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Guerra da Tríplice Aliança VI – Campanha de 1866-1870

Caracterização da área e preliminares.


A área de operações compreendia o atual território da República do Paraguai e se caracterizava por sua posição central no continente sul-americano, cercado de extensos territórios pertencentes ao Brasil, à Argentina e à Bolívia, na época praticamente despovoados. Não havia mapas que permitissem o conhecimento da região. O terreno apresentava-se baixo, com algumas elevações isoladas e uma região de cordilheiras a nordeste. Dois grandes rios cortavam a área: o Paraguai, que dividia o país ao meio e permitia a navegação até o interior de Mato Grosso por navios de certo calado; e o Paraná, que era navegável em grande trecho. A vegetação alternava-se entre florestas, savanas e campos de pastagem.

Do ponto de vista militar, a melhor via de acesso ao núcleo central do país era o rio Paraguai, e Assunção, a capital, era o grande objetivo estratégico a ser atingido.

Plano de operações de Caxias.

As operações conduzidas pela Tríplice Aliança no sul do Paraguai identificavam-se com o quadro estratégico esboçado por Caxias logo ao irromper a guerra, a 25 de janeiro de 1865, a pedido do Ministro da Guerra. O plano mostrava a objetividade do futuro patrono do Exército ao considerar a linha de conduta a ser mantida após a invasão empreendida por López, de surpresa, a Mato Grosso e ao Rio Grande.

O Ministro da Guerra, Henrique Beaurepaire-Rohan, percebendo as limitações face à situação de beligerância, solicitou apoio do Marquês de Caxias que se pôs de imediato a auxiliá-lo. Contando com isso, o Ministro remeteu a Caxias, em 20 de janeiro de 1865, um questionário para que apresentasse sugestões para a organização de um exército de campanha e um plano de guerra, nestes termos:
"1º" – A que número de praças das diferentes armas deveremos elevar nosso Exército em relação à guerra com o Estado do Paraguai? 2º – Quais os recursos de que devemos lançar mão para que esse Exército se possa organizar com presteza ? 3º – Qual o melhor plano de campanha a adotar-se para assegurar o triunfo de nossas armas? 4º – Se acha conveniente que os corpos que vão chegando das Províncias do Norte sigam imediatamente a se reunirem ao Exército em operações ou se convém demorá-los na Corte para serem convenientemente exercitados ?

"Além desses quesitos espero que V. Excia. me comunicará qualquer idéia sua que possa interessar a nossos preparativos de guerra, quer em relação ao ataque quer em relação à defesa de alguns pontos de nossa fronteira".

Caxias respondeu a todos os quesitos. Transcreve-se, na íntegra, o que escreveu sobre a terceira indagação:

"Julgo que convém dividir o Exército em três colunas, ou Corpos de Exército, devendo o principal marchar pelo Passo da Pátria, no Paraná, pela estrada mais próxima e paralela ao rio Paraguai, com direção a Humaitá, e daí a Assunção. Esta força deverá operar de acordo com a nossa esquadra que subir o rio Paraguai. Batido Humaitá, o nosso Exército deve continuar a sua marcha a todo transe até a capital do Paraguai, combinando seus movimentos com a força de Mato Grosso, as quais deverão perseguir o inimigo que tiver invadido a Província até a linha do Apa, esperando aí as ordens do General em chefe do Exército do Sul para, de acordo com ele, descer até onde convier. E a outra coluna que não deverá ser menor de 6 mil homens, marchará por São Paulo em direção à Província de Mato Grosso, fazendo junção com as forças que já guarnecem àquela Província, as quais calculo em 4 mil homens. Esta coluna deverá operar por Miranda com o fim não só de assegurar as cavalhadas e gados que existem por esse lado como para obrigar o inimigo a distrair forças de sua base de operações e facilitar assim a entrada do grosso de nosso Exército que deve invadir pelo lado de Humaitá. Uma outra coluna ou Corpo de Exército deve chamar a atenção do inimigo pelo lado de São Cosme, Itapuã ou São Carlos, para que não só não possa ele cortar-nos a retirada pelo Passo da Pátria, no caso de revés no Humaitá, como para que não convirja com todas as suas forças sobre esse ponto quando atacado pelo nosso Exército. Este movimento deverá competir às nossas forças que guarnecem a fronteira de São Borja e deverão constar, pelo menos, de 10 mil homens, das três armas, e ser bem comandadas."

Portanto, a estratégia consubstanciada por Mitre: "Marcha pela direita, procurando por meio dela o flanco esquerdo do inimigo e por aí atacá-lo", nada mais era do que a execução do plano de Caxias.

Concentração dos aliados.

Depois da rendição de Uruguaiana, os aliados passaram a dispor de duas principais forças – uma em Uruguaiana, outra em Concórdia, muito afastadas, portanto. Era necessário integrá-las em um ponto central, em território argentino, entre os rios Paraná e Uruguai.

Toda sorte de embaraços opunha-se às tropas da Tríplice Aliança; o terreno era pobre em vias de comunicação, pouco povoado, muito cortado por cursos d'água; havia escassez de meios de travessia, as chuvas dificultavam os deslocamentos e facilitavam a propagação das epidemias.

Assim mostrava-se o quadro em que se desenrolaram os primeiros movimentos, a partir de 20 de setembro de 1865, data de passagem das forças de Uruguaiana para Paso de los Libres. Em 26 de dezembro o grosso do exército aliado estava concentrado a leste de Corrientes e ao sul das Três Bocas.

Preparativos para a invasão.

Os preparativos estenderam-se até março de 1866, houve recompletamento e reorganização da tropa, melhoria do adestramento, reunião de material e montagem da base de operações.

Os engenheiros brasileiros, sob o comando do Tenente-Coronel José Carlos de Carvalho, cuidaram dos preparativos técnicos para a transposição do Paraná. Em Corrientes montou-se uma oficina especial para a produção de armas portáteis, criou-se um depósito de material bélico e de engenharia e preparou-se a instalação de hospitais.

Não era tranqüila a vida no acampamento no Passo da Pátria: Durante todo esse tempo os paraguaios não deixaram de hostilizar a tropa, obrigando os aliados a redobrar a vigilância e a executar freqüentes reajustamentos no dispositivo.

A 25 de fevereiro reuniram-se Mitre, Tamandaré, Osório e Flores para acertar detalhes da invasão. Tamandaré demonstrou que as unidades navais encontravam-se aprestadas para o combate das fortificações inimigas, mas que era favorável a um plano em que as forças navais e as do exército atuassem em conjunto. Mitre solicitou que a esquadra pudesse efetuar um reconhecimento da região das Três Bocas objetivando o melhor local para o desembarque. Esta proposta foi imediatamente aceita.

Início das operações.

