Divisão de Infantaria em Operações, já que o último questionava a legitimidade da iniciativa quanto ao término da luta. Algumas tentativas de continuar ainda foram feitas, mas afinal caíram por terra, face ao desequilíbrio das forças em condições de prosseguir nas operações. Muitos combatentes, embora fatigados daqueles meses de luta, não queriam aceitar a derrota. Preferiam uma retirada para Mato Grosso, combatendo sempre. Acabaram, no entanto, por se inclinar à inelutável realidade, quando as tropas começaram a ser desmobilizadas.
 
Os principais líderes constitucionalistas foram detidos a bordo do Pedro I e logo depois no Siqueira Campos. Acabaram exilados em Lisboa, ficando impedidos de votar e serem votados nas eleições de 1933.
 
Não obstante a capitulação, São Paulo estava vitorioso na paz. O sangue derramado não foi em vão. Getúlio Vargas fora magnânimo na vitória. Respeitou o adversário que se batera valentemente. São Paulo foi tratado com nobreza. Além disso, verificou-se o desmantelamento do tenentismo e do outubrismo. Os revolucionários de outubro, a partir daí, em desespero, desviaram-se para a esquerda, que transitaria do socialismo em 1933 para a Aliança Nacional Libertadora dois anos mais tarde.
 
A eleição da Constituinte e a promulgação da Constituição em 1934 vieram enfatizar a vitória moral, que mais se acentuou com a nomeação de Armando de Sales Oliveira para a interventoria paulista, sucedendo a Herculano de Carvalho e Silva e ao General Waldomiro Castilho de Lima.
 
Comenta Pedro Calmon:
 
"O General Daltro Filho foi quem deu posse ao engenheiro Armando de Sales Oliveira recomendável, por suas nobres qualidades pessoais, e até pelo alheamento partidário, para a função e a conjuntura. Exerceu-a com circunspecção e dinamismo (...) mas disposto a reerguer São Paulo ao nível das altas soluções da República. Tornou-se natural pretendente à chefia da nação em 1936.
 
Guerra surpreendente
 
É justo ressaltar, na parte da mobilização para a campanha de São Paulo, o esforço do povo e das indústrias para, em prazo considerado impossível, quase sempre de improviso, criar linhas de produção de uniformes, equipamentos, munição, armamento, máscaras contra gases, veículos blindados, instrumentos óticos, material de saúde e suprimentos em condições de serem conservados por longos períodos. Entre as armas fabricadas pelos paulistas, ficou famoso o Morteiro Major Marcelino (MMM), construído pelo oficial da Força Pública deste nome e pelo engenheiro Jorge de Resende. Outra invenção, a matraca, consistia em um aparelho que reproduzia o ruído do fogo de metralhadora.
 
As bombardas, munição de morteiro, tiveram sua produção estimulada e aumentada em razão da carência de artilharia no apoio às ações em diversas frentes.
 
A mobilização de pessoal, no seu terceiro dia, atingia a cifra, espantosa para a época, de 50 mil homens, na maioria voluntários, posteriormente organizados em batalhões improvisados. Faltava instrução, quadros e armamento, mas não vontade de lutar.
 
Também foi extraordinária a mobilização dos governistas. Em menos de duas semanas o governo conduzia de forma ordenada a convocação de pessoal e a mobilização de material, ainda que parcial, realizando também com firmeza e decisão o isolamento revolucionário.
 
A guerra psicológica não foi esquecida por ambos os lados. As populações tornaram-se objeto de atenção especial dos propagandistas, que visavam fomentar a divisão e a desconfiança, bem como abalar o moral e o apoio do movimento da resistência.
 
Causas da derrota e da vitória
 
Entre as causas da derrota, pode-se citar o despreparo militar da força constitucionalista, quer no plano material, quer no pessoal; ela ressentia-se da falta de quadros para o efetivo enorme de voluntários que se apresentou.
 
A timidez defensiva dos constitucionalistas era decorrente de estarem imbuídos da idéia de "guerra" em vez da de "revolução". Por isso as forças revolucionárias ficaram paradas, abstendo-se de levar a decisão pelas armas ao centro político da Nação.
 
A ausência de ligações mais estreitas dos revoltosos com o Rio Grande do Sul, Mato Grosso e Minas Gerais provocou a diluição dos movimentos nos Estados do Rio Grande do Sul e Minas Gerais, permitindo o isolamento e conseqüente separação das forças revolucionárias de Mato Grosso e São Paulo.
 
A improvisação de grandes-unidades, grandes-comandos e da cadeia de apoio logístico foi agravada pela deficiência de comunicações.
 
 A principal causa do sucesso dos governistas foi o envolvimento imediato seguido do isolamento de todo o território conflagrado, aliado à ação política preventiva contra adesões ou cisões no bloco governamental, obrigando desde logo as forças constitucionalistas a combaterem em três frentes importantes.
 
Pode-se também citar como causas:
  • o desenvolvimento de eficaz ação diplomática, impedindo o reconhecimento do estado de beligerância por parte de qualquer Nação;
  • a descentralização das operações de combate, atribuindo aos comandantes de destacamento a iniciativa e a responsabilidade pelas decisões militares;
  • a constituição de grandes-comandos e grandes-unidades, com adequado apoio logístico.
A Revolução de 1932 foi o maior movimento armado da nossa História. O valor e a capacidade do homem brasileiro, face às adversidades, superaram todas as expectativas, não só no campo material, das improvisações e da engenhosidade, mas também da elevação moral para a defesa de suas convicções.