O Exército

Crônicas da Guerra

Crônicas da Guerra

Em Guanella com um amigo

Ruy de Oliveira Fonseca, grande amigo brasileiro de Gaggio Montano e de sua gente, retornou, ainda uma vez, a Guanella. Naquela área que foi, em 1945, o teatro de duríssimos combates, agora existe o maior monumento dedicado ao brasileiros mortos na II Guerra Mundial.
O autor - Fábio Gualandi -, em um passeio ameno com Ruy de Oliveira, recorda aqueles dias inesquecíveis.


Um dia do mês de junho do ano de 2004, junto com o amigo Ruy de Oliveira Fonseca, de Juiz de Fora, Minas Gerais - Brasil, caminhava na estrada panorâmica que leva a Guanella. Desse ponto, o olhar pode alcançar o vale até Porretta Terme e mais além. Comentávamos, com toda serenidade, a beleza do panorama e das casas que, lá de cima, pareciam brotar do terreno como fungos na plantação.

E assim, conversando, voltamos aos anos 1944-45, um período que traz muitas recordações ao meu caro amigo. As palavras de quem esteve com o seu pelotão na linha de frente, aqui mesmo em Guanella, despertavam acentuada curiosidade em mim.

A Guanella (foto de Luciano Marchi)

Ruy dizia, entre outras coisas, que ninguém naqueles dias podia caminhar naquela estrada com desenvoltura e tranqüilidade. À nossa esquerda, estavam, então, as últimas posições dos brasileiros voltados para Monte Castelo. Ninguém, de dia, se arriscava a atravessar a estrada sob pena de encontrar-se na "terra de ninguém". Ruy recordava o silêncio total que reinava à noite; dava medo; um silêncio quebrado somente pelo ruído dos canhões. Vivia-se num estado de alerta enervante: cada pequeno ruído despertava a máxima atenção. Ruy recordava o frio, a neve, a sua cama que era de palha e o tempo que não passava.
E assim, conversando, nos sentamos à beira do caminho. O dia estava bonito, um pouco mais quente que o normal; mas não ligávamos. Naquela paz solene e silenciosa o meu amigo (então tenente do Exército Brasileiro) me fez recordar, com um fio de emoção, aquela quarta-feira, 20 de dezembro de 1944. Esse particular me fez entender quantas coisas permanecem ainda gravadas, nos mínimos detalhes, em sua mente.

Naquele dia, o Tenente Ruy e o seu Pelotão se reuniram em uma velha estrebaria do casario aguardando a visita do Frei Orlando, capelão militar. Em sua chegada, foi acolhido calorosamente, graças à alegria que o capelão sabia transmitir. O Tenente Ruy lhe apresentou os componentes do Pelotão e o Capelão, vestindo a batina, os benzeu "Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo".
Como sempre, Frei Orlando procurou encorajar os soldados, apreensivos pela incerteza do combate, mostrando os ensinamentos da Sagrada Escritura. Falando do interior da estrebaria, aproveitou para comentar que Jesus havia nascido num local como aquele - já que estavam próximos do Natal - e que Ele também havia vivido os seus primeiros dias em uma manjedoura. Quando o Frei se apressou para distribuir a comunhão, os soldados o lembraram que ninguém havia se confessado. Mas o bom religioso os tranqüilizou dizendo: "Tudo aquilo que vocês me disseram, Deus já sabe muito bem e eu sou somente o instrumento da Sua vontade de perdoar-vos, por isso estou aqui para ouvir as suas confissões". Depois de uma breve pausa, continuou: "Pedirei a Deus para perdoar-vos, contando que cada um de vós se arrependa sinceramente daquilo que pesa sobre sua consciência. Deus sabe que vocês estão em perigo de vida permanente". Fez o sinal da cruz sobre as testas dos soldados e pronunciou as palavras sacramentais: "Eu vos absolvo dos vossos pecados." Sabendo que Ruy era um ex-seminarista, olhou de canto de olho e lhe disse sussurrando: "In articulo mortis", tornando-o, de qualquer modo, cúmplice daquele ato de relevância excepcional.

Distribuída a comunhão a todos os presentes, Frei Orlando permaneceu ainda por muito tempo no meio deles, confortando-os com belas palavras que somente ele sabia dizer e, assim, todos retornaram às trincheiras para cumprir seus deveres. Na solidão, mas com o ânimo renovado.

O amigo Ruy estava contente com aquela parada inesperada. Sorrindo, parecia rever o passado; somente de vez em quando fixava um ponto distante e seu rosto mudava de expressão...parecia que seu pensamento retornava àqueles momentos tristes que o tempo não apagou.

O Tenente Ruy de Oliveira Fonseca na estação de Bolonha, em 19 de junho de 1945, dia da sua partida para o Brasil.

 

Autor: Fábio Gualandi, cidadão italiano que vive na cidade de Bolonha.