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Guerra da Cisplatina

Origens

A Banda Oriental do Uruguai, que fora incorporada ao Império como Província Cisplatina, era palco de constantes lutas em que se entremeavam com freqüência os ideais de emancipação dos orientais e as intenções de domínio do governo argentino, que pretendia englobar a margem norte do Prata nas Províncias Unidas. A crise enfrentada pelo Império em seu nascimento não lhe permitia empenhar-se profundamente nas campanhas sulinas. As dificuldades de apoio transformavam-se em incentivo para que no extremo sul os descendentes de espanhóis hostilizassem os filhos de portugueses.

O agravamento da situação culminou com o desembarque na praia de Agraciada, em 19 de abril de 1825, do Grupo dos 33, chefiado por Juan Antonio Lavalleja, que partira de Buenos Aires e vinha com determinação lutar pela independência de sua pátria. A marcha de Lavalleja em direção a Montevidéu foi triunfal, pois a pequena força ia crescendo pouco a pouco com a adesão dos compatriotas entusiasmados. Destacou-se a colaboração do Coronel Julián Laguna e do Brigadeiro Frutuoso Rivera, os quais, a serviço do Brasil, aderiram aos revoltosos, com efetivos consideráveis.

Irritado com os acontecimentos, o Tenente-General Carlos Frederico Lecor, Visconde de Laguna, comandante das forças brasileiras, tomou uma iniciativa que se revelou contraproducente: pôs a prêmio a cabeça dos principais chefes uruguaios, o que veio a aumentar-lhes o prestígio e o número de partidários.

Na dependência completa do auxílio argentino, o Congresso de Florida, convocado por Lavalleja, votou em 25 de agosto de 1825 a independência da Banda Oriental e, no mesmo dia, a incorporação desta às Províncias Unidas do Rio da Prata, declarando nulos os tratados anteriores com Portugal e Brasil. Em Buenos Aires, a população exaltada apedrejou o consulado brasileiro e destruiu o escudo nacional.

Em resposta, o governo imperial brasileiro realizou uma demonstração naval no rio da Prata, sem resultados positivos. O General José dos Santos Abreu, o intrépido Barão do Cerro Largo, recebeu ordem de se deslocar para o Uruguai. À frente de 1.200 milicianos atingiu Mercedes, de onde enviou o Coronel Bento Manuel para as pontas do arroio Aquila (4 de setembro de 1825).

O caudilho Rivera conseguiu, em audaciosa operação, atacar de surpresa o Rincão das Galinhas, onde pequeno contingente de 50 homens guardava a cavalhada do General Abreu. Uma pequena força composta de índios guaranis das Missões, que por coincidência chegava ao Rincão para deixar os cavalos, foi surpreendida também por Rivera. Apesar de lutarem bravamente, os brasileiros não resistiram ao ataque, morrendo o Coronel José Luis Mena Barreto.

Bento Manuel, em marcha forçada, atingiu Montevidéu e propôs Lecor atacar as forças de Lavalleja, já que contava com o reforço de Bento Gonçalves, ao todo cerca de 1.500 homens.

Na manhã de 12 de outubro de 1825, os brasileiros foram encontrar o adversário nas cabeceiras do arroio Sarandi, no lugar denominado Orqueta de Sarandi. O General Rivera já tinha se reunido a Lavalleja apresentando agora um efetivo de 2.600 homens de cavalaria, alguns atiradores a pé e uma peça de artilharia. Bento Manuel lançou uma carga de cavalaria e, apesar de romper o centro da linha inimiga, foi repelido na ala direita por Rivera e derrotado no flanco esquerdo, retirando-se com pesadas baixas para Santana do Livramento. Esse evento fez recrudescer a animosidade contra o Brasil, incentivando o entusiasmo de nossos adversários. A Cisplatina ficou quase toda nas mãos dos uruguaios. Lecor conseguiu manter as praças de Montevidéu e Colônia, assediadas pelas tropas de Lavalleja.