Finalmente, a 17 de março de 1866, partiu a Esquadra brasileira para começar a subida dos rios Paraná e Paraguai; compunham-na três divisões, integradas por quatro couraçados, 10 canhoneiras, três corvetas, seis avisos, seis transportes e sete navios estrangeiros fretados pelo governo imperial com a função de transporte. Aproximava-se do Paraguai a força naval mais importante que já se constituíra na América do Sul. A 20, a Esquadra conseguia interceptar as comunicações do inimigo entre os dois rios, não obstante os fogos de terra dos paraguaios, e prosseguia em direção a Três Bocas. Tendo em vista os desconhecimentos hidrográficos da região e como os chefes militares não haviam chegado a um consenso onde proceder a operação anfíbia de desembarque das tropas, a Esquadra iniciou reconhecimentos e sondagens sob a direção da comissão composta pelos Primeiros-Tenentes Antônio Luís von Hoonholtz, Artur Silveira da Mota e Cunha Couto. Os paraguaios procuraram obstaculizar ao máximo essas operações, utilizando chatas, mortífero invento, motivo pelo qual essa fase ficou conhecida como Guerra das Chatas. Vários dos nossos perderam as vidas, lamentando-se em especial a morte do Primeiro-Tenente Antônio Carlos de Mariz e Barros, comandante do Tamandaré. Objetivando iludir os paraguaios de que se projetava efetuar o desembarque na área do Forte de Itapiru, localizado na margem do rio Paraná, determinou-se a ocupação da ilha da Redención, em frente ao Forte de Itapiru, o que se concretizou na madrugada de 6 de abril, com tropas sob o comando do Tenente-Coronel João Carlos de Vilagran-Cabrita. Organizou-se logo a defesa da ilha mas os paraguaios, a 10 de abril, comandados pelo valoroso Coronel José Díaz, tentaram recuperar a posição, mas apenas deixaram mortos na ilha que continuou a pertencer aos aliados. Nesse mesmo dia, uma bala de canhão 68, partindo do Forte de Itapiru, atingiu o local onde se encontrava Vilagran-Cabrita, matando-o juntamente com outros oficiais. A pequena ilha ganhou logo o seu nome dado pelos companheiros. (As caudalosas águas do rio Paraná incumbiram-se de fazê-la desaparecer). A manutenção da conquista propiciou as condições de segurança para os reconhecimentos que indicaram os locais de desembarque de 65 mil homens.

Transposição do Paraná.

Às 8:30 horas de 16 de abril, após intenso bombardeio da Esquadra e das posições estabelecidas na ilha Vilagran-Cabrita, iniciava-se a transposição; meia hora depois os primeiros contingentes aliados desembarcavam na margem esquerda do rio Paraguai; o primeiro a colocar o pé em solo paraguaio foi o General Osório, seguido de seus Ajudantes e de um piquete.

A surpresa do inimigo foi completa, pois os movimentos da esquadra nos dias anteriores induziram López a julgar que a transposição seria mais a nordeste. Quando o Paraguai enviou, apressadamente, alguns contingentes para a região, foram recebidos pelo fogo cerrado de nossos navios: quando chegaram ao local que lhes fora destinado, lá encontraram os primeiros batalhões aliados já praticamente instalados.

Por volta das 14 horas, já era de 4 quilômetros a profundidade da cabeça-de-ponte e os novos escalões chegavam ininterruptamente. Na manhã do dia seguinte, os paraguaios comandados pelo Tenente-Coronel Basílio Benitez contra-atacaram, investindo contra as baterias desguarnecidas e batendo algumas frações de tropa que se encontravam dispersas. Os aliados sofreriam sérios reveses se não fosse a rápida intervenção de  Esta vitória obtida pelas vanguardas de Osório e por ele comandadas provocou o abandono do Forte de Itapiru ainda nesse dia 17. Na manhã de 18 foi ocupado o Forte de Itapiru. Após intenso bombardeio aliado, López e seus comandados abandonaram o Passo da Pátria (23 de abril), retraindo para a margem setentrional do Estero Bellaco, sendo que Osório procurou manter o contato com o inimigo. Enquanto isso o grosso do exercito aliado se reorganizava a fim de poder, no mais curto prazo, retomar o movimento para o norte. De 26 a 30 de abril a vanguarda, ao comando do General Flores, realizou reconhecimentos, travando combates esporádicos com o inimigo, que se mantinha vigilante. Próximo ao Estero Bellaco, 6 mil paraguaios, sob o comando do Coronel José Díaz, beneficiando-se do conhecimento da região, irromperam de um matagal e atacaram com ímpeto ao meio-dia. A ação foi iniciada com violento fogo de artilharia e de foguetes incendiários, numa tentativa paraguaia de isolar os primeiros elementos; a brigada Pessegueiro e um batalhão uruguaio trataram de deter o avanço inimigo, criando condições para que Osório, seguido da 6ª Divisão de Infantaria sob o comando do General Vitorino Monteiro, contra-atacasse e rechaçasse os guaranis, que perderam 3 mil homens, entre mortos, feridos e prisioneiros. Foi mais uma vitória dos aliados nesse 2 de maio.

A seguir os aliados pararam cerca de 18 dias, só retomando a progressão a 20 de maio, tempo necessário para a organização da logística, uma vez que a região invadida nada podia oferecer; não havia povoações e quase não tinha moradores. Após recalcar o adversário e atravessar o Estero, identificaram um terreno alto situado entre o Pantanal, o Potrero Pires, o Estero Bellaco e o Estero Rojas e resolveram acampar, apesar das condições desfavoráveis. Protegido pela mata e acampado na margem norte do Estero Rojas, Solano López observava os movimentos aliados, sem que estes o percebessem. A posição paraguaia permitia-lhe desfrutar de excelente vista sobre todo o acampamento das tropas da Tríplice Aliança.

Batalha de Tuiuti.

 

Ao amanhecer de 24 de maio, apoiados em forte posição, os paraguaios esperavam atacar e destruir a maior parte dos exércitos aliados, a fim de criar condições para a contra-ofensiva. Nosso dispositivo em Tuiuti era mais ofensivo do que defensivo. Os guaranis utilizariam cerca de 24 mil homens, enquanto o Brasil, a Argentina e o Uruguai dispunham de 32 mil, sendo 21 mil brasileiros, 10 mil argentinos e 1.200 orientais. A cavalaria achava-se quase toda a pé por falta de montarias. Pela primeira vez os contendores empregariam grandes forças e medir-se-iam com idêntica determinação.

Por volta das 12 horas os soldados de López, divididos em três agrupamentos de forças, comandados por Resquin, Barrios e Díaz, arremeteram com violência; pretendiam invadir simultaneamente pela frente e pelos flancos, para cortar uma possível retirada do inimigo. Usariam 9.500 homens pelo flanco direito, o mesmo efetivo pelo flanco esquerdo e 5 mil pelo centro; a convergência das colunas flanqueantes facilitaria a destruição dos aliados. O terreno era favorável à tomada de um dispositivo ofensivo, mas constituía em parte um obstáculo, atrasando a coluna da esquerda. Manuel Luís Osório, Antônio de Sampaio e Emílio Mallet teriam participação decisiva no confronto.