A Sala dos Representantes de Buenos Aires declarou, em 25 de outubro de 1825, "a Banda Oriental reintegrada ao seio das Províncias Unidas do Rio da Prata, a que por direito pertenceu e deseja pertencer". A esta resolução respondeu o Império que:

"Havendo o governo das Províncias Unidas do Rio da Prata praticado atos de hostilidade contra este Império, sem provocação e sem preceder declaração expressa de guerra, prescindindo das formas recebidas entre as nações civilizadas, convém à dignidade da Nação brasileira e à ordem que deve ocupar entre as potências, que Eu, tendo ouvido meu Conselho de Estado, declaro, como declaro, a guerra contra as ditas Províncias e seu governo. Portanto, ordeno que por mar e por terra se lhes façam todas as possíveis hostilidades, autorizando o corso e armamento a que meus súditos queiram propor-se contra aquela Nação, declarando que todas as tomadas e presas, qualquer que seja sua qualidade, serão completamente dos apresadores, sem dedução alguma em benefício do tesouro público.

O Supremo Conselho Militar o tenha entendido e o faça publicar, remetendo este por cópia às estações competentes e afixando-o por editais".

Preparativos para a campanha

As tropas argentinas que constituíam o denominado Exército de Observação transpuseram o rio Uruguai na altura de Salto e iniciaram a concentração em Durasno, vagarosamente. Com a retirada do General Martin Rodrigues, assumiu o comando o General Carlos Maria Alvear, antigo Ministro da Guerra. Em dezembro de 1826, com 8.500 homens, julgou-se em condições de iniciar a campanha.

Os brasileiros mantinham-se em defensiva estratégica. O governo imperial resolvera afastar o General Abreu do comando das tropas no Rio Grande do Sul, em dezembro de 1825, substituindo-o pelo General Francisco de Paula Massena Rosado. Esta solução foi considerada uma injustiça para com o experiente chefe gaúcho, e o seu sucessor foi uma péssima escolha, pois revelou incompetência para a missão: apressou-se, inexplicavelmente, em reunir todas as forças disponíveis em Santana, deixando a descoberto a fronteira. Somente em Jaguarão manteve tropa brasileira, pois Bento Gonçalves deixou de cumprir a ordem de concentração. Rosado também foi infeliz na escolha do local de acampamento: a região era insalubre e com péssimos pastos. Enquanto se desentendia com o Presidente da Província, seu exército estagnava. A opinião pública cada vez mais se impacientava com a inexplicável inatividade de nossas forças. D. Pedro I resolveu visitar pessoalmente o teatro de operações. Desembarcou em Santa Catarina e atingiu Porto Alegre. Nesta cidade recebeu a notícia do falecimento da esposa, D. Leopoldina, sendo obrigado a regressar de imediato. Resolveu nomear um novo comandante – o Tenente-General Felisberto Caldeira Brant Pontes, que tinha muito prestígio como militar culto e político talentoso, por decreto de 12 de setembro de 1826, mas só se tornou pública em 1º de outubro.

Em memorandum escrito ao Imperador em 2 de outubro, portanto no dia seguinte, Felisberto Caldeira afirmava: "Um exército nu, descalço, sem munição de guerra e de boca, sem remédios, sem cavalos e reduzido depois de um ano à mais humilhante defensiva, deveria fazer soçobrar o meu espírito..."

Carta imperial de 4 de novembro o agraciava com o título de Marquês de Barbacena. A 1º de janeiro de 1827, Barbacena chegou ao acampamento das forças brasileiras e colheu impressões deprimentes sobre a situação geral da tropa. Imediatamente tomou providências para sanar os problemas, reorganizou as forças, formando duas divisões, cada uma com três brigadas, além de duas brigadas ligeiras de cavalaria que também existiam. Uma delas era a de Bento Gonçalves, em Jaguarão, e a outra a de Bento Manuel, em Santana.

Verificando os inconvenientes apresentados pelas área de concentração escolhida pelo antecessor, deslocou-se para Bagé. Enquanto isso o Marechal-de-Campo Gustavo Henrique Brown, Chefe do Estado-Maior, reunia em Pelotas, por ordem de Barbacena, as unidades estacionadas na fronteira de Jaguarão e mais alguns elementos vindos por mar do Rio de Janeiro, totalizando cerca de 1.600 homens.

Planos de Barbacena e de Alvear

No mesmo memorandum, de 2 de outubro, o Marquês de Barbacena enviara ao governo imperial a exposição de seu plano de guerra.

1) expulsar o inimigo para além do Uruguai;

2) ocupar posteriormente a Província de Entre Ríos;

3) obrigar a República Argentina a solicitar a paz sem possibilidade de renovar as hostilidades.

Para a sua realização previa Barbacena uma força de 15 mil homens, além de uma reserva de 4 mil. Além disso, queria ter autonomia em relação ao Presidente da Província e contar com a cooperação da Marinha. Ao chegar à área de operações, a precariedade dos meios forçou-o a adotar, inicialmente, uma atitude defensiva. Decidiu concentrar as forças de que dispunha na região de Bagé e justificou-se:

"Enquanto eu não tiver força igual à sua ou não cometer o inimigo algum grande erro estratégico, permanecerei em pura defensiva, atraindo-o o quanto puder para o interior, porque nesta direção eu ficarei cada dia mais forte em gente, cavalos e munição, e ele mais fraco em todos estes elementos."

Os brasileiros levantaram acampamento a 13 de janeiro de 1827 e, a 4 de fevereiro, atingiram as nascentes do Lexiguana, juntando-se às forças do Marechal Brown. Recomeçaram o deslocamento em direção ao inimigo no dia 10 do mesmo mês.

O plano de Alvear não fora redigido nem divulgado antes das operações. O que dele se conhece consta de uma exposição de motivos apresentada à Sala dos Representantes de seu país, na qual se defende de acusações. Disse nessa ocasião:

"Pretendia vencer o Exército imperial antes que tivesse condições de tomar o ofensiva, a fim de obrigar o Imperador a negociar a paz; lançar um corpo de cavalaria sobre Santana, enquanto o grosso das tropas subiria o rio Negro, manobrando, alternadamente, nas duas margens, segundo o permitissem as circunstâncias e o movimento do inimigo; levar essa manobra até Bagé e aí entrar na Coxilha Grande, para ficar em condições de tomar de flanco todos os rios do Continente de São Pedro e outros lugares."

Alvear tomou uma atitude francamente ofensiva, procurando impedir a união das forças brasileiras para, em seguida, dominá-las separadamente.

Bento Manuel perde contato com o inimigo

Uma das razões dos deslocamentos a esmo antes da batalha foi a escassez de informações. Ambos os contendores ignoravam o que se passava com o oponente, emprestando-lhe intenções nem sempre confirmadas. Barbacena escrevia a 5 de fevereiro para o Ministro da Guerra: "Para mim é indubitável que o inimigo se retira, suposto haver no exército quem pense que Alvear procura os campos de Santana, vantajosos à sua cavalhada, pela mesma razão eu procuro as montanhas pedregosas do Camaquã (...). A incerteza não pode durar 48 horas porque destaquei sobre seus flancos as duas brigadas inteiras de Bento Manuel Ribeiro e Bento Gonçalves e vou em seu seguimento."

A vanguarda de Bento Manuel atacou a 13 de fevereiro uma patrulha inimiga às margens do Vacacaí; o Coronel Lavalleja, à frente de dois regimentos, socorreu a patrulha, mas nossos elementos, apoiados pela 1ª Brigada de Cavalaria Ligeira, manobraram em retirada, não ousando o inimigo persegui-los.

A 15 de fevereiro encontraram-se a brigada de Bento Manuel e a tropa de cavalaria do General Lúcio Mansilla, nas imediações do Passo de Umbu. O primeiro atravessou rapidamente o passo e, colocando-se na outra margem do lbicuó-Mirim, defendeu a passagem. Mansilla retornou a Cacequi, enquanto Bento Manuel rumava para o Jaguari, perdendo o contato com o adversário e a ligação com o grosso do exército, e enviando, ainda nesse dia, um informe ao Marquês de Barbacena que até hoje constitui uma interrogação:

"O carretame do inimigo deixou hoje pelo Campo da Cruz, entre o banhado do Jacaré e Cacequi; é certa a retirada por São Simão. Eu hoje vou ficar em Ibicuí, no Passo do Umbú, pôr as minhas cavalhadas em segurança e fazer-lhes guerrilhas, até passar em Santa Marra, logo que passem no fundo do Loreto, e vou sair adiante. Eles, segundo as suas marchas, só depois de amanhã poderão chegar ao passo."