Mallet esperou com as baterias silenciosas a aproximação da coluna do centro até que se enquadrasse em seu campo de tiro, para então bater o inimigo. Ao tentar escapar da artilharia-revólver e procurando flanqueá-la, o adversário esbarrou na Divisão Encouraçada onde Sampaio comandava as ações e após muito combater foi mortalmente ferido. Quando a situação pareceu tornar-se ameaçadora, acorreu o próprio Osório, de lança em punho, comandando as reservas, empregando-as rápida e decisivamente nos pontos vulneráveis. O ataque frontal dos paraguaios perdeu impulsão sem que as suas alas, repelidas pelos brasileiros e argentinos, alcançassem os objetivos. O plano de López fracassara e às 16:30 horas, com a retirada paraguaia, encerrava-se, melancolicamente, a batalha iniciada com a pompa dos grandes espetáculos militares.

Os paraguaios tiveram 13 mil baixas (6 mil mortos e 7 mil feridos); os aliados perderam 3.900 homens (975 mortos e 2.925 feridos), ficando o Brasil com as maiores perdas (3 mil homens).

A derrota de López em Tuiuti foi fragorosa mas não decisiva, porque ele continuava senhor das linhas do Sauce, onde entrincheirara o restante de seu Exército. Além disso, os paraguaios se retiraram para as suas posições de Passo-Pocu sem serem inquietados, dada a falta de mobilidade dos aliados para aproveitar o êxito e desencadear a perseguição.

Embora vitoriosos em Tuiuti os aliados perderam a iniciativa estratégica e sofreram grandes baixas; a cavalaria, praticamente desmontada, tinha falta de meios de transporte. Os paraguaios esgotaram sua capacidade ofensiva e passaram à defensiva, com o objetivo de prolongar a guerra a fim de obterem pelo menos uma paz negociada. A luta entrou em nova fase, caracterizada pela estabilidade da frente.

Comentário sobre Tuiuti e seus vultos maiores.

Em Tuiuti, considerada a mais importante e sangrenta batalha campal da América do Sul, pelos efetivos envolvidos, pela violência dos combates e pelo valor dos chefes militares presentes, destacaram-se as figuras de Osório, Sampaio e Mallet, pelo lado brasileiro.

Poucos chefes militares deixaram lições tão fecundas à compreensão da psicologia do homem brasileiro quanto Osório. Quando lhe perguntaram por que participava pessoalmente dos perigos da tropa, respondeu: "Eu preciso provar aos meus comandados que o General é capaz de ir até aonde os manda". Ao anunciar a invasão do Paraguai, disse: "É fácil a missão de comandar homens livres, basta apontar-lhes o caminho do dever". Dele disse Rio Branco que foi "uma das mais puras glórias do Exército Brasileiro. (...) Nenhum outro general brasileiro foi mais justamente popular e querido que Osório, grande e ilustre pela bravura, pela lealdade e pelo patriotismo" Sua atuação em Tuiuti mostrou-se verdadeiramente notável, ofuscando o General Mitre, cuja presença foi meramente ornamental. Osório mobilizou-se com extrema rapidez, conduzindo uma Brigada da 1ª Divisão para combater a investida de Barrios; neste local participou pessoalmente do combate como se fosse um jovem tenente, e não deixou de acudir a artilharia de Mallet mandando-lhe mais canhões. Carta imperial de 1º de maio de 1866 o fez Barão do Herval.

Brigadeiro Sampaio - Patrono da Arma de InfantariaSampaio foi outra figura magnífica de chefe militar. Enquadrava-se bem na caracterização feita por Napoleão ao Marechal Pierre François Charles Augereau, Duque de Castiglione, e ao Marechal André Masséra, Duque de Rivoli. Sua vida é um exemplo de tenacidade; inteligência viva, vontade e honestidade de propósitos são características que o distinguem, além do caráter altivo e independente. Destacou-se já como oficial e subalterno, no Maranhão, entre 1839-41, servindo sob as ordens de Caxias e participando com destaque em mais de 50 combates, com ação de comando em 48. Continuou impondo-se pelo valor e pela coragem na campanha de 1851-52 e, já como Coronel, na Guerra do Uruguai, em 1864-65. Em Tuiuti, esteve magnífico. Quando Osório lhe pediu mais um sacrifício no fragor da luta, Sampaio, banhado em sangue, informou que estava perdendo muito sangue e que seria conveniente mandar substituí-lo. A seguir recebia outro balaço e completava: "Olhe, senhor alferes, diga ao general que este é o terceiro ferimento". Morreu pouco depois, em 6 de julho de 1866, a bordo do transporte Esponina, que o conduzia de Corrientes para Buenos Aires.

O leão e as três estrelas ostentados no estandarte do Regimento Sampaio são homenagem da arma de Infantaria a seu patrono, traduzindo a bravura, o sofrimento e o estoicismo do grande chefe militar. As três chagas de Sampaio em Tuiuti inspiraram os motivos heráldicos da condecoração Sangue do Brasil, atribuída aos que derramaram seu próprio sangue em defesa da Pátria.

Foi decisiva a atuação de Mallet no comando da artilharia-revólver, como ficou sendo conhecida a arma de apoio de fogo, pela rapidez de intervenção e pela concentração do fogo em qualquer ponto da frente.

A Batalha das Nações, como alguns chamam a batalha de Tuiuti, glorificou os três maiores chefes militares das armas de Infantaria, Cavalaria e Artilharia. Com base na sua atuação demonstrada naquela jornada foi que o Exército brasileiro os escolheu para patronos de suas respectivas armas.

Período da estabilização.

 

Após a vitória de Tuiuti os chefes aliados decidiram paralisar as operações, firmando-se nas posições já conseguidas, aguardando a remessa de cavalos e a presença do 2º Corpo do Exército, comandado pelo Barão de Porto Alegre, e designado para entrar em atividade.

Osório, sentindo-se adoentado, solicitou ser substituído; não conseguia andar a pé ou a cavalo, pois uma das pernas inchara e o fazia padecer. Em 15 de julho, passou o comando ao Marechal-de-Campo Polidoro da Fonseca Quintanilha Jordão e retirou-se para o Rio Grande do Sul.

López aproveitou-se da inatividade dos aliados para reativar ações ofensivas esparsas, com a finalidade de mantê-los em permanente sobressalto. Utilizou com freqüência golpes de mão sobre posições avançadas dos aliados.

A 10 e 11 de julho, o inimigo atacou as posições mantidas pelos argentinos em Yatayty-Corá, sofrendo muitas perdas; logo a seguir mudou de orientação e resolveu agir nas matas do Sauce, setor dos brasileiros e uruguaios, onde nada conseguiu a não ser provocar perdas de ambos os lados. Em meados de agosto, chegara à área de operação parte do 2º Corpo, ao comando do Barão de Porto Alegre, que completou a ocupação na área de Itapiru; viera do Rio Grande do Sul a fim de reforçar as tropas da Tríplice Aliança e aumentar a sua mobilidade, pois dispunha de boa quantidade de cavalos.