Batalha do Passo do Rosário

Se o Marquês de Barbacena não ignorasse tudo sobre o dispositivo inimigo na região do Passo do Rosário, no rio Santa Maria, a batalha de 20 de fevereiro de 1827 converter-se-ia em desastre para as forças de Alvear. É que ele se colocou em situação desvantajosa, tendo à retaguarda um rio cheio, que permitia apenas a passagem a nado; no flanco direito uma várzea baixa e alagadiça, e no esquerdo, uma região de alturas, sem nenhuma via de transporte aproveitável. Na frente, nas estradas Cacequi-Rosário e São Gabriel-Rosário, marchavam as forças brasileiras, imprensando-o de encontro ao rio Santa Maria.

Mais tarde declarou o General argentino que pretendia atrair as forças brasileiras para a passagem do Santa Maria, simulando uma retirada. A justificação era pouco aceitável, pois o terreno era desfavorável àquele tipo de manobra.

O campo de batalha, de maneira geral, resumia-se praticamente a duas linhas de coxilhas, no sentido norte-sul, separadas por vale estreito, conhecido como sanga do Barro Negro, um obstáculo natural que, parece, na época só permitia a passagem em alguns lugares. Ao sul dessa região existia uma várzea alagadiça, por onde descia o arroio Ituzaingó ou Imbaé, procurando o rio Santa Maria. A sanga do Barro Negro corria mais próxima das coxilhas do leste, deixando maiores espaços para ao lado oeste. Favorecia o emprego ofensivo da cavalaria argentina, e a defesa, pela infantaria, da posição brasileira. O exército brasileiro em campanha, em que predominava a infantaria, dispunha de posição favorável ao emprego dessa arma, proporcionando condições mais favoráveis a uma retirada do que a posição argentina.

O exército argentino, ao alvorecer do dia 20 de fevereiro, tomou posição com o 5º Batalhão da Divisão Olazábal em 1º escalão, sobre a região chamada do Cirillo, ao norte da estrada de Cacequi. Enquadraram-se as divisões de cavalaria orientais, a de Laguna, ao norte, e as restantes, sob o comando de Lavalleja, ao sul. O grosso das forças de Alvear estava a oeste, a cavaleiro da estrada.
O exército brasileiro chegou ao campo de batalha pela estrada velha de São Gabriel e desdobrou-se para a direita. A 1ª Divisão, comandada pelo Brigadeiro Sebastião Barreto Pereira Pinto, marchou para o norte até tomar posição na estrada de Cacequi. A 2ª, do General João Crisóstomo Calado, colocou-se no flanco sul, frente à cavalaria de Lavalleja. As brigadas ligeiras do Marechal José dos Santos Abreu e do Coronel Bento Gonçalves cobriam os flancos esquerdos e direito do dispositivo imperial.

Desconhecido exatamente o efetivo e o valor do inimigo à sua frente, e na crença de que ali se achava apenas uma parte, decidiu o Marquês de Barbacena lançar o ataque com as duas divisões de primeiro escalão. Os brasileiros atravessaram a sanga, progredindo em direção ao inimigo. Para barrar o avanço da Divisão Barreto, Alvear lançou sucessivamente a Divisão Laguna, os regimentos de cavalaria do General Frederico Brandzen e do Coronel José Maria Paz e três batalhões de caçadores. A Divisão Barreto repeliu todos esses ataques, retraindo-se depois para sua posição inicial, em virtude de ter o flanco direito, protegido por Bento Gonçalves, sob ameaça de envolvimento, já que sua brigada cedera ante violenta carga da Divisão Lavalleja, desmembrando-se em parte. Pelo lado esquerdo, a mesma Divisão carregou sobre os milicianos de Abreu que, em confusão e entremeados com o inimigo, vieram de encontro à 2ª Divisão. O General Calado foi obrigado a receber a fogo a avalanche mesclada de uruguaios e brasileiros. Foi quando tombou mortalmente ferido o Marechal Abreu, com certeza atingido pelos defensores. Era uma perda muito grande. Abreu apresentara-se como voluntário para esta campanha. Homem simples, de poucas letras, lutara a vida toda e de soldado chegara a Marechal.

Calado repeliu sucessivas cargas inimigas. Sua Divisão achava-se muito afastada da Divisão Barreto e o intervalo entre as duas unidades constituía grave ameaça. Barbacena ordenou então que a 1ª Divisão cerrasse sobre a 2ª, mas isto já não era possível. A Divisão Calado estava desfalcada da 3ª Brigada de Cavalaria, deslocada para cobrir o flanco da 1ª Divisão, após a retirada de Bento Gonçalves.

Iniciou-se assim o recuo da 1ª Divisão. Já eram 14 horas, a batalha durava mais de seis horas, sem resultado decisivo. Os argentinos e orientais arremetiam em cargas furiosas, mas eram contidos pelas formações em quadrado de Barreto e de Calado. O fogo que se propagara à macega ressequida do terreno em que estavam os brasileiros, impulsionado por um vento forte, tornava o ambiente insuportável, pela fumaça e pelo calor. Escasseava a munição.

Barbacena então resolveu interromper o combate, apesar da insistência de Brown, que persistia na idéia de renovar as ações ofensivas. O movimento de retirada fez-se lento e ordenado pela estrada de Cacequi, marchando na frente a 1ª Divisão. A Divisão Calado conteve os últimos ataques inimigos. Os argentinos e uruguaios, cansados e abalados pelos insucessos das cargas, não efetuaram perseguição. Apenas o Coronel Lavalleja, com uma tropa de cavalaria, acompanhou o deslocamento à distância, sem disparar um tiro.

Alvear pensava em reunir as forças e retornar para o Passo do Rosário. Temia a chegada de reforços imperiais.

A luta durara cerca de oito horas consecutivas e pouco mais de 5 mil brasileiros enfrentaram um efetivo de mais de 8 mil platinos. As perdas foram muito grandes, em ambos os lados. Segundo o Barão do Rio Branco, tivemos uns 200 mortos e 150 feridos ou prisioneiros além de 80o extraviados. Nossos adversários tiveram cerca de 150 mortos e 250 feridos. A brigada de cavalaria de Bento Manuel não tomou parte na batalha. Perdeu o contato com o inimigo e não buscou restabelecê-lo. O historiador Tasso Fragoso diz o seguinte:

"É difícil, senão impossível, liquidar hoje esse ponto controverso. Os contemporâneos guardaram da ausência do comandante da 1ª Brigada Ligeira impressão muito desagradável. (...) Quaisquer, porém, que tenham sido as causas determinantes de seu procedimento, minha impressão pessoal é que em nenhuma delas se poderia descobrir seja temor, seja falta de patriotismo".

Barbacena retirou-se na direção do passo do Cacequi, transpôs o Ibicuí e acampou na margem direita. Em seguida, por São Sepé, atravessou o Jacuí na Passo de São Lourenço e estacionou na margem norte daquele rio. Deixara em São Sepé toda a cavalaria ao comando do General Barreto. A intenção de Barbacena, ao que parece, era estabelecer uma defensiva protegido por um obstáculo apreciável, mas deixava a descoberto o caminho para Porto Alegre.

O General Alvear, do Passo do Rosário, voltou a São Gabriel e logo depois ao arroio Los Currales, onde chegou a 19 de março. A 13 de abril deixou Los Currales e, com tropas a pé, reocupou Bagé. Segundo ele, era uma segunda invasão do Rio Grande. Após algumas ações de pequena importância, em contatos com destacamentos avançados de Barreto, em Santa Tecla e no Camaquã, pretendia Alvear investir novamente sobre o Rio Grande. A 9 de maio de 1827 o Coronel Bonifácio Isas Calderón surpreendeu o quartel-general de Oribe em Cerro Largo, aprisionando o chefe uruguaio e capturando muito material inimigo.

O exército argentino rumou depois em direção a Melo, onde chegou a 10 de junho e de onde Alvear oficiou ao Ministro da Guerra, informando sobre o deplorável estado de suas forças e concluindo pela conveniência de abandonar a luta por algum tempo.