Com o aumento das forças e enquanto prosseguia a reorganização do grosso, reuniram-se, no dia 18, Mitre, Flores, Polidoro, Porto Alegre e Tamandaré. Após a verificação dos efetivos de que os aliados dispunham, Tamandaré sustentou a tese de ataque e ocupação de Curuzu e Curupaiti, no que foi apoiado por Porto Alegre. Enfim, aceitaram os generais a proposta de Tamandaré, decidindo-se as ações combinadas sobre Curuzu e Curupaiti, a cargo de Porto Alegre e de Tamandaré; simultaneamente as forças concentradas em Tuiuti empreenderam uma operação contra o flanco esquerdo da posição paraguaia do Sauce. Com a manobra pretendiam os aliados abrir o caminho para Humaitá, primeiro objetivo estratégico da guerra.

A Esquadra postou-se, então, próxima de Curuzu, aguardando a chegada de dois encouraçados: o Lima Barros e o Rio de Janeiro. Finalmente, na manhã de 1º de setembro, o 2º Corpo embarcou nos navios da Esquadra, atingindo as proximidades da linha de Curuzu. Após o bombardeio da posição inimiga pelos navios da Esquadra nesse dia, iniciou-se o desembarque na tarde do dia seguinte e, logo após, a progressão por uma picada, margeando o rio; a vanguarda desalojou os paraguaios do Palmar após combate no qual perdemos 70 homens. Já se podia avistar a bandeira paraguaia tremulando por cima da trincheira de Curuzu; no fim da tarde e à noite houve pequenas escaramuças. Ao amanhecer do dia 3, o 2º Corpo desencadeou um ataque violento. Os paraguaios não resistiram por muito tempo e os brasileiros se apossaram dos parapeitos da fortificação, perseguiram o inimigo e chegaram perto das linhas de Curupaiti. Porto Alegre renunciou à idéia de assaltar de imediato a fortificação de Curupaiti. Quando, praticamente, estava aberto o caminho para a derrubada das posições paraguaias e o conseqüente cerco que propiciaria a destruição do Exército de López, mandou que os elementos mais avançados se recolhessem a Curuzu. Fez isto por falta de informações sobre as fortificações e sobre o terreno que seus soldados encontrariam pela frente.

Nos dias subseqüentes reuniram-se os comandantes aliados para acertar o novo plano de manobra. Enquanto isso López ganhava tempo para reforçar a sua posição em Curupaiti. A 11 de setembro solicitou a Mitre uma conferência. Mitre reuniu-se com Flores e o General Polidoro, decidindo-se que o convite seria aceito, no dia 12, em Yatayty-Corá, às 9 horas da manhã. Mitre seguiu com uma escolta de 20 homens. As conversações ocorreram em local aberto entre López e Mitre. Flores esteve presente por alguns instantes e Polidoro não compareceu. As conversações demoraram várias horas mas não se chegou a qualquer resultado, conforme Mitre declarou em seguida. Na verdade, López alcançara exatamente o seu propósito: dilatar o assalto aliado a Curupaiti.

Nesse interregno, os aliados preparavam-se para atacar Curupaiti, o que não foi realizado por causa do mau-tempo.

Apoiada por intenso bombardeio naval e terrestre, a tropa aliada, aproximadamente 20 mil homens, no dia 22, progrediu e por volta de 12 horas caía a primeira linha fortificada paraguaia; na continuação do combate os aliados encontraram uma série de obstáculos, que foram intensamente batidos por fogos, mas às 14 horas Mitre e Porto Alegre ordenaram o retraimento geral. Foi a primeira derrota da Tríplice Aliança, com número considerável de perdas entre argentinos e brasileiros (perdas dos argentinos: 2.082 entre mortos e feridos; dos brasileiros: 2.011).

A primeira investida para explicar a derrota recaiu em culpar os chefes. No entanto, parece certo que a preparação para o cometimento não se mostrou conveniente.

A conseqüência mais importante desse desastre foi a paralisação das operações, período compreendido entre o dia 22 de setembro de 1866 a 21 de julho de 1867. As posições dos contendores não sofreram alterações; ocorreram alguns bombardeios e escaramuças que não definiam vantagens.

No dia 25, o General Flores deixou o acampamento de Tuiuti, retirando-se para Montevidéu. A 1º de outubro, Polidoro, alegando idade avançada (64 anos) pediu licença para viajar para o Rio de Janeiro, o que obteve somente em maio do ano seguinte.

O governo brasileiro estava convencido da necessidade de um comando unificado das forças terrestres e marítimas. A 10 de outubro de 1866, o Marquês de Caxias foi nomeado comandante-em-chefe de todo o efetivo brasileiro em operações no Paraguai.

Preparativos para a ofensiva.

O Marquês de Caxias saiu do Rio em 29 de outubro a bordo do vapor Arinos. Passou por Montevidéu e Buenos Aires, conferenciando, no dia 14 de novembro, em Corrientes, com Tamandaré. Às 4 da tarde do dia 18 chegava ao acampamento de Tuiuti, assumindo o seu comando diante da tropa formada.

De acordo com o que deixara acertado no Rio de Janeiro, o governo nomeou o Chefe-de-Esquadra Joaquim José Ignácio para o comando-em-chefe da Esquadra, por decreto de 3 de dezembro, recebendo-o no dia 22, no vapor Isabel, presente o venerando Tamandaré que se retirava para o Rio de Janeiro.

Dentro desta conjuntura, o governo achou necessária a criação do 3º Corpo de Exército. Visando a esta providência, nomeou, em 18 de outubro, o General Manuel Osório Comandante das Armas da Província do Rio Grande do Sul e Comandante, no dia 20, do futuro 3º Corpo.

A chegada de Luís Alves de Lima e Silva ao acampamento em Tuiuti deu novo alento às forças brasileiras, pois o incansável chefe visitava a todos, providenciava a renovação do material, percorria os hospitais. Ao assumir o comando geral e avaliar a situação chegou às seguintes conclusões:

a) A vitória em Riachuelo, no início das operações, decidira o destino da guerra, sob o ponto de vista estratégico, pois a posição geográfica do Paraguai fazia-o depender, de modo absoluto, dos rios Paraguai e Paraná, agora bloqueados.
b) Os aliados deviam preparar-se para as batalhas que conduzissem à conquista de Assunção, sede do poder; no entanto, havia um objetivo rmediário importante – Humaitá – cuja posse era imprescindível.
c) Sobre a calha do rio Paraguai é que seria decidido o destino do conflito.
d) Muito pouco se fizera para destruir as forças adversárias ou anular a sua capacidade de luta, muito embora tivessem sido obtidas diversas vitórias.
e) Os aliados dispunham, praticamente, no território paraguaio, de apenas uma cabeça-de-ponte.

No dia 9 de fevereiro de 1867, Mitre deixou Tuiuti retirando-se para a Argentina. Na ocasião entregou o comando dos exércitos aliados ao Marquês de Caxias.

A reorganização das forças aliadas empreendida por Caxias refletia, em plenitude, sua figura de administrador. Sua atividade fazia-se sentir já durante a viagem para o teatro de operações. Reorganizaram-se hospitais, depósitos e outras instalações escalonadas ao longo da extensa linha de transportes. No acampamento da cabeça-de-ponte aliada foram inúmeras as providências de Caxias, aproveitando os longos meses de estabilidade das operações. Os animais mereceram muita atenção: "(...) não havia mais de 2 mil cavalos e estes não (estavam) em muito bom estado; a cavalaria do 2º Corpo estava toda apeada (...)". Os corpos de Exército e as unidades, de modo geral, foram reestruturados, de vez que os 1º e 2º Corpos de Exército, como verificou Caxias, apresentavam características de organização diversas e "pareciam pertencer a diferentes nações, tais eram as disparidades que neles se notavam". Intensificou-se a instrução dos quadros e da tropa, dando-se ênfase principalmente a combate e serviço em campanha.

As comunicações receberam particular atenção: construíram-se instalações elétricas e encomendaram-se dois balões para observação nos Estados Unidos da América, sendo igualmente construídos mangrulhos, o que muito facilitava a atividade de planejamento.

Dinamizou-se o fluxo ao longo da cadeia de suprimentos e evacuação. Instalaram-se arsenais e depósitos na área de operações, foi ampliado o apoio de saúde com a abertura de novos hospitais. Promoveu-se a aquisição de cavalos e muares, aumentando-se os estoques de milho e alfafa. Finalmente, cuidou-se em especial do moral da tropa, visando a elevá-lo e melhorar o estado disciplinar, que era desolador. Promoveram-se apresentações teatrais e outros espetáculos, construiu-se uma igreja e criou-se uma chefia de polícia.

Essas medidas todas davam a Caxias condições de retomar a ofensiva para decidir de vez o destino da guerra.

Em 10 de maio de 1867, Polidoro passou o comando do 1º Corpo de Exército ao Marechal-de-Campo Alexandre Gomes de Argolo Ferrão.

Entrementes, Osório, no Rio Grande do Sul, dedicava-se à tarefa de criação do 3º Corpo. As dificuldades avolumaram-se por causa da propaganda negativa daqueles que afirmavam que o Rio Grande já havia contribuído o bastante para a guerra. Mas Osório não esmoreceu e arregimentou homens no caminho para São Borja. Em 23 de março de 1867, começa a transpor o rio Uruguai em frente a Itaqui. Tem 2.300 homens. Com os que se juntaram a ele nessa oportunidade, somou 4.338 homens. Em 16 de julho, começou a travessia do rio Paraná e poucos dias depois alcançava Tuiuti.

Reinício do movimento.

Reiniciou-se o movimento para o norte em 22 de julho de 1867 e, depois de romper a linha do Estero Bellaco no dia 31, estacionavam em Tuyu-Cué o 1º Corpo (Argolo) e o 3º Corpo (Osório). O 2º (Porto Alegre) guarnecia as posições de Tuiuti e Passo da Pátria. A 1º de agosto, Mitre voltou ao teatro de operações, reassumindo o comando geral das tropas aliadas. Nesta retomada das ações, destacou-se a série de brilhantes ataques da 2ª Divisão, sob o comando do bravo Andrade Neves.

Mitre e Caxias viram que a situação do terreno não correspondia ao imaginado; o prosseguimento estava barrado por obras defensivas; era necessário, portanto, empreender ações profundas de reconhecimento. Esse encargo foi atribuído a Andrade Neves; para isto sua divisão chegou quase à retaguarda de Humaitá, cortou a linha telegráfica para Assunção e infligiu muitas baixas aos paraguaios, além de tomar-lhes gado, munição, armas e ferramentas.
Nesse espaço os dois chefes principais da Tríplice Aliança procuraram montar novo plano, depois de alguns desacordos, prevalecendo o pensamento geral de Caxias, que desejava manter um corpo de exército em Tuiuti para garantir o contato com a esquadra e com o resto do efetivo transpor o flanco esquerdo dos paraguaios contornando as fortificações de Curupaiti e Humaitã. A esta parte se convencionou chamar Marcha de Flanco. O êxito da operação seria alcançado quando a Esquadra ultrapassasse Curupaiti e Humaitá, cortando as comunicações com o restante das forças de López.

Assim, o exército aliado prosseguiu rumo norte passando por Tio Domingos (25 e 26 de julho) e, no dia 31, chegou a Tuyu-Cué. Mitre desejava insistentemente que a Esquadra forçasse Curupaiti e Humaitá de uma só vez.

O Vice-Almirante Joaquim José Ignácio ponderou a Caxias ser perigoso que a Esquadra ultrapassasse Humaitá antes que as tropas pudessem chegar às margens do rio Paraguai.

Caxias, sensatamente, ordenou a subida da Esquadra para forçar Curupaiti e, só depois deste evento, seria avaliado o estado dos navios e a vantagem de forçar imediatamente Humaitá. A experiência histórica já demonstrara que praças-fortes como Humaitá podiam suportar com vantagem os borbardeios.

A 15 de agosto a Esquadra movimentou-se e tranpôs Curupaiti, fundeando à vista da ponta de Humaitá. As fortes defesas da cidadela tornavam temerária uma investida imediata; o comandante da força naval, Vice-Almirante Joaquim José Ignácio, reconheceu a impossibilidade de, no momento, forçar a passagem.

Organizou, então, um fundeadouro, que recebeu o nome de Porto Elisiário, na margem direita do rio Paraguai, isto é, no Chaco, e, nesta margem, soldados do Batalhão Naval e dos 11º, 16º e 31º de Voluntários construíram um caminho até a embocadura do riacho Quiá, onde se encontrava a esquadra de madeira. Em seguida, o Segundo-Tenente Luís de Paula Mascarenhas dirigiu, neste caminho, o assentamento da linha férrea com dormentes preparados no Arsenal da Marinha do Rio de Janeiro e trilhos comprados em Montevidéu. Esta foi a artéria que supriu a Esquadra.

As tropas aproveitaram esse tempo para melhorar as suas posições, reorganizar-se e iniciar uma série de incursões, período em que a cavalaria brasileira teve um destaque particular. sobrepondo-se à cavalaria paraguaia.

Conseguiram os aliados, assim, impedir o fluxo de novos recursos para Humaitá e impelir os adversários, aos poucos, para dentro de suas trincheiras; nessas ações chegaram a Pilar (20 de setembro), deslocando o destacamento inimigo, depois de recalcarem os guaranis de Potrero-Obella; a 2 de novembro apossaram-se de Tayi, quando passaram a dificultar as ligações paraguaias pelo seu principal rio.

Segunda Batalha de Tuiuti – 1867.

 

López compreendeu a dificuldade em que os aliados o colocaram e para sair desta angustiante situação efetuou um ataque de surpresa (3 de novembro) às posições mantidas em Tuiuti pela Tríplice Aliança. mandando o General Barrios com 9 mil homens arrasar a nova vila erguida naquela região. Iniciado o ataque, destacou-se logo no comando das forças brasileiras o valoroso Porto Alegre, que, a pé, à frente do 2º Corpo, dirigiu a defesa, contando com 7.800 homens e mais 700 argentinos sob o comando do Coronel Guillermo Federico Baez. Depois de quatro horas de luta os paraguaios foram repelidos"'. A segunda batalha de Tuiuti reafirmou o predomínio aliado na campanha.

Manobra de Humaitá.

Em face de mais essa derrota, os paraguaios prepararam nova via de retraimento para escapar ao cerco que se avizinhava. Caxias resolveu mandar uma expedição ao Tebicuary com a missão de arrebanhar gado e cavalos. Incumbiu-se o Brigadeiro João Manuel Mena Barreto que, com 1.200 homens, partiu de Tayi em 24 de novembro e regressou em 29, trazendo perto de 2 mil cabeças de gado e mais 200 cavalos. Nova expedição ao Tebicuary ocorreu em 13 de dezembro, comandada pelo mesmo oficial e com igual êxito. López reforçou suas posições nas proximidades de Humaitá, construiu um caminho pelo Chaco, de Timbó, que ficava quase em frente a Humaitá, até Monte Lindo, com cerca de 87 quilômetros, e ergueu um outro reduto em Cierva, acima de Humaitá, nele colocando 500 homens sob o comando do Major Olabarrieta. Também, retirou várias peças de Curupaiti para concentrá-las em Humaitá.

Tendo em vista a morte de Marcos Paz, Vice-Presidente da República Argentina, o General Mitre resolveu retornar para Buenos Aires. Em 14 de janeiro de 1868, deixou o comando nas mãos do Marquês de Caxias.

Os encouraçados brasileiros não cessavam de bombardear Humaitá, mantendo os seus defensores em permanente estado de alerta. Joaquim José Ignácio – o Barão de Inhaúma –, aguardava poder inutilizar as correntes de ferro destruindo os três portões de ferro e as canoas que as sustentavam, bem como a chegada de três monitores que se encontravam em construção no Arsenal da Marinha do Rio de Janeiro. A incorporação destes (Pará, Alagoas e Rio Grande), em 13 de fevereiro de 1868, à sua força e mais a subida de nível das águas do rio Paraguai determinou que havia chegado o momento.

No dia 19, a Esquadra forçava a passagem de Humaitá e chegava a Tayi, ao mesmo tempo que as tropas de Caxias conquistavam o reduto de Cierva. A notícia do forçamento de Humaitá pela Esquadra atingiu Assunção rapidamente. O Vice-Presidente Francisco Sanchez convocou os notáveis na noite de 21 de fevereiro para conselho, reunindo-se de novo na manhã do dia seguinte, quando foi resolvida a mudança da capital para Luque.

Batalha do AvaíPor sua vez, o comandante da Esquadra aproveitou o êxito alcançado e enviou três encouraçados a Assunção, sob o comando do Chefe-de-Divisão Torres e Alvim, que bombardearam a cidade (24 de fevereiro).

Em desespero, López atacou alguns encouraçados brasileiros localizados entre Humaitá e Porto Elisiário (2 de março), mas foi derrotado e decidiu retirar-se com parte da tropa para San Fernando, rio acima; deixou a cargo de seus generais a responsabilidade pela defesa de Tuyu-Cué e de Humaitá.

Caxias ordenou (21 de março) um ataque partindo de Tuyu-Cué e outro partindo de Tuiuti e desta forma conseguiu penetrar na primeira linha paraguaia. Nesse mesmo dia 21, Curupaiti era abandonada. Caxias recebeu informações de que elementos inimigos começavam a deixar Humaitá e, receoso de que as tropas de López se encontrassem em fuga, mandou reativar as operações ofensivas; apesar disto, os paraguaios continuaram o retraimento e a 25 praticamente completaram-no. Osório, no dia 25 de julho, penetrou na famosa fortaleza, o mesmo fazendo Caxias ainda nesse mesmo dia. Imediatamente, determinou atacar a retaguarda dos fugitivos paraguaios, ocorrendo encontros na Lagoa Verá, que acabou por isolá-los. Caxias desejava a rendição desses efetivos o que foi conseguido em 5 de agosto. Renderam-se 1.324 paraguaios com seu comandante, Coronel Martinez.

Terminava a odisséia de Humaitá. A bravura dos guaranis refletiu se na resistência tenaz por cerca de dois anos, provocando grandes baixas em ambos os lados e fazendo com que as tropas da Tríplice Aliança só progredissem, todo esse tempo. aproximadamente 40 quilômetros em linha reta.

Atuação de Caxias.

Caxias teve um desempenho extraordinário como comandante-em-chefe das forças aliadas, em toda essa fase. O planejamento que estabeleceu opunha-se a todas as possibilidades de ação dos paraguaios, podendo, inclusive, culminar no cerco de Humaitá. Discordando de Mitre, Caxias não atribuiu, nesta fase, importância máxima à cavalaria, reservando-a para outras ações mais próprias, como na manobra seguinte.

Impossibilitado de destruir por completo as forças adversárias, decidindo a guerra, pois López ordenara a retirada de suas tropas para fugir ao cerco, Caxias procurou o contato numa outra manobra, mais audaciosa, a do Piquissiri, para então esmagar o inimigo. Ao contrário dos movimentos lentos de Humaitá, que tiveram 12 meses de duração, Caxias imprimiu grande mobilidade às operações, consagrando-se, em definitivo, como o maior chefe militar da Tríplice Aliança.

Preparativos para o prosseguimento.

Ocupada Humaitá, Caxias transferiu para esse reduto a base de operações. Reiniciou a marcha para o norte, deixando o 2º Corpo ao comando de Argolo Ferrão, guarnecendo Humaitá. Em razão do mau tempo, o movimento só se iniciou a 19 de agosto; a 26 o exército atingiu as margens do Yacaré, transposto pelo grosso a 28; nesse mesmo dia os aliados alcançaram as margens do Tebicuary, ordenando Caxias ao Barão do Triunfo, Andrade Neves, que conquistasse, sem demora, uma cabeça-de-ponte; os paraguaios ofereceram pouca resistência. tornando possível a transposição no dia 31. A 6 de setembro o grosso se encontrava na margem norte do Tebicuary, Caxias ocupou o acampamento de San Fernando, nele instalando o seu quartel-general. Uma força naval subiu o rio, no dia seguinte, para efetuar o primeiro reconhecimento de Angostura.

Manobra do Piquissiri.

O Exército aliado prosseguiu a sua marcha em ritmo lento, devido às condições meteorológicas. Transpôs o Paraí a 21 de setembro e a 23, o Suruby-y; onde houve tenaz oposição dos paraguaios. Foram 89 mortos e 23 feridos. Entre os dias 25 e 29 a tropa acampou em Palmas. Surgiram, então, diante de todos, as terríveis linhas do Piquissiri. A 29, o próprio Caxias subiu o rio, chegando perto de Angostura para examinar a posição guarani. A 1º de outubro o Marechal montou um grande reconhecimento em força contra as posições de López, conseguindo constatar o valor defensivo das linhas inimigas. Elas estavam muito bem fortificadas, tinham cerca de 9 quilômetros de frente e beneficiavam-se do terreno entre o rio Paraguai e a lagoa Ypoá. A Esquadra, nesse mesmo dia, forçou a passagem de Angostura e lançou ferros acima do passo, retornando em sentido inverso, no dia 10.

Comprovada a quase impossibilidade de ataque frontal ou pelo flanco direito, Caxias concebeu o plano de envolver as posições do Piquissiri pelo flanco esquerdo, o que significava o transporte das tropas em frente a Palmas, a construção de uma estrada pelo Chaco e, de novo, o transporte das mesmas tropas e trens de guerra, na altura de Santo Antonio.

Caxias não hesitou em pôr em prática o ousado plano. Para desempenhar a tarefa foi encarregado o General Argolo, que se encontrava em Humaitá. No dia 15 chegava em Palmas, transportando-se com seus auxiliares para o Chaco. Acompanhavam-no uma comissão de engenheiros composta do Tenente-Coronel Rufino Galvão, Primeiro-Tenente Carlos Lassance e Alferes Emílio Carlos Jourdan. A estrada começou a ser aberta envolvendo a construção de pontes, locais de observação e preparação do leito com drenagem de alagadiços.

A 27 de outubro estavam prontos para serem utilizados 10 quilômetros de estradas, a seguir fizeram-se trabalhos de desobstrução da foz do arroio Villeta. No dia 4 de novembro, Caxias foi ao Chaco à procura do melhor ponto para a travessia, repetindo a inspeção nos dias 17, 20 e 23. No dia 29 mandou alguns navios simularem um ataque a Assunção, com o intuito de desorientar o inimigo. A 4 de dezembro iniciou-se a grande manobra contra a retaguarda de López; a travessia e o desembarque em Santo Antônio duraram cinco dias. A 6 de dezembro seguiam as primeiras tropas em direção à ponte de Itororó, alcançada logo em seguida. Ela estava defendida por 5 mil homens liderados pelo General Bernardino Caballero. Travou-se então um dos mais renhidos combates desde Tuiuti. Várias vezes os brasileiros conquistaram e perderam a ponte. Informado da existência de um caminho à esquerda que permitia vadear o Itororó, Caxias determina a Osório que execute a manobra com a sua infantaria, um regimento de cavalaria e seis bocas de fogo. Após um novo contra-ataque paraguaio, Caxias sentiu a importância de uma vitória imediata para elevar o moral de seus combatentes. À frente de dois batalhões, desembainhou a espada e Iançou-se à frente, exclamando: "Sigam-me os que forem brasileiros!". Com o destemor de nossas forças impulsionadas pelo generalíssimo, o inimigo retraiu pela estrada de Villeta. Terminada a luta fatigante não havia condições para executar a perseguição e Caxias mandou Osório ocupar a posição conquistada. O restante do exército acampou nas imediações da ponte.

A decisão de lançar-se intrepidamente contra o inimigo para, como disse, "não retardar o resultado desejado", fundamentou-se puramente no fator moral e na audácia. Dionísio Cerqueira em Reminiscências, diz:

"Houve quem visse moribundos, quando ele passou, erguerem-se brandindo espadas ou carabinas para caírem mortos adiante".

Derrotados em Itororó, os paraguaios receberam ordem de López para deter Caxias no corte do rio Avaí. A Caballero foram mandados consideráveis reforços para esse fim. Informado de que a linha estava defendida, Caxias ordenou que as tropas cerrassem sobre o corte de Avaí para uma ação frontal e decisiva, até que se conseguisse pelos flancos um envolvimento. A 11 de dezembro retomou-se o movimento e os dois exércitos tiveram novo choque no corte do arroio Avaí. Osório, à frente, foi o primeiro a avistar o inimigo e Caxias ordenou-lhe que arremetesse frontalmente contra o dispositivo guarani, enquanto Andrade Neves e Mena Barreto executariam um duplo desdobramento. Disputava-se a mais sangrenta batalha dos últimos tempos da guerra. Osório fora ferido e antes de passar o comando galopou em frente às linhas dizendo: "Carreguem, camaradas, acabem com esse resto". Às 13 horas terminava a luta, com o aniquilamento quase total do adversário. As tropas aliadas dirigiam-se então para Villeta, onde acamparam.

Caxias resolveu dar um pequeno descanso aos homens, pois a posição era favorável. No dia 21 marchou em direção à colina de Itá-Ibaté, conseguindo João Manuel Mena Barreto isolar as forças de Angostura, proporcionado grande vantagem ao restante das forças terrestres; nos combates que se seguiram, o Barão do Triunfo foi ferido e as perdas brasileiras foram consideráveis. As forças estacionadas em Palmas não perderam tempo em avançar em direção às trincheiras do Piquissiri. Ao mesmo tempo, as forças do General Câmara, vigiando Angostura, forçaram os paraguaios a se abrigar no interior de suas trincheiras.

A 24 de dezembro, Caxias enviou a López uma intimação para render-se, mas não foi acatada, e determinou então um intenso bombardeio desde o clarear do dia seguinte sobre as posições inimigas, construídas na Loma de Acosta e na Loma de Itá-Ibaté, conhecidas por Lomas Valentinas, causando muitas baixas. O bombardeamento das Lomas Valentinas prosseguiu nos dias subseqüentes. López já havia perdido perto de 8 mil homens, restando-lhe uns 4 mil. As forças paraguaias estavam fraquejando. No dia 27, López evadiu-se com 60 oficiais e soldados em direção a Cerro León. A praça de Angostura, isolada desde 21, continuou resistindo até 30 de dezembro, quando então se rendeu. Este final de brilhantes operações aliadas ficou conhecido como a Dezembrada.

Liquidado o Exército guarani, estava praticamente finda a campanha. Caxias ocupou Assunção a 5 de janeiro de 1869, com o grosso do Exército, ficando em Luque a divisão de cavalaria de Vasco Alves, e preocupou-se em proporcionar justo repouso à tropa.

No dia 6 faleceu Andrade Neves, enquanto Osório e Argolo continuavam enfermos, em conseqüência de ferimentos. Osório retirou-se para a Província do Rio Grande, onde procurou se restabelecer. Mas nunca se desapegou do que se passava na frente de combate.

Caxias determinou que parte da esquadra subisse o rio e estabelecesse ligação fluvial com Mato Grosso. A missão foi cumprida a 3 de fevereiro.

Com a saúde abalada, o bravo cabo-de-guerra embarcou para a capital do Império em 19 de janeiro, ficando no comando interino o Marechal-de-Campo Guilherme Xavier de Sousa.

O Visconde de Inhaúma, igualmente sentindo a saúde precária, solicitou licença e se dirigiu ao Rio de Janeiro, vindo a falecer poucos dias depois, em 18 de março de 1869.

Chefe e condutor de homens.

 

Na manobra de Piquissiri, Caxias imprimiu novo ritmo às operações. Percebeu que o fator tempo era primordial para o aniquilamento do adversário. Foi uma cartada decisiva a que se lançou, num autêntico risco calculado, pois condicionou o êxito da marcha de flanco a uma estrada a ser construída em menos de um mês e só utilizável durante novembro, já que em dezembro ficaria submersa; expondo-se portanto à possibilidade temerosa de ver seu exército tragado pela cheia do rio Paraguai. Mais ainda, afastou-se de sua base de operações, colocando o grosso de suas forças entre o Exército inimigo e seu centro vital, cortando-lhes as linhas de transportes. Lançou-se heroicamente pela ponte do Itororó, ao perceber que a ação de flanco parecia duvidosa.

Em menos de um mês travaram-se os violentos e sucessivos combates de Itororó, Avaí e Lomas Valentinas, os mais sangrentos de toda a guerra.

O governo imperial reconheceu-lhe os méritos fazendo-o Duque por decreto de 23 de março de 1869.

Conde d'Eu no comando.

Retirando-se de Cerro León, López fugiu para a região montanhosa de Ascurra e, ao contrário do que se esperava, conseguiu reunir com certa rapidez um pequeno e novo exército, somando 13 mil homens. Instalou-se nas abas da cordilheira, fechando as passagens com todos os recursos de que dispunha, preparando-se para longa resistência.

Os aliados descansavam e se reorganizavam, sob as ordens de Guilherme de Sousa.

Por decreto de 22 março de 1869, o governo imperial nomeou o Marechal-de-Exército Gastão d'Orleans, Conde d'Eu, comandante de todas as forças em operações contra o governo do Paraguai. No dia 30, embarcou no vapor Alice, chegando no dia 14 de abril em Assunção, assumindo suas funções dois dias depois em Luque. Em seguida, nomeou os comandantes e escolheu os oficiais para as várias comissões. Osório decide retornar à atividade apesar de ainda não se encontrar restabelecido; embarcando no porto do Rio Grande chegava a 23 de maio a Buenos Aires, tendo de participar de homenagens a sua pessoa. Seguiu, logo depois, para Piraju, assumindo o comando do 1º Corpo de Exército.

Em agosto, o Exército aliado começou o deslocamento para o norte e nordeste. Foi dominada a vila de São Pedro em 21 de maio. López estava em Peribebuy.

Perseguição.

Resolveu-se que o Exército executaria um ataque principal, desbordante, e outro frontal, secundário, sem esquecer de guardar a linha férrea e os depósitos nas suas margens. Não esqueçamos que os aliados não dispunham de cartas da região que pretendiam manobrar. Sem dúvida, o plano do Conde d'Eu apresentava sinais evidentes das doutrinas napoleônicas. Passará à história como a Manobra do Peribebuy. Os primeiros combates travaram-se a 5 de agosto; Osório, liderando o ataque principal, foi conquistando terreno palmo a palmo. A 6 iniciou a subida da cordilheira; no dia 10 acercou-se de Peribebuy; a 12 partiu para o assalto à praça, defendida por 1.800 homens e 18 canhões, sob o comando do Tenente-Coronel Pablo Caballero. A maior parte desta guarnição era de adolescentes. Nessa ação faleceu o bravo Brigadeiro João Manuel Mena Barreto.

López retirou-se em direção a Caraguatay e o Conde d'Eu lançou-se em seu encalço. A 16 retomou-se o contato com o inimigo, travando-se a batalha de Campo Grande (Acosta Ñu ou Acosta Nhu), que terminou à tarde, com a destruição total do corpo guarani de Caballero.

Na véspera, Osório dirigira-se a Assunção, pois se agravara o seu estado de saúde; a 17 as tropas repousaram, transportaram-se os feridos e providenciou-se a regularização dos abastecimentos.

Retomou-se a perseguição no dia 18; logo depois houve o combate de Caraguatay, onde, em pouco mais de duas horas, foi literalmente arrasado o piquete guarani. Nesse mesmo dia o Exército estacionou nas orlas da vila de mesmo nome.

O inimigo retirava-se velozmente para o norte. A extensão das linhas de abastecimento não permitiu aos aliados manter o mesmo ritmo. A 20 de setembro o Conde d'Eu chegava a Rosário. organizando nova base de operações; a 27, mais uma vez retornou Osório ao comando do 1º Corpo. A 8 de outubro deslocaram-se as tropas de Rosário para San Estanislau, que foi atingida a 13, e que fora abandonada por López a 1º de setembro; a 10 houve uma parada nas cercanias de Caraguatay, aí o Exército permaneceu até 17 de outubro, quando levantou acampamento e, a 30, acomodou-se nas margens do Itamaranuy.

A 16 de outubro o Conde d'Eu e Osório prosseguiram de San Estanislau e a 29 a vanguarda atingiu Caraguatay, permanecendo até 1º de novembro, dia da retomada do movimento para o norte.

Passaram a crescer em importância as ações desenvolvidas pelo General José Antônio Corrêa da Câmara, comandando a 7ª Brigada de infantaria e as 5ª e 10ª de cavalaria. O Conde d'Eu incumbiu-se de bater os inimigos ao norte do rio Jejuí. Câmara atuou em constante perseguição ao inimigo que. com alguns remanescentes, se internava cada vez mais em território paraguaio, dirigindo-se a Cerro Corá, região que foi atingida em 8 de fevereiro de 1870.

Fim da guerra.

A 23 as tropas de Câmara encontravam-se a 34 quilômetros do acampamento inimigo e a 1º de março desferiram o golpe final contra os últimos combatentes guaranis, encontrando-se entre eles o Marechal Francisco Solano López, que recebeu ferimento no ventre por uma lança manejada pelo Alferes José Francisco de Lacerda. Mesmo ferido, tentou escapar por dentro do mato, sendo perseguido pelo General Câmara acompanhado de dois soldados. Encontrado, recebeu intimação para render-se, recusando-se. Um dos soldados tirou-lhe a espada e outro disparou um tiro de fuzil que o fez tombar nas águas do Aquidabanigui, nas quais já estava meio mergulhado. Seu filho mais velho, Francisco, de 16 anos, morreu no combate deste dia. Caíram prisioneiros, além dos elementos que o acompanhavam, sua amante, Elisa Lynch, três filhos, sua mãe e irmãs.

Terminava a guerra, que imolara milhares de soldados de ambas as facções e na qual o Brasil se projetou definitivamente no cenário americano pelas façanhas de suas forças armadas.

Seguir-se-ia longa série de conversações para o estabelecimento da paz e para possibilitar ao Paraguai condições para o seu desenvolvimento e reajustamento no concerto do Continente.