Atividades finais da campanha

O Marechal Henrique Brown assumiu o comando do exército em operações no sul em São Lourenço, em julho de 1827. Sabia da presença de Alvear em Melo e discordava dos pontos de vista estratégicos de Barbacena e do local de concentração escolhido. Reuniu inicialmente as forças em Cerrito e depois optou por São Francisco de Paula, para onde se deslocou em setembro de 1827.

Embora já se noticiasse que o General Lecor substituiria Barbacena no comando geral do exército em campanha, Brown prosseguiu tomando providências para a execução de seu plano que era penetrar na Cisplatina pela Coxilha Grande, subir a serra de Aceguá e ganhar o flanco direito do inimigo, em coordenação com um destacamento em Santa Tecla e um corpo enviado para este fim a Montevidéu. Contava com o efetivo de 9 mil homens.

Tomando conhecimento da nomeação de Lecor em novembro de 1827, o Marechal Brown foi ao seu encontro em Rio Grande, onde recebeu instruções. A idéia de manobra de Lecor era defensiva e o planejamento elaborado teve de ser posto de lado. Por meio de ofício, Brown recebeu instruções para deslocar o exército para Candiota. Esse movimento para o norte animou Lavalleja que mandou ocupar a povoação deixada pelos brasileiros.

Sabendo que Lavalleja havia repassado o Jaguarão, Brown planejou um reconhecimento da força do inimigo. Os comandantes de nossas forças de cavalaria, que tinham prevenções antigas contra o chefe do estado-maior, discordaram da operação. A 9 de janeiro de 1828 Lecor chegou ao acampamento, resolvendo o incidente. Brown continuou no posto, mas João Crisóstomo Calado, Francisco Soares de Andréa e o Coronel Elzeário de Miranda e Brito deixaram o exército.

A operação iniciou-se a 28 de janeiro. A 23 de março chegou ao local um Ajudante do Imperador e no dia seguinte o Sr. Fraser, secretário da legação inglesa, com a missão de negociar um armistício entre as forças brasileiras e orientais.

Apesar das recomendações de Brown, Lecor relaxou as medidas de segurança e Lavalleja aproveitou para atacar. O comandante do exército brasileiro então encarregou o chefe do estado-maior, com três batalhões de infantaria e uma brigada de cavalaria, de investir contra o adversário. Brown logrou surpreender o inimigo no arroio Las Canas, obrigando Lavalleja a retrair-se para Cerro Largo.

Da batalha diplomática surge o Uruguai

A Argentina sentia-se esgotada. Debatia-se com sérios problemas internos e julgava-se sem forças para continuar a guerra, enquanto que o Brasil, aos poucos, se refazia do insucesso no Passo do Rosário, reorganizando paulatinamente suas forças. O interesse dos argentinos em buscar a paz devia-se à impossibilidade de suportar uma guerra prolongada. O embaixador argentino Manuel José Garcia foi mandado ao Rio de Janeiro para entabular as negociações de paz, resultando um acordo com o governo imperial.

Pela Convenção Preliminar de 24 de maio de 1827 a Argentina reconhecia "a independência e a integridade do Império do Brasil e renunciava a todos os direitos que poderia pretender no território da Província de Montevidéu, chamada Cisplatina". Esse acordo levantou uma onda de protestos em Buenos Aires e foi rejeitado pelo Presidente Bernardino Rivadavia em decreto assinado a 25 de junho.

A Inglaterra ofereceu mediação em 1826 e Lord Ponsonby conseguiu que Manuel Dorrego, Presidente da República Argentina, enviasse ao Brasil os Generais Tomás Guido e Juan Ramón Balcarce, em missão extraordinária.

A 27 de agosto de 1828 firmou-se a Convenção Preliminar de Paz entre o Brasil e a República das Províncias Unidas do Rio da Prata, pela qual se reconhecida a independência da Província de Montevidéu, chamada hoje Cisplatina. Pelo Brasil assinaram os Ministros João Carlos Augusto de Oyenhausen Gravenburg – Marquês de Aracati –, José Clemente Pereira e Tenente-General Joaquim de Oliveira Álvares.

Da sangrenta luta travada na sanga do Barro Negro, junto ao Passo do Rosário, resultava uma nova nacionalidade. Antes de morrer, Artigas pôde em seu melancólico retiro em Assunção agradecer a Deus a concretização do almejado sonho de independência uruguaia